Dependente
Addicted
Alison Abbott
Correspondente senior da Revista Nature na Europa
Nature 2002; 419: 872-4.Em sua edição de agosto de
2002, a Revista Nature publicou um panorama dos progressos obtidos
pela neurobiologia no estudo da dependência química
e apontou suas perspectivas.
O artigo começa citando dois relatos de
dependentes, onde se comenta como as drogas se apresentam como uma
"recompensa sedutora" e a ausência absoluta de relação
entre fissura (craving) e prazer. Essas afirmações
são ouvidas rotineiramente em qualquer local de tratamento
para dependência química. A explicação
neurobiológica para elas, no entanto, ainda aguarda descobertas
mais elucidativas do que as atuais. Embora já se entenda
em parte os circuitos neuronais envolvidos, pouco se sabe, por exemplo,
acerca das mudanças no cérebro daqueles que evoluem
do uso recreativo para a dependência ou ainda, porque alguns
indivíduos se tornam dependentes e outros não.
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Uma recompensa
acidental para James Olds
Psiquiatra,
doutorado em psicologia pela Universidade
de Harvard, James Olds (1922 - 1976)
interessou-se desde cedo pelas neurociências
do comportamento, em especial pela
motivação. Trabalhando
em seu pós-doutorado, então
na Universidade de McGill - Canadá
(1953 - 1955), começou a estudar
as áreas de controle do sono
em ratos. Para tal experimento, eletrodos
eram introduzidos na região
do sistema reticular médio
do cérebro destes animais,
sem que houvesse a preocupação
de posicioná-los em um local
específico. Olds guiava-se
pelos estudos de H. R. Delgado, W.
W. Roberts, e N. E. Miller (Universidade
de Yale), que haviam posicionado eletrodos
em ratos em algum local da mesma região
cerebral e notaram que os animais
evitavam os lugares onde recebiam
estímulos elétricos.
Para a surpresa
de Olds, o rato, ou contrário
do que se esperaria, buscava o lugar
da caixa onde o cientista aplicava
os choques elétricos. Pensando
que os estímulos provocavam
curiosidade no animal, mudou o canto
da caixa onde este era aplicado. Em
cerca de cinco minutos, o animal passou
a preferir aquele canto. Posteriormente,
foi dado ao animal a chance de auto-estimular
dentro de uma caixa de Skinner.
O rato logo aprendeu e buscava constantemente
o estímulo elétrico.
Ele se estimulava repetidas vezes
e tentava mesmo após a eletricidade
ter sido desligada. O comportamento
observado era semelhante ao de ratos
famintos que aprendiam a maneira de
obter comida dentro da caixa.
James Olds viu-se
acidentalmente diante da descoberta
do sistema de recompensa do
sistema nervoso central (SNC),
um sistema dopaminérgico, conhecido
também por sistema mesolímbico-mesocortical.
A descoberta de Olds foi um dos tópicos
mais estudados nas décadas
subseqüentes. Olds é considerado
um dos mais importantes cientistas
do século XX. Sua descoberta
do sistema de recompensa foi talvez
o achado isolado mais importante do
século, no que diz respeito
aos substratos neurobiológicos
ligados ao comportamento. Tal descoberta
aumentou significativamente o entendimento
das bases neurobiológicas e
os mecanismos do uso nocivo de substâncias
psicoativas pelo homem.
Fontes:
1. Olds, J. Pleasure center in
the brain. Sci Am 1956; 195: 105-16.
( http://www.wireheading.com/james-olds.html)
2. National Academy of Sciences. James
Olds - biographical memoirs.
(http://stills.nap.edu/readingroom/books/biomems/jolds.html)
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O sistema de recompensa do sistema nervoso central
A anatomia relacionada aos efeitos euforizantes
da droga está razoavelmente compreendida, graças aos
estudos de James Olds, que durante a década de cinqüenta
identificou em ratos um sistema de natureza dopaminérgica,
denominado sistema mesolímbico-mesocortical e batizado
pelo cientista como sistema de recompensa (leia o quadro
ao lado).
O sistema de recompensa consiste na área
tegmental ventral (Figura 1), parte de uma região
localizada acima da medula espinhal, chamada tronco encefálico.
Os neurônios dessa região enviam projeções
para as regiões ligadas à emoção (sistema
límbico) e às funções cognitivas superiores
(córtex pré-frontal). Também compõe
o sistema de recompensa o nucleus accumbens, um agrupamento
de neurônios e parte integrante do sistema límbico.
Os neurônios do sistema de recompensa trocam informação
com outros sistemas por meio da liberam um neutransmissor denominado
dopamina.
Sistema de recompensa e dependência química
O sistema de recompensa é uma parte primitiva do sistema
nervoso dos mamíferos. Ele assegura que comportamentos fundamentais
à sobrevivência da espécie, tais como alimentação
e sexo, sejam percebidos como prazerosos. Dessa forma, aumenta a
possibilidade de que tais comportamentos sejam sempre repetidos.
Substâncias psicoativas como a cocaína e a anfetamina
agem diretamente sobre esse sistema, enquanto a nicotina e os opiáceos
estimulam-no indiretamente. As causas naturais que normalmente estimulam
o sistema de recompensa chegam a aumentar em até 100% sua
atividade. Na vigência de substâncias psicoativas, no
entanto, essa atividade ser 1000 vezes maior.
A fissura
Não é apenas o prazer o responsável pelo
surgimento da dependência. Ao contrário, a evitação
dos sintomas de desconforto (síndrome de abstinência),
entre eles a fissura, é o grande propulsor da manutenção
do uso. Tais sintomas decorrem provavelmente de alterações
neurobiológicas na estrutura anatômica dos neurônios,
por exemplo, redução de terminações
nervosas e receptores. Essas alterações permanecem
meses após a interrupção do consumo. Elas acabam
por bloquear o efeito euforizante da droga: o indivíduo deixa
de sentir o prazer de outrora, mas continua impelido a buscar a
droga, uma vez que seu corpo se adaptou a sua presença e
sentirá sua falta em caso de abstinência da mesma.
Aprendizado e memória
É do conhecimento geral que a fissura
pode ser facilmente desencadeada por lembranças (ou situações
que as desencadeiem) ligadas aos tempos de consumo. A neurobiologia
tem estudado também esse fenômeno. A cocaína
e a nicotina, por exemplo, intensificam as conexões entre
neurônios - fenômeno associado ao aprendizado -
do nucleus accumbens. O córtex pré-frontal,
região das funções superiores (raciocínio,
abstração, planejamento,...) e relacionado ao aprendizado,
é fortemente estimulado pelo uso de substâncias psicoativas.
O controle da impulsividade e a tomada de decisões também
são regulados pelo córtex pré-frontal e se
tornam menos eficazes após a instalação da
dependência.
Novas fronteiras
Nos últimos cinqüenta anos, a neurobiologia
da dependência química avançou significativamente
no campo da anatomia. Os modelos fisiopatológicos da doença,
no entanto, permanecem grosseiros, pouco elucidativos e impassíveis
de generalizações. Segundo o presente artigo, "marcadores
fisiológicos para os comportamentos da dependência
precisam substituir os métodos atuais, baseados em escalas
para investigar os sentimentos do dependente".
Talvez esses marcadores possam ser os genes. Para
dar cabo a essa tarefa, o Centro para Avaliação de
Tecnologia Antidroga da Casa Branca (White House's Counterdrug
Technology Assessment Center) está equipando laboratórios
estratégicos com aparelhos de última geração,
tais como o PET e a ressonância magnética funcional.
Eis a nova fronteira da neurobiologia voltada para a dependência
química: detectar os genes responsáveis pelo comportamento
da dependência. Um dos projetos em desenvolvimento (Harvard
Medical School), coordenado por Hans Breiter, começará
avaliando algumas centenas dependentes e não-dependentes
de nicotina e cocaína e seus familiares. Numa segunda fase,
o mesmo estudo será repetido em 5000 indivíduos. Na
última etapa será realizado um amplo estudo em diversos
centros de pesquisa (estudo multicêntrico). Citando o presente
artigo mais uma vez: essa "abordagem permitirá aos pesquisadores
a procura de ligações entre os múltiplos genes
envolvidos na predisposição à dependência
- e também reconhecer ligações inesperadas,
as quais as teorias vigentes dão pouca ou nenhuma importância".
O trabalho em planejamento levará anos
para apresentar os primeiros resultados concretos acerca da susceptibilidade
à dependência. Mas o presente artigo vê neste
esforço científico um importante passo rumo à
elucidação dos caminhos fisiopatológicos da
recompensa e da fissura na dependência química. Isso
pode significar a descoberta da cura? O artigo não se atreve
à tamanha previsão, mas termina com uma máxima:
"entenda a biologia e você saberá como indicar
o seu remédio".
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