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Diretrizes para o manejo e encaminhamento de adolescentes com problemas relacionados ao consumo de álcool e drogas
Indications for Management and Referral of Patients Involved in Substance Abuse

COMMITTEE ON SUBSTANCE ABUSE, 1999-2000
Edward A Jacobs MD, Chairperson
Stuart M Copperman
Alain Joffe
John Kulig
Catherine A. McDonald
Peter D Rogers
Rizwan Z Shah
American Academy of Child and Adolescent Psychiatry
National Institute of Alcohol Abuse and Alcoholism (NIAAA)
National Institute on Drug Abuse (NIDA)

Pediatrics
Volume 106 . Número 1 . Julho 2000


As diretrizes contidas no presente artigo foram elaboradas e dirigidas aos profissionais da pediatria. No entanto, as considerações elencadas pelo artigo acerca do abuso de substâncias por adolescentes, podem ser grande valia para outros profissionais, bem como para qualquer pessoa interessada pelo assunto. O artigo apresenta as principais fases do consumo de drogas, alerta para a presença de outras doenças psiquiátricas associadas (comorbidades), sugere o melhor tratamento para cada fase. Por fim, ressalta a importância do envolvimento da família no sucesso do tratamento.


Estágios do consumo de drogas por adolescentes

O presente artigo sugere a existência de cinco estágios de consumo (quadro 1). Os primeiros são mais difíceis de avaliar, mas não devem ser negligenciados ou tratados trivialmente como 'uma fase'. Complicações agudas, algumas vezes letais, podem acontecer independentemente do tempo ou da gravidade do consumo.

Quadro 1: Estágios do consumo de drogas por adolescentes

I. Potencial de abuso

Prejuízo no controle dos impulsos, necessidade de gratificação imediata, disponibilidade de álcool, tabaco e drogas no meio, necessidade de aceitação nos grupos.

II. Experimentação

Consumo com amigos, poucas (se alguma) conseqüências, aumento do uso nos fins-de-semana, mudanças (se alguma) de comportamento discretas.

III. Uso regular:

A busca pela euforia

Uso de múltiploas substâncias, mudanças de comportamento, algumas conseqüências, aumento global do consumo, uso solitário, contravenções.

IV. Uso regular:

A preocupação com a euforia

Uso regular, perda do controle, múltiplas conseqüências, comportamentos de risco, estranhamento dentro do ambiente familiar e círculos de amizade.

V. Fadiga

Consumo para aliviar sintomas de abstinência, uso (e dependência) de múltiplas drogas, culpa, vergonha, remorso, depressão, deterioração física e mental, aumento dos comportamentos de risco, autodestrutivos e suicidas.

A primeira fase requer abordagens preventivas (ainda não há presença do consumo). A segunda fase, deve ser educativa, isenta de confrontos ou ameaças e voltada para o aprimoramento da estrutura familiar e social do adolescente. A maneira como os pais estabelecem as normas de convívio dentro de casa e o papel da escola devem ser avaliados e discutidos. A maior parte dos adolescentes abandona o consumo de drogas com a chegada da idade adulta. Por isso, é importante discutir com eles os riscos ligados ao uso de álcool, tabaco e outras drogas e o quanto estes comprometem suas ambições futuras. A intenção é motivá-los para a mudança. A demonstração de preocupação e interesse, bem como a participação ativa na busca de soluções para o problema são fundamentais em qualquer um destes estágios. As últimas três fases já possuem níveis de gravidade que pressupõem medidas mais diretivas e emergenciais. A família deve ser chamada a participar ativamente e o tratamento especializado é fundamental.

 

Comorbidades

 

A freqüência da associação entre o consumo de drogas e os transtornos psiquiátricos (comorbidade) não é totalmente conhecida. Estudos com adolescentes internados demonstram que tal fenômeno é no mínimo considerável. A presença de comorbidade complica a evolução do consumo de substâncias psicoativas. Algumas vezes, os transtornos psiquiátricos antecedem o início do consumo de drogas (primários) e outras vezes são conseqüência deste (secundários). Nesse último grupo, os sintomas psiquiátricos tendem a melhorar ou desaparecer após um período curto de abstinência, mas pode ser necessário tratá-los medicamentosamente.

 

Tipos de tratamento

Entende-se por enquadre terapêutico a combinação formada pelo ambiente de tratamento, tipo de abordagem e composição da equipe profissional. Não existe um enquadre que se aplique totalmente para todos ou mesmo um grupo de adolescentes. Cada situação deve considerar a gravidade do consumo, as características, prejuízos e potenciais da personalidade do adolescente, seu estado clínico e o seu suporte social. Preferencialmente, o tratamento deve começar em ambientes ambulatoriais, ficando a internação como opção ao fracasso do primeiro.

A American Society of Addiction Medicine (ASAM) propõem seis categorias de ambiente de tratamento, tomando como referência a gravidade dos casos: [1] intervenção precoce (educativa), [2] tratamento ambulatorial, [3] tratamento ambulatorial intensivo, [4] tratamento internado monitorado por médicos e conduzido por outros profissionais da saúde [5] tratamento internado conduzido por médicos. Tais ambientes, combinados com outras seis dimensões de gravidade, determinam a melhor conduta terapêutica (quadro 2).

Quadro 2: Critérios da American Society of Addiction Medicine (ASAM) para o tratamento do uso de substâncias em adolescentes.

Dimensões

Niveis de gravidade do consumo

Nível I

Nível II

Nível III

Nível IV

Nível V

Intoxicação aguda ou potencial de abstinência

Ausente

Ausente

Leve

Moderado e manejável sem condução médica

Grave

Condições ou complicações médicas

Ausente ou estável

Ausente ou estável

Ausente ou não interfere no tratamento da dependência

Requer tratamento médico não-intensivo

Requer cuidados médicos e monitoramento 24 horas por dia

Condições ou complicações emocionais ou comportamentais

Ausente ou estável

Ausente ou manejável no ambulatório

Ausente ou não interfere no tratamento da dependência

Requer tratamento médico não-intensivo

Requer cuidados médicos e monitoramento 24 horas por dia

Aceitação e resistência para o tratamento

Desejo de entender como seu problema interfere em seu planos futuros.

Coopera com o tratamento mas necessita de mais motivação para a mudança.

Resistente, com necessidade de abordagens estruturadas.

Altamente resistente, apesar da existência de complicações graves.

Problemas nessa dimensão não qualificam o paciente para o ambiente anterior.

Recaídas e potencial de uso

Necessita conhecer os padrões de consumo ou modelos que propiciem a mudança.

Capacidade para manter a abstinência e os planos de tratamento a partir de suporte mínimo.

Aumento da intensidade dos sintomas e/ou alta probabilidade de recaída sem monitoramento próximo e estruturado.

Incapacidade para controlar o desejo de consumo, mesmo dentro de ambientes de tratamento ambulatorial intensivos.

Problemas nessa dimensão não qualificam o paciente para o ambiente anterior.

Ambiente para a recuperação

O sistema de suporte social e amigos representam risco potencial para o uso de substâncias.

Ambiente pouco suportivo, mas o paciente em habilidades para a mudança

Não há ambiente suportivo, mas tem condições de mudança dentro de abordagens estruturadas e suportivas.

Ambiente perigoso para a recuperação, com necessidade premente de se ausentar deste.

Problemas nessa dimensão não qualificam o paciente para o ambiente anterior.

Tipo de tratamento sugerido
Intervenção precoce
Ambulatório
Ambulatório intensivo
Internação com monitoração médica e condução por outros profissionais da saúde