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Comunidades terapêuticas
Um ambiente tratamento comum,
mas pouco estudado no Brasil
Marcelo Ribeiro de Araújo, MSc
Programa Álcool e Drogas - Hospital Israelita Albert
Einstein
Site "Álcool e Drogas sem Distorção",
15 de agosto de 2003.
Apesar de ser um dos ambientes de tratamento
mais conhecidos do público brasileiro, há pouca informação
nacional disponível acerca das comunidades terapêuticas.
Devido a isso, essa estrutura de tratamento será especialmente
enfatizada nesse capítulo.
Origens
As comunidades terapêuticas surgiram a partir
das observações clínicas de Maxwell Jones (1953)1.
Psiquiatra do exército inglês, Jones começou
a desenvolver esse modelo para soldados com traumas decorrentes
da II Guerra Mundial. Com esse propósito, organizou um serviço
de internação baseado em abordagens educativas, encenações
dramáticas e discussões, dentro de um ambiente pautado
pelas normas de convivência em grupo. Posteriormente, ampliou
seu modelo para outras patologias crônicas. Jones considerava
que seus pacientes "representavam o 'fracasso' na sociedade;
eles advinham primordialmente de famílias desestruturadas
e eram desempregados; inevitavelmente, desenvolveram atitudes anti-sociais
na tentativa de se defenderem contra aquilo que lhes parecia ser
um ambiente hostil"2. Para estes, a construção
de padrões de relacionamento nunca adquiridos durante a vida
só seria estimulada dentro de um ambiente grupal seguro e
terapêutico.
Durante os anos 50, as comunidades terapêuticas
ganharam grande notoriedade como uma alternativa para o tratamento
psiquiátrico manicomial. As comunidades terapêuticas
exclusivamente desenhadas para o tratamento da dependência
de álcool e drogas começaram a surgir durante os anos
sessenta. Dois modelos de tratamento influenciaram ativamente essas
primeiras comunidades: o Modelo de Minnesota e o Modelo Synanon3.
O modelo de tratamento preconizado pelos Alcoólicos
Anônimos apareceu em 1935. Ele fora criado por Bill Wilson,
então dependente de álcool, e pelo médico Robert
Smith. Juntos, iniciaram um processo de recuperação
baseado na ajuda mútua. Essa união resultou na criação
da Alcoholics Foundation (1938) e na publicação
do livro Alcoholics Anonymous (1939), um guia para a sobriedade,
baseado na prática dos Doze Passos4. A
essência dos Alcoólicos Anônimos é o modelo
espiritual: o alcoolismo é entendido como uma condição
na qual o indivíduo torna-se incapaz de superar-se por si
só. A esperança de mudança consiste em
entregar a vida a uma força superior e a partir daí,
segui-la rumo à recuperação5. Wilson
e Smith acreditavam em alguns preceitos fundamentais à recuperação:
[1] praticar os Doze Passos, [2] confiar em um poder
divino superior, [3] dividir experiências, forças
e esperanças, [4] manter-se ativo, [5] um dia
após o outro pelo resto de nossas vidas ("só por hoje
não bebi"), [6] um aperto de mão, um sorriso
e um abraço são sempre possíveis4.
A popularidade do método de tratamento proposto
pelos Alcoólicos Anônimos fez com este chegasse às
clínicas de tratamento. Essa versão institucional
do AA ficou conhecida como Modelo de Minnesota5.
Geralmente, o tratamento começa em regime fechado e isolado,
podendo durar vários meses. Nessa fase, há um programa
intensivo de terapia de grupo, palestras, leituras e reuniões
de AA. O tratamento internado é sucedido por reuniões
em salas de Alcoólicos ou Narcóticos Anônimos.
A equipe é composta por antigos usuários, que completaram
os Doze Passos com sucesso e passaram a colaborar com a recuperação
de outros5. Esse modelo influenciou e até hoje
influencia boa parte das comunidades terapêuticas em todo
o mundo, especialmente nos Estados Unidos e no Brasil.
O Modelo Synanon de recuperação
para dependentes químicos foi uma das grandes controvérsias
terapêuticas dentro da história dos tratamentos destinados
à dependência química. Ele fora criado em 1958,
pelo americano Charles E. Chuck Dederich6. Os referenciais
teóricos deste novo método iam de Platão a
Freud, passando por Buda, Emerson e São Tomás de Aquino.
De formação leiga, Dederich não propunha apenas
um modelo comunitário, mas um mas sim um novo lar, uma nova
e definitiva sociedade para todos os dependentes de substâncias
psicoativas e suas famílias, que decidissem acompanhá-lo
voluntariamente6. Tais dependentes eram em sua maioria
indivíduos com antecedentes de crimes, aprisionamentos e
falhas na tentativa de abandonar o consumo de drogas pelos métodos
tradicionais6.
O método Synanon era baseado (em parte)
na ajuda mútua, por meio da troca de experiências acerca
da abstinência e da recuperação7.
Influenciado pelo modelo de ajuda mútua dos Alcoólicos
Anônimos, diferia deste em pontos fundamentais: enquanto os
AA partiam da entrega e da confiança em uma força
superior, o Synanon acreditava na autoconfiança como preceito
essencial: "chega um momento da vida em que se conclui que
a inveja é ignorância e a imitação, suicídio;
a partir desse momento é preciso se aceitar, por bem ou por
mal"6. Para Dederich, o desenvolvimento humano passava
pelas fases de aquisição (infância), compartilhamento
(adolescência) e doação (idade adulta). O dependente,
ao contrário, recebeu muito, não compartilhou o suficiente
e se doa pouco. Tal comportamento desviado, só poderia ser
corrigido a partir de novas formas de convívio e métodos
terapêuticos7.
O aconselhamento confrontativo, um dos pilares
do modelo Synanon, ficou conhecido como terapia do ataque3,7.
Dederich acreditava que o ataque verbal era a melhor forma para
'demolir das muralhas erguidas' pelo dependente ao longo de sua
vida, que lhes impediam de qualquer contato real e positivo com
o seu meio ambiente. A humilhação e a atribuição
de culpa eram recursos usualmente utilizados, em meio a um ambiente
grupal marcado pela vociferação e intimidação7.
O trabalho também era um pilar fundamental
do Synanon, tanto para a recuperação e reintegração,
como para determinar a colocação dos indivíduos
dentro da sociedade comunitária instituída7.
Assim, os recém-chegados ficavam encarregados das atividades
braçais mais grosseiras e subservientes, tais como a limpeza
do lixo e dos banheiros, enquanto os que progrediam iam recebendo
incumbências mais complexas e administrativas8.
Cabia também aos mais novos, a arrecadação
de donativos, por exemplo, por meio da venda de canetas e outros
pequenos objetos9.
Apesar da ampla oposição dos profissionais
ligados aos modelos tradicionais de tratamento, o Synanon gozou
de grande prestígio dentro da sociedade norte-americana dos
anos sessenta6. Doações milionárias,
filmes holliwoodianos, apoios de intelectuais, palestras em igrejas,
escolas e universidades, trouxeram grande notoriedade ao modelo
e seu idealizador. A partir dos anos setenta, no entanto, Dederich
decidiu transformar o Synanon em religião, centralizada na
obediência total a sua figura. Vasectomias e troca de casais
entre alguns seguidores (por ordem do líder espiritual),
além de acusações de maus-tratos e atentados,
foram aos poucos jogando no ostracismo o 'legado dederichniano'
do Synanon8. O modelo Synanon, no entanto, não
desapareceu por completo e parte de seus preceitos ainda é
utilizado como método de prevenção nas escolas
e como recurso terapêutico8.
Evolução
Desprestigiadas desde o final dos anos setenta,
as comunidades terapêuticas voltaram a chamar a atenção
no final dos anos oitenta10. Muitas comunidades terapêuticas
para dependência química nascidas a partir dessa época,
assumiram perfis que as tornaram diferentes de suas predecessoras11.
Anteriormente utilizadas preponderantemente por métodos de
tratamento baseados no confronto e desprovidas de profissionais
especializados, as comunidades terapêuticas passaram a servir
também para abordagens baseadas na psicanálise, na
terapia existencial e cognitivo-comportamental12. Muitas
comunidades passaram a ter profissionais especializados, entre eles
médicos, psicólogos, enfermeiros, assistentes sociais
e terapeutas ocupacionais. Novas técnicas, tais como o aprendizado
social e o treinamento de habilidades, foram instituídas
em alguns lugares13. Houve, igualmente, uma maior investigação
científica acerca de sua eficácia, dos pacientes mais
indicados para esse ambiente de tratamento, do papel dos profissionais
envolvidos, entre outras coisas.
Conceito atual
A Associação Nacional de Comunidades
Terapêuticas dos Estados Unidos define este ambiente de tratamento
como "um tratamento comunitário altamente estruturado
que emprega sanções e penalidades, privilégios
e prestígios determinados pela comunidade como parte de um
processo de recuperação. As comunidades terapêuticas
fomentam o crescimento pessoal por meio da mudança de comportamentos
e atitudes individuais. Essa mudança está ambientada
em uma comunidade de residentes e profissionais trabalhando juntos
para ajudar a si mesmos e aos outros, tendo como foco a integração
individual dentro da comunidade"14.
A abordagem comunitária como instrumento
primário e facilitador do crescimento e da mudança
individual é o ponto de distinção entre as
comunidades terapêuticas e outras formas de ambiente de tratamento15.
Há quatro dimensões comportamentais visadas para que
o indivíduo opere a ressocialização terapeuticamente
objetivada15: [1] o desenvolvimento individual,
marcado pela aquisição de atitudes mais maduras, melhor
habilidade para lidar com a emoção e construção
da identidade; [2] a mudança de aspectos subjetivos do
comportamento, relacionada às experiências e percepções
do indivíduo quanto as circunstâncias externas que
fomentam o consumo de drogas, as motivações internas
para a mudança, a prontidão para o tratamento, a identificação
com o método terapêutico e a percepção
crítica da mudança obtida ao longo do processo; [3]
a incorporação de princípios comportamentais
e sociais, tais como a auto-eficácia, o entendimento
do papel social e da necessidade de se colocar no lugar do outro;
e [4] a integração social, possível
apenas se pautada pela cooperação, conformidade e
comprometimento.
Estrutura do tratamento
A forma assumida por uma comunidade terapêutica
reflete a filosofia subjacente da organização que
a fundou16. Algumas comunidades são notadamente
marcadas pela hierarquização de funções
e comandos, por técnicas de auto-ajuda e terapia comportamental,
enquanto outras propõem uma estrutura 'mais democrática',
com cursos profissionalizantes e abordagens psicanalíticas17.
Há também, as comunidades cuja proposta de recuperação
é baseada em alguma filosofia religiosa, combinada às
vezes e em diferentes proporções com o Modelo de Minnesota17.
Há comunidades terapêuticas especializadas em determinado
tipo de dependência, ou dirigida a grupos específicos
de usuários, tais como mulheres e adolescentes18.
No entanto, independente da linha adotada e do nível de especialização
do atendimento, grande maioria delas tem por objetivo a abstinência
completa de qualquer tipo de substância13,15,19.
Não existe uma estrutura-padrão,
tampouco um cronograma básico de funcionamento. Há,
sim, diversos componentes fundamentais que são combinados
dentro das necessidades de cada comunidade13. O tempo
de permanência pode ir de semanas a meses. Há evidências
sugestivas de que o tempo de tratamento deva ser maior para indivíduos
com comorbidades e padrões graves de consumo, mas essa opinião
não é consensual20. As atividades desenvolvidas
também possuem grande variabilidade, estruturadas em níveis
de complexidade igualmente distintos. Algumas estão centradas
quase que exclusivamente nos Doze Passos e atividades laborais,
enquanto outras oferecem grupos nas mais variadas linhas, terapia
ocupacional, atividades vocacionais e atendimento médico
e psicológico individuais15. Atividades capazes
de melhorar a adesão ao tratamento já foram alvos
de pesquisas científicas21.
Freqüentemente, a equipe das comunidades terapêuticas
é formada por ex-usuários de álcool e drogas
bem-sucedidos no processo de recuperação16.
No entanto, as comunidades terapêuticas podem possuir, em
graus variados, o auxílio de outros profissionais: desde
a colaboração de psicólogos e médicos
voluntários sem especialização em dependência
química, passando pela associação entre profissionais
especializados e ex-usuários, até equipes exclusivamente
compostas por profissionais da área12,13,17.
O papel dos ex-usuários, batizados pela
literatura como "profissionais da experiência",
é pouco estudado. Apesar de alguns estudos descrevem a mesma
para a eficácia entre abordagens especializadas e não-especializadas22,23,
acredita-se, por outro lado, que há situações
mais e menos indicadas para a atuação deste tipo de
profissional24. Instrumentos para medir as concepções
e o modus operandi dos conselheiros ex-usuários foram
desenvolvidos25. A capacitação desses profissionais
pode melhoras a qualidade de seu desempenho e é sempre desejável26.
População-alvo
Não há um consenso acerca da população
de dependentes mais indicada para o tratamento em comunidades terapêuticas,
apenas que, como qualquer modelo, não está indicado
para todo e qualquer indivíduo26. A própria
abordagem deve respeitar as características sócio-demográficas
e o padrão de consumo de cada um27. Os pacientes
que geralmente procuram esse ambiente de tratamento possuem problemas
sociais, educacionais, vocacionais, comunitários e familiares
relacionados ao consumo de substâncias psicoativas de maior
gravidade28. Entre estes, há maior prevalência
de consumo de múltiplas substâncias, envolvimento com
o sistema judicial, suporte social precário e transtornos
mentais associados (depressão, ansiedade, transtorno de personalidade
anti-social e borderline)26-28.
Eficácia do tratamento
Apesar da organização idiossincrática
das comunidades terapêuticas16, os estudos demonstram
que estas são mais eficazes no tratamento da dependência
química, quando comparadas à ausência de qualquer
tratamento29-30. Quando comparadas a outros ambientes
de tratamento, os resultados são controversos, mas a maioria
não vê diferenças de eficácia entre esses31,32.
Sua estrutura de funcionamento, intensiva, fechada,
parcialmente isolada do meio externo, hierarquizada e focalizada
nas regras do convívio comunitário, a faz parecer
indicada para a população que de fato a procura habitualmente.
No entanto, semelhante aos outros ambientes de tratamento, casos
mais graves, como os usuários de drogas injetáveis,
pacientes com múltiplos parceiros sexuais, poliusuários
e sem motivação para o tratamento, são os que
possuem os maiores índices de abandono33. A permanência
desses indivíduos (mais graves), porém, está
relacionada à melhora dos padrões de consumo, dos
sintomas psiquiátricos e da reintegração social,
se comparados aos que abandonam precocemente o tratamento20,27,31.
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