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Cultura,
drogas e sexo de risco: confusões sobre a causalidade.
Culture, drugs and unsafe sex: confusion about causation.
Tim Rhodes
The Centre for Research on Drugs and Health Behaviour
Charing Cross and Westminster Medical School (London)
Addiction 1996; 91(6): 753-8.
Nesse editorial, escrito há seis anos, o autor
Tim Rhodes analisa as relações entre sexo
e drogas, contesta abordagens reducionistas e propõe
novos paradigmas para a questão. O autor começa
o texto comentando a intrínseca ligação
entre sexo e drogas na cultura, não só por
representarem significados sociais dotados de 'diferença',
ilegalidade e 'tabu', mas também por serem considerados
comportamentos fundidos. No imaginário de muitos,
usar drogas aumenta a freqüência com se faz
sexo. Igualmente, o ato sexual é percebido como
capaz de aumentar os efeitos derivados do consumo de drogas.
Essas percepções, segundo Rhodes,
acabam por influenciar as expectativas sobre como os
efeitos farmacológicos de algumas drogas podem
ser mais bem experimentados.
A relevância desta última afirmação,
segundo o autor, mostra a importância dos aspectos
culturais envolvidos no consumo de drogas, aspectos estes
que são normalmente negligenciados em favor do
estudo dos aspectos cognitivos. Desse modo, afirma que
a maioria dos estudos está baseada na percepção
dos usuários acerca dos efeitos que vivenciaram.
Não há, porém, estudos preocupados
em investigar se tais percepções são
culturalmente ou socialmente organizadas.
Tendo exposto a importância dos aspectos culturais
e problematizado a ausência de mensurações
acerca de sua influência sobre o consumo de drogas
e a sexualidade, o autor apresenta o que convencionou
chamar de 'farmacologia social'. Entende-se por
farmacologia social o estudo de como o conhecimento
prévio sobre os efeitos esperados de uma substância
psicoativa no comportamento sexual são socialmente
e culturalmente organizados.
O autor não minimiza os efeitos neurobiológicos
das substâncias sobre o comportamento sexual. Ressalta,
no entanto, que a importância da farmacologia social
e do entendimento do contexto social e do cultural onde
essas drogas são prescritas, administradas e utilizadas.
Quando fala sobre o sexo de risco, o autor propõe
uma ampliação do conceito de farmacologia
social: não basta identificar as crenças
e comportamentos, mas sim determinar a maneira pela qual
se originam ou são influenciados por aspectos culturais.
Esse é o 'X' do problema, na opinião do
autor. Os estudos atuais demonstram correlação
entre uso de drogas e sexo de risco, mas falham em demonstrar
causalidade. Além disso, a maior parte dos estudos
utiliza descrições retrospectivas grosseiras
como o principal método para a coleta de informações.
Outra questão importante é a inexistência
de um conceito universalmente aceito para 'sexo seguro'
e 'sexo de risco'.
Para ilustrar a questão o autor coloca algumas
crenças acerca das substâncias químicas.
Sobre a crença do consumo de álcool e o
aparecimento de desinibição sexual, o autor
afirma ser esse comportamento tipicamente ocidental: algumas
culturas não-ocidentais não identificam
tal propriedade, tampouco relacionam desinibição
sexual com o consumo de álcool. Já a crença
sobre as propriedades afrodisíacas da cocaína
e do crack e os índices elevados de sexo de risco
entre esses usuários, parecem estar (na opinião
do autor) mais relacionados ao ambiente social e cultural
onde esse consumo se dá. Há portanto uma
potencialização entre o consumo de cocaína
e crack e uma tendência sócio-cultural ao
sexo de risco entre aquela população.
Um último (e interessante) aspecto abordado pelo
autor são as "razões e desculpas para
o sexo de sem proteção". Mais do que
causadoras de desinibição ou sexo de risco,
as substâncias psicoativas, em alguns contextos
sociais, servem de desculpa ou justificativa para pessoas
incorrerem em comportamentos tidos como 'ruins', inaceitáveis
ou indesejados (p.e. "Desculpe-me, eu só fiz
aquilo porque estava bêbado"). As drogas funcionariam
nesse caso como provedoras de "feriados" para
as normas tidas como aceitáveis ou apropriadas
para o comportamento sexual. Drogas podem tornar, desse
modo, o inaceitável em aceitável. O
álcool e as outras drogas, por serem 'desinibidores',
proporcionariam 'desculpas' socialmente aceitáveis
para o engajamento em comportamentos sexuais que gostariam,
mas não deveriam. As drogas, assim, proporcionam
razões e desculpas para a ocorrência do sexo
de risco. Não que algumas as drogas não
causem euforia e desinibição. Vale a pena
pensar, no entanto, se não é social e culturalmente
aceito que tais efeitos podem dar razão àqueles
que praticaram sexo de risco nessas circunstâncias:
dizer que praticou sexo de risco porque estava 'muito
louco' soa mais aceitável do que dizer 'porque
eu gosto'. Tais justificativas nos mostram as maneiras
pelas quais o conhecimento acerca dos efeitos de uma droga
é socialmente organizado.
Não se trata, tampouco, de inverter a questão:
não há o efeito farmacológico, mas
sim, desculpas maquiavélicas dos usuários
que querem fazer sexo de risco e prejudicar os outros.
Visões moralistas como essa são igualmente
danosas, pois já trazem consigo julgamentos que
encerram o debate e partem diretamente para a discussão
sobre a punição a ser escolhida. Nas imbricadas
relações sociais, tais conceitos (p.e. álcool
desinibe e por isso ele agiu desta ou daquela) fazem com
isso ocorra naturalmente, muitas vezes de maneira automática
e sem a consciência plena do indivíduo.
Na opinião do autor, trata-se de uma questão
que ainda carece de mais estudos que contemplem em sua
metodologia a influência e o peso dos fatores farmacológicos
e farmacológicos sociais na relação
entre consumo de drogas e comportamento sexual de risco.
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