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Álcool,
drogas e função sexual: uma revisão.
Alcohol, drugs and sexual function: a review.
Jordon Peugh
Steven Belenko
National Center on Addiction and Substance Abuse ~ Columbia University
(New York)
Journal of Psychoactive Drugs 2001; 33(3): 223-33.A visão
das drogas como afrodisíacos sempre esteve presente no imaginário
popular. No entanto, as conexões entre álcool, drogas
e função sexual são mais complexas. As substâncias
psicoativas podem afetar a função sexual a partir da
alteração de neurotransmissores (especialmente a serotonina,
noradrenalina e dopamina); pela ação direta ou indireta
na liberação de hormônios capazes de aumentar
a libido (testosterona, progesterona e estrógeno); ou por atuarem
diretamente sobre o fluxo sanguíneo ou outros mecanismos fisiológicos
dos órgãos sexuais.
Por outro lado, as reações humanas a tais alterações
são complexas e influenciadas por fatores psicológicos
e sociais. Isso torna difícil a quantificação
do papel específico das substâncias sobre a função
sexual. No presente artigo, os autores revisaram a literatura trabalhos
acerca do tema e os apresentaram seus achados divididos por substância
psicoativa, levando em consideração seus efeitos agudos
e crônicos.
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| FIGURA 1: O aumento da sensualidade
e do desejo sexual associado ao consumo de drogas aparece
nessa pintura de Albert Maignan, "A musa verde"
(1895). Após ingerir absinto, o protagonista se
vê as voltas com a musa verde, como assim o absinto
era carinhosamente apelidado. |
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| FIGURA 2: Tanto nos anúncios
hodiernos, quanto no do século passado, [acima]
o apelo à sensualidade relacionada ao consumo do
álcool esteve sempre presente. |
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Álcool
O consumo difundido do álcool em nosso meio fez deste a substância
mais estudada quanto a sua ação no desempenho sexual.
Seu consumo sempre esteve associado à facilitação
do comportamento e do desejo sexual. Simultaneamente, é considerado
prejudicial à potência e ao desempenho sexual. Já
foi sugerida que a ação depressora do sistema nervoso
central causada pelo álcool contribui, direta ou indiretamente,
para a disfunção da ereção, redução
da secreção vaginal, redução do desempenho
sexual e outras disfunções sexuais.
Homens
Em doses diminutas, o álcool possui discreta ou nenhuma
ação sobre a função sexual masculina.
O desejo sexual pode aumentar quando se utilizam baixas doses da substância.
Doses elevadas, no entanto, prejudicam a ereção, interferem
na ejaculação e causam redução do desejo
sexual (libido). Além disso, as expectativas, os estímulos
externos e as relações interpessoais também afetam
a função sexual e interferem nos resultados observados.
O consumo crônico e prolongado, no entanto, prejudica todos
os aspectos da função sexual masculina, em especial
a ereção (quadro 1). Disfunções
sexuais chegam a atingir mais de 80% dos dependentes de álcool.
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| Quadro 1:
Principais complicações sexuais entre os
usuários crônicos de álcool do sexo
masculino. |
| Piora da ereção (tempo
e intensidade)
Redução dos níveis de testosterona
Redução no número de espermatozóides
Piora nos testes de desempenho |
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Apesar de tais alterações mostrarem-se em parte reversíveis
após a abstinência, queixas de disfunção
sexuais podem persistir. Pode haver piora da função
erétil, em decorrência de lesões neurológicas,
prejudicando-a definitivamente. Além disso, o surgimento de
complicações, tais como depressão ou a piora
do relacionamento conjugal ao longo dos anos, também afetam
diretamente a função sexual masculina, tornando difícil
isolar o papel exclusivo do álcool sobre esse assunto.
Mulheres
Muitas mulheres afirmam que o álcool aumenta seu prazer
sexual. Por outro lado, estudos com marcadores fisiológicos
apontam para o sentido aposto, isto é, quanto maior a quantidade
de álcool, menor o prazer sexual e a capacidade de atingir
o orgasmo.
Há algumas explicações para tal contradição:
[1] o impacto da desinibição desencadeada pelo
consumo, [2] a interpretação das modificações
corporais induzidas pelo álcool como aumento do prazer sexual,
[3] a influência das expectativas acerca dos efeitos
do álcool, [4] mensuração inadequada dos
marcadores fisiológicos do prazer sexual.
O consumo crônico de álcool traz às mulheres disfunções
sexuais e problemas ginecológicos. A disfunção
sexual, por seu turno, também pode ser uma possível
causa de alcoolismo entre elas. Dado a noção cultural
de que o álcool aumenta o prazer, mulheres com disfunção
sexual freqüentemente buscam no álcool uma forma de sanar
tais deficiências.
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| Quadro 2:
Principais complicações sexuais entre os
usuários crônicos de álcool do sexo
feminino. |
| Inexistência de orgasmo
Piora da lubrificação vaginal
Intercurso sexual doloroso |
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Tabaco
Não há na literatura estudos que demonstrem piora ou
melhora aguda da função sexual secundária ao
consumo de nicotina. Alguns estudos detectaram redução
de testosterona e piora da capacidade de ereção em fumantes
crônicos. Quanto às mulheres, estudos apontam para a
piora dos sintomas menstruais (dor, depressão, irritabilidade,
dor de cabeça, dentre outros). Não há estudos
acerca dos efeitos da nicotina sobre a função sexual
feminina.
Cocaína & Crack
Os achados acerca dos efeitos agudos da cocaína sobre a função
sexual são controversos. Há indivíduos que relatam
que a cocaína é dotada de propriedades afrodisíacas,
capazes de induzir com mais facilidade a ereção e a
ejaculação e facilitar orgasmos múltiplos. Por
outro lado, há aqueles que relatam piora em todos os aspectos
relacionados à função sexual. Isso se deve principalmente
à dose administrada, às expectativas relacionadas ao
consumo, ao efeito das impurezas, além de outros.
Cronicamente, o consumo de cocaína parece reduzir ou não
possuir qualquer ação sobre a função sexual.
Entre os homens, pode haver problemas para manter a ereção
e na ejaculação (podendo essa ser tardia ou precoce),
que persistem por algum tempo após a abstinência. A associação
freqüente de cocaína e álcool dificulta o entendimento
específico da cocaína neste processo.
Para muitos, o crack está associado ao aumento da atividade
sexual, provavelmente pelos relatos de prostituição
para a aquisição da substância, atitude mais freqüente
entre esses usuários do que entre os consumidores de outras
substâncias. No entanto, os estudos demonstram justamente o
contrário: a maioria dos usuários da substância
relata que o consumo de crack diminui a libido e causa disfunções
sexuais em ambos sexos. O aumento da atividade sexual entre esses
usuários está relacionado a circunstâncias sócio-culturais
e ambientais onde o consumo da substância se dá.
FIGURA 3: O ambiente místico e psicodélico
do ecstasy: sensualidade mais exacerbada do que a função
sexual em si.
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| FIGURA 4: A Era Vitoriana inglesa.
O prazer das casas de ópio. |
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Anfetaminas & MDMA (Ecstasy)
Em baixas doses, as anfetaminas estão associadas ao aumento
da libido, retardo do orgasmo ou a ocorrência de orgasmos múltiplos.
Alguns usuários, no entanto, relatam dificuldade ou inabilidade
de alcançar o orgasmo sob o efeito da substância. Os
usuários de anfetamina injetável relatam grande associação
com aumento do desejo sexual, mas uma inabilidade de para atingir
a ereção completa.
Em doses elevadas e com o uso crônico, as anfetaminas estão
associadas a problemas de ereção e atrasos na ejaculação
entre os homens e atraso no orgasmo entre as mulheres. Apesar de atuar
sobre a dopamina e a noradrenalina, o uso crônico de anfetaminas
reduz a disponibilidade dessas substâncias, repercutindo na
libido. Seus prejuízos parecem ser menos intensos do que entre
os usuários crônicos de cocaína.
O ecstasy foi batizado a "droga do amor" e parece possuir
impacto direto sobre o aumento da sensualidade e do desejo sexual.
Em contrapartida, o mesmo não parece ocorrer com a função
sexual. Apesar de atuar sobre o desejo, os usuários com freqüência
relatam que a substância impede a ereção e o orgasmo
durante o ato sexual.
Opiáceos
A administração de opiáceos inibe a liberação
de gonadotrofinas, hormônios responsáveis pelo controle
do funcionamento dos ovários e testículos. Isso resulta
numa redução do desejo sexual em ambos sexos. Há,
também, alteração (e redução) do
fluxo sanguíneo para os órgãos genitais, contribuindo
para a disfunção da ereção.
Em baixas doses, o consumo de heroína pode aumentar o desejo
sexual. Devido a suas propriedades relaxantes e analgésicas,
sugere-se que parte dos usuários utiliza-a como forma de 'automedicação'
para disfunções sexuais, tais como ejaculação
precoce entre os homens e dispareunia (dor no intercurso sexual) entre
as mulheres.
O uso crônico está associado à redução
da libido, distúrbios da ejaculação e do orgasmo.
A ação inibitória sobre as gonadotrofinas e a
redução do fluxo sanguíneo peniano parecem ser
o substrato neurobiológico para tais fenômenos.
Maconha
A maconha é historicamente considerada um afrodisíaco.
No entanto há poucas evidências fisiológicas acerca
desta propriedade, da mesma forma que há poucas evidências
sobre a redução do desejo sexual entre esses usuários.
A maioria dos usuários relata aumento do prazer sexual, mas
as bases fisiológicas para tal fenômeno permanecem incertas.
Provavelmente, deve estar relacionada com o aumento da sensibilidade
perceptiva.
Cronicamente, o consumo de maconha parece prejudicar o sistema reprodutor.
O consumo de maconha parece reduzir os níveis de testosterona
e outros hormônios, mas os resultados são inconsistentes
e o impacto em longo prazo, incerto. Há pouca e contraditórias
informações acerca dos efeitos da maconha à função
sexual feminina.
LSD
Não há estudos de qualidade acerca dos efeitos agudos
e crônicos do LSD sobre a função sexual.
Nitritos Voláteis
Nitritos voláteis são utilizados recreacionalmente para
aumentar o prazer sexual. Os principais efeitos dessas substâncias
são o relaxamento muscular e a vasodilatação,
seguidos por breve euforia. Alguns usuários relatam utiliza-lo
para prolongar o tempo e a percepção do orgasmo. Os
usuários acreditam que os nitritos são capazes de relaxar
a musculatura esfincteriana, facilitando o intercurso sexual. No entanto,
estudos com estes usuários apontam para uma dificuldade em
conseguir a ereção e redução da libido.
Os usuários referiram nestes estudos que o consumo está
mais associado à busca de seus efeitos psicológicos,
do que a melhora do desejo ou desempenho sexual.
Gama-Hidroxibutirato (GHB) & Gama-Butirolactona (GBL)
O GHB é uma agonista dopaminérgico e depressor do sistema
nervoso central, cuja estrutura se assemelha ao neurotransmissor GABA.
Também conhecido como "ecstasy líquido" ou
"líquido X" é utilizado por adultos e adolescentes
devido aos seus efeitos euforizantes, nas raves e casas noturnas.
Há relatos de que a substância é afrodisíaca.
Também utilizado com o mesmo propósito e nos mesmos
locais, o GLB é tido pelo público que o utiliza como
afrodisíaco. Não há, no entanto, pesquisa sistemática
sobre os efeitos de ambos na função sexual.
Fenicilina (PCP)
A fenciclidina não está associada ao aumento da atividade
sexual. Entre usuários que a utilizam com tal propósito,
o consumo parece objetivar a redução da dor, a desinibição
e nas fantasias sexuais.
O uso crônico produz prejuízos a função
cortical e ao sistema límbico, causando redução
do interesse sexual. Freqüentemente esses usuários desenvolvem
quadros depressivos e alterações cerebrais, que pioram
ainda mais a função sexual.
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| FIGURA 5: Drogas e função
sexual. O uso crônico e excessivo das principais
aumenta o risco de piora do desempenho e do desejo sexual.
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Os autores revelam algumas dificuldades na análise dos estudos
acerca do efeito das drogas sobre a função sexual. Em
primeiro, há carência de estudos controlados e com populações
diversificadas. A única substância que possui estudos
de qualidade é o álcool. Ainda assim, restritos a populações
específicas (homens, mulheres, estudantes, dentre outros).
Em segundo, fatores psicológicos, fisiológicos e ambientais
podem estar associados ao consumo de tais substâncias e desempenhar
efeitos sobre a função sexual, independentemente da
substância utilizada. Dentre esses fatores, destacam-se a personalidade,
as expectativas com relação aos efeitos da droga e da
ocorrência da relação sexual, o estilo de vida,
o status mental e físico e o nível sócio-econômico.
Qual seria o efeito do ecstasy sobre a sexualidade, se ao invés
de uma rave, o indivíduo se dirigisse à missa
das oito da manhã? Desse modo, tais fatores tornam ainda mais
confusas as conclusões sobre os efeitos específicos
dessas substâncias sobre a função sexual.
Por fim, a maioria dos estudos baseou-se em relatos de indivíduos
sobre experiências passadas (não há estudos de
campo). O consumo de mais de uma substância a um só tempo
também traz dificuldades para as conclusões.
Ainda assim, os estudos disponíveis parecem sugerir que o consumo
agudo e crônico de drogas está freqüentemente associado
a efeitos deletérios à função sexual.
O uso moderado de álcool e as experiências iniciais com
drogas ilícitas facilitam ou aumentam o prazer sexual. Porém,
doses mais elevadas e o uso crônico pioram o desempenho, reduzem
o desejo e contribuem para disfunções sexuais.
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