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Neurobiologia da Dependência
Química
Parte III: Fisiologia do Sistema Nervoso
Uma afirmação é fundamental
quando se procura um ponto de partida para o entendimento da fisiologia
do cérebro e de todo o sistema nervoso:
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O CÉREBRO
É UM ÓRGÃO ELÉTRICO
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| FIGURA 1: O sistema nervoso processa
a informação a partir da conversão
de estímulos sensoriais em estímulos elétricos
e químicos. |
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A principal função do sistema nervoso
é captar informação sensorial do meio externo,
analisá-la e enviar informação aos órgãos
do corpo para que respondam à informação que
o cérebro recebeu. Isso se dá a partir da conversão
dos estímulos sensoriais (visão, gustação,
tato, dor, calor...) em informações elétricas,
que se convertem em informação química na sinapse,
novamente em informação elétrica e assim por
diante. Após a tomada de conhecimento da informação
pelo cérebro, o mesmo processo se sucede até atingir
o órgão alvo, onde se converte em energia motora (contração
do músculo, liberação de hormônios, tremores,
contração das glândulas do suor ...).
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| FIGURA 2: O modelo da lâmpada
e da bateria. O problema do espaço entre os fios,
que impossibilitava a passagem da energia elétrica,
foi resolvido pela colocação de uma solução
iônica, capaz de conduzir a eletricidade ao fio
seguinte. |
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| FIGURA 3: Um neurônio funciona
de um modo semelhante. A célula é capaz
de gerar estímulos elétricos, que se propagam
pelos axônios até a terminação
sináptica. Nessa são despejados neurotransmissores,
que se ligam a receptores do neurônio seguinte,
propagando assim o estímulo. |
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O modelo da bateria e da lâmpada
Tomando por modelo uma bateria e uma lâmpada
(Figura 2). A bateria é um dispositivo capaz de gerar
energia elétrica. A lâmpada consegue fornecer luz (energia
térmica) a partir da passagem da corrente elétrica
em seu interior.
Nos pólos de um desses objetos, há
dois fios de cobre. O cobre é um bom condutor de energia
elétrica. Esses fios se prolongam um em direção
ao outro mas sem se tocarem. Os dois objetos estão fixos
e irremovíveis e os fios são inflexíveis. Como
seria possível a obtenção de luz, uma vez que
fisicamente é impossível fazer com os fios se toquem?
Uma solução de água e
sal resolveria o problema (Figura 2). O sal (cloreto de sódio)
quando diluído em água transforma-se numa solução
iônica e suas cargas permitem a passagem de energia. Desse
modo, por meio de um artifício químico, foi possível
à energia elétrica gerada pela bateria continuar seu
caminho até a lâmpada. O calor dissipado pela corrente
elétrica dentro da lâmpada se transforma em energia
térmica, em luz. Uma forma de energia se convertendo em outra,
viabilizada pela presença de uma mistura iônica (água
e sal).
Mas o que poderia ser feito modular a intensidade
da luz, por exemplo, como torná-la mais intensa? Algumas
soluções seriam possíveis (Figura 3).
- Concentrar mais o soluto. Quanto mais sal for colocado
na solução, mais íons estarão disponíveis
e a energia elétrica pode passar com mais intensidade.
- Aumentar a carga da bateria. Quanto mais forte o estímulo
elétrico, maior a intensidade da luz.
- Aumentar o diâmetro do fio. Quanto maior o calibre
do fio, menor a resistência do mesmo à corrente elétrica
até chegar à lâmpada.
- Escolher um melhor condutor. O ouro, por exemplo, conduz
energia elétrica melhor do que o cobre.
Trazendo esse modelo para o sistema nervoso (Figura
3), poder-se-ia dizer que a bateria são os corpos
neuronais, capazes de gerar estímulos elétricos.
Os fios condutores dessa energia seriam os axônios.
Da mesma forma que nossos fios convencionais necessitam serem encapados
com isolantes (borracha) para 'canalizar' a corrente elétrica,
os axônios são encapados por bainhas de mielina.
As terminações dos fios, muito próximas
mas intocáveis, são as sinapses. No
interior da sinapse a propagação do estímulo
se dá por meio de neurotransmissores. Os neurotransmissores
viabilizam a propagação do estímulo elétrico
gerado pelo neurônio ligando-se a receptores,
localizados na membrana do neurônio seguinte. Para modular
a intensidade do estímulo, esses receptores podem variar
em número (fio mais ou menos calibroso) ou em sensibilidade
à presença do neurotransmissor (fio de cobre ou
de ouro). Por fim, a lâmpada equivale ao resultado
da ordem enviada pelo sistema nervoso aos órgãos do
corpo. Por exemplo, ao captar do ambiente um aroma agradável
de comida, o cérebro prepara o organismo para receber o alimento,
ordenando a secreção da saliva e do suco gástrico
para digeri-lo. A intensidade das secreções dependerão
do tamanho da fome e do quanto se gosta daquele tipo de comida.
A sinapse e os neurotransmissores
Neurotransmissores são substâncias
liberadas na sinapse após a chegada de um estímulo
elétrico. Eles são produzidos pelas mitocôndrias
(localizadas próximas ao botão sináptico) e
armazenados em vesículas (Figura 4). A chegada do
estímulo elétrico provoca a fusão das membranas
da vesícula com as membranas do terminal do axônio
(membrana pré-sináptica), liberando os neurotransmissores.
Esses se ligam aos receptores, localizados na membrana do neurônio
seguinte (membrana pós-sináptica) (Figura 5).
Quando estimulados pelos neurotransmissores, os
receptores despolarizam a membrana do neurônio, isto
é, geram um novo estímulo elétrico. Desse
modo, uma informação enviada na forma de um estímulo
elétrico converteu-se em informação química,
que em seguida foi novamente convertida em estímulo elétrico.
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| FIGURA 4: A sinapse é o local onde
a informação é transferida de um neurônio
para o outro. Nas proximidades da terminação,
os axônios perdem sua bainha de mielina e se dividem em
numerosos ramos terminais [figura à esquerda].
A parte 'desencapada' da terminação do axônio
se dilata para formar o botão sináptico
[figura à direita], que aumenta a área
de contato. Na sinapse a informação elétrica
é convertida em informação química,
por meio da liberação de neurotransmissores. Os
neurotransmissores são produzidos pelas mitocôndrias
e armazenados em vesículas, posicionadas próximas
à membrana do axônio. Os neurotransmissores possuem
funções específicas, podendo ser, por exemplo,
inibitórios ou excitatórios. Sua presença
na sinapse estimula a membrana do neurônio seguinte, e
se propaga o estímulo elétrico original. FONTE
(imagem e texto): Netter F. Fisiologia e neuroanatomia funcional.
SP: Lemos Ed. 1997. |
Vários tipos de substâncias atuam
como neurotransmissores, podendo ser elas hormônios (hormônios
tireóideanos, hipofisários, insulina), aminoácidos
(glicina, glutamato, GABA), aminas (noradrenalina, serotonina, dopamina)
e a acetilcolina. Cada neurotransmissor tem uma mensagem específica
para o neurônio seguinte. Quanto mais neurotransmissores forem
liberados na fenda (tal qual o sal no modelo da bateria e da lâmpada),
mais intenso o estímulo será. Quanto mais receptores
estiverem disponíveis na membrana do neurônio (calibre
do fio) e quanto mais sensíveis eles forem àquele
neurotransmissor (metal condutor), com mais intensidade o estímulo
se dará. Portanto a quantidade de neurotransmissores secretados
na fenda sináptica, o número e a sensibilidade dos
receptores são importantes mecanismos para regular a intensidade
de um estímulo.
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FIGURA 5: A neurotransmissão.
A chegada de um estímulo elétrico [1]
faz com que a vesícula de neurotransmissores
se funda à membrana pré-sináptica
[2], provocando
liberação destes [3].
Na fenda sináptica, os neurotransmissores se
ligam ao seu receptor específico [4],
que despolariza a membrana pós-sináptica,
propagando o estímulo elétrico [5].
O organismo, logo após a propagação
do estímulo, retira rapidamente o neurotransmissor
da fenda. Isso acontece de três maneiras: a bomba
de recaptação recupera ativamente
os neurotransmissores liberados [6]
e os armazena novamente [7].
Enzimas presentes na fenda destroem os neurotransmissores
[8]. Os neurotransmissores
saem da fenda espontaneamente (difusão) [9].
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Outro fator regulador importantíssimo é
a remoção do neurotransmissor da fenda sináptica.
Quanto mais tempo o neurotransmissor permanecer na sinapse, maior
será o estímulo propagado. Desse modo, é importante
que ele seja retirado rapidamente da fenda. A remoção
dos neurotransmissores se dá pela [1] saída
espontânea do neurotransmissor para o meio externo (difusão),
[2] destruição do neurotransmissor por enzimas,
[3] recuperação dos neurotransmissores por
meio de bombas de recaptação, para serem
re-armazenados em vesículas e reaproveitados (Figura 5).
As bombas de recaptação merecerem destaque, por estarem
envolvidas no mecanismo de ação da cocaína,
da anfetamina e do ecstasy no cérebro, como será visto
adiante.
O estímulo elétrico
Já é sabido que o cérebro
é um órgão elétrico. Isto é,
as informações que recebe e envia para o meio ambiente,
são transmitidos por meio de impulsos elétricos e
químicos. A informação química é
transmitida por meio da interação de neurotransmissores
e receptores. No sistema nervoso, os estímulos elétricos
são chamados de potenciais de ação.
Os potenciais de ação são gerados pela diferença
de concentração de íons misturados aos líquidos
de dentro e de fora da células nervosas. Os íons possuem
carga elétrica positiva ou negativa.
Em qualquer mistura, há sempre a tendência
ao equilíbrio, isto é, as partículas sempre
alcançam uma distribuição semelhante (homogênea)
por todo o líquido. Isso pode ser facilmente percebido quando
se faz suco em pó. Inicialmente a cor do pó se concentra
numa porção do líquido e aos poucos vai se
espalhando (se difundindo), até deixar o líquido com
uma cor única (homogênea). Esse fenômeno natural
é denominado difusão.
As células neuronais são delimitadas
por membranas. As membranas impedem que moléculas grandes
(como as proteínas) entrem e saiam da célula, mas
seus buracos são muito grandes para impedirem o livre trânsito
dos íons. Como partículas de uma mistura, eles tendem
a se misturar igualmente dentro e fora da célula.
As membranas das células, no entanto, possuem
uma estrutura denominada bomba de sódio
(Na+) e potássio (K+) (Figura
6). Essa bomba (tal como uma bomba de dragagem) coloca para
fora o máximo possível de sódio e coloca para
dentro o máximo possível de potássio (veja
uma animação). O interior da
célula possui proteínas com cargas negativas, que
são muito grandes para atravessarem a parede das membranas
e ficam retidas. Para compensar essa carga negativa, os íons
cloreto (Cl-) vão naturalmente para fora da célula
(difusão).
Qual o resultado final. Dentro do neurônio
há mais sódio e proteínas com cargas negativas.
Fora do neurônio há mais potássio e cloreto.
Devido a esse diferencial elétrico criado pela bomba de sódio
e potássio e pela presença das proteínas com
cargas negativas, o interior do neurônio é cerca de
70 milivolts (mV) mais negativo que o meio extracelular.
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| FIGURA 6: Na figura à esquerda vê-se
a distribuição dos íons (eletrólitos),
elementos químicos dotados de cargas elétricas,
dentro e fora das células. Vê-se de pronto que
o interior das células é mais rico em potássio
e o exterior, em sódio. Isso acontece devido a existência
da bomba de sódio e potássio (clique
na figura à direita para ver uma animação),
que retira ativamente (ou seja, com gasto de energia) o sódio
da célula e o troca por potássio extracelular.
Isso torna o interior da célula mais negativo. |
A propagação do estímulo
elétrico (despolarização)
A pele possui receptores especializados para
detectar estímulos táteis. Isso quer dizer que esses
receptores são capazes de converter estímulos mecânicos
em elétricos. Quando eles recebem tal estímulo do
meio ambiente (por exemplo, uma picada de pernilongo), ocorre um
fenômeno chamado despolarização.
O interior de suas células é mais
negativo que o exterior, a custa do trabalho da bomba de sócio
e potássio. As membranas de suas células, porém,
possuem canais (Figura 5) que permitem a entrada
e saída rápida de íons que a bomba de sódio
e potássio tornara desiguais. Com a chegada do estímulo,
esses canais são abertos e o interior da célula vai
se tornando positivo. Isso gera o potencial de ação
(estímulo elétrico). O interior da célula que
era de -70mV vai para +20mV. Nesse ponto, os canais se fecham e
a bomba volta trocar íons sódio por potássio,
tornando o interior da célula novamente negativo (repolarização).
Esse fenômeno vai se propagando ao longo do axônio até
a sinapse. Seria como se o axônio fosse uma carreira de pólvora
inflamada e a despolarização a chama que a percorre.
A chama é a despolarização. Tudo o que estiver
atrás da chama já se repolarizou. O que estiver adiante
são membranas ainda em repouso. Quando esse estímulo
elétrico chega à sinapse as vesículas de neurotransmissores
são liberadas na fenda. O neurotransmissor se liga aos receptores
que despolarizam a membrana do neurônio seguinte. E o estímulo
elétrico segue.
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