| Violência
Doméstica e Abuso de Álcool e outras Drogas
Dra. Monica L. Zilberman1
& Dra. Sheila B. Blume2
1Psiquiatra, Instituto de Psiquiatria do Hospital das
Clínicas da Faculdade Medicina da Universidade de São
Paulo.
E-mail: monica.zilberman@uol.com.br
2Psiquiatra, Professora Aposentada da State University
of New York at Stony Brook
Resumo:
Problemas relacionados à violência doméstica
e ao uso de substâncias são freqüentes na prática
clínica. Esses problemas, cujo diagnóstico passa por
vezes desapercebido, são associados a diversas seqüelas
físicas e psicológicas. Este artigo revê tópicos
da prevalência desses problemas, as conseqüências
para a saúde de adultos, crianças e idosos, assim
como os desafios que o clínico enfrenta na sua detecção,
avaliação e encaminhamento.
Introdução:
Uma definição mais estreita de violência doméstica
inclui qualquer tipo de abuso físico, sexual ou emocional
perpetrado por um companheiro em relação ao outro,
em uma relação íntima atual ou passada. De
forma mais ampla, a violência doméstica se refere também
ao abuso dirigido a crianças e idosos no ambiente doméstico.
O problema é pouco reportado, mas afeta potencialmente entre
10 a 15% das mulheres. Nos Estados Unidos, os números variam
grandemente dependendo da definição de violência
doméstica adotada e diferenças metodológicas.
Em populações selecionadas, a prevalência de
violência grave varia de 0.3 a 4% (prevalência ao longo
da vida de 9%) e de 8 a 17% se incluirmos também os casos
leves a moderados (prevalência ao longo da vida de 8 a 22%)
(1).
Ainda que uma relação causal (isto é, de que
o uso de substâncias por si só seria a causa da violência)
não possa ser inferida, a associação entre
violência doméstica e uso, abuso e dependência
de substâncias tem sido descrita por diversos autores (2,3,4).
Conforme mencionado, o conceito de violência doméstica
engloba, mas não se limita, à violência perpetrada
por um homem contra sua companheira. Nesse sentido, o abuso infantil
(físico ou sexual) e sua conexão com o uso de substâncias
pelos pais também tem sido explorado pelos estudiosos do
assunto.
O objetivo deste artigo é revisar as pesquisas que relacionam
a violência doméstica ao uso de substâncias psicoativas,
oferecendo direcionamentos que facilitem a condução
desses casos por profissionais dedicados à atenção
primária à saúde.
Associações entre violência
doméstica e abuso e dependência de substâncias:
Irons e Schneider (4) ilustram como os sinais de violência
doméstica podem ser muito semelhantes aos critérios
para diagnóstico de dependência de substâncias,
incluindo a perda de controle (sobre a raiva no caso da violência),
a manutenção do comportamento a despeito do reconhecimento
de diversas conseqüências adversas (lesões físicas
e o impacto sobre o relacionamento familiar), a grande quantidade
de tempo despendida (antecipando ou temendo a violência),
a tendência a atribuir a circunstâncias externas a culpa
pelo comportamento (à própria companheira e/ou ao
uso de substâncias), a negação, a minimização,
os ciclos de piora, seguidos de períodos de arrependimento
e promessas de mudança, entre outros.
Estima-se que o uso de substâncias possa estar envolvido
em até 92% dos casos relatados de violência doméstica
(5). Em relação à violência sexual, o
uso de álcool parece estar envolvido em até 50% dos
casos. O alcoolismo é mais freqüente entre maridos que
já cometeram algum tipo de violência contra suas esposas
do que entre aqueles que não têm histórico de
violência contra a esposa (6). Os estudos relatam taxas de
alcoolismo entre 67 e 93% entre maridos que já praticaram
algum tipo de violência física contra suas esposas
(7). Já em um estudo com indivíduos em tratamento
para dependência do álcool, 20 a 33% relataram ter
abusado de suas esposas ao menos uma vez no ano anterior ao levantamento,
sendo que as esposas relataram números ainda mais elevados
(8).
O álcool freqüentemente desinibe o comportamento, facilitando
a violência. Estimulantes como a cocaína e as anfetaminas
também se encontram freqüentemente envolvidos em episódios
de violência doméstica, uma vez que seu uso está
associado à redução do controle sobre os impulsos
e ao aumento da ocorrência de sentimentos persecutórios.
Aspectos socioculturais influenciam a percepção que
temos da violência doméstica. Por exemplo, tanto homens
quanto mulheres tendem a atribuir maior responsabilidade pelo ato
violento se a vítima estiver intoxicada ("ela provocou,
teve o que mereceu"), enquanto tendem a atribuir menor responsabilidade
ao perpetrador se este estiver intoxicado ("ele estava fora
de si, não sabia o que fazia") (4). A Associação
Médica Americana (9) relata que o estupro chega a representar
54% dos casos de violência conjugal. Estupro e outras formas
de abuso são significativamente mais freqüentes entre
mulheres com problemas pelo uso de substâncias em comparação
a mulheres da população geral. Culturalmente, mulheres
que fazem uso de substâncias são consideradas mais
disponíveis sexualmente, contribuindo para a noção
de que a agressão sexual dirigida a elas seria aceitável
(10).
O uso de substâncias pode estar envolvido em casos mais sutis
de violência doméstica, como brigas relacionadas a
aspectos financeiros. Por exemplo, o usuário de substâncias
freqüentemente retira dinheiro do cônjuge ou desvia dinheiro
que deveria ser usado para o pagamento de contas para comprar drogas
(11).
Por outro lado, as mulheres podem consumir álcool e outras
drogas em uma tentativa de "auto-medicar" a dor e o mal-estar
advindos da convivência com situações violentas
e traumáticas (12). Mulheres em tratamento para problemas
relacionados ao álcool e às outras drogas relatam
taxas mais elevadas de violência quando comparadas a mulheres
da população geral (3).
Estudos diferentes mostram que as mulheres que sofrem violência
por parte do companheiro apresentam risco dobrado tanto de abuso
de álcool quanto de uso de cocaína do que mulheres
do grupo controle. Seus companheiros apresentam risco dobrado de
abuso de álcool e risco quadruplicado de uso de outras drogas
em comparação ao grupo controle (13,14).
Diagnóstico:
A literatura aponta que os casos de violência doméstica
e de transtornos pelo uso de substâncias são sub-diagnosticados,
em parte devido à vergonha e à culpa que geram entre
vítimas e perpetradores. Os profissionais de saúde
não se sentem confortáveis em investigar seus pacientes
sobre problemas de violência e drogas. Da mesma forma, pacientes
de ambos os sexos se sentem desconfortáveis e silenciam.
É uma experiência dolorosa que muitas mulheres preferem
esquecer. Sentimentos de culpa, de que de alguma forma elas contribuíram
para a violência sofrida, também dificultam o relato
da mesma. Pacientes e profissionais podem sentir que não
vale a pena perder tempo com essas questões, sentindo-se
impotentes para resolver a situação e temendo criar
ainda mais dificuldades para a paciente. No entanto, mulheres e
crianças de fato experimentam uma variedade de problemas
de saúde relacionados à violência e ao uso de
substâncias, tais como depressão, insônia e ansiedade
(15,16), dor pélvica crônica, infecções
urinárias de repetição e doenças sexualmente
transmissíveis (17). Apesar de ambos serem tópicos
penosos, particularmente para profissionais de atenção
primária à saúde, algumas pesquisas indicam
que a abordagem da violência doméstica pode ser ainda
mais problemática do que a abordagem dos transtornos pelo
uso de substâncias. Por exemplo, em um levantamento realizado
entre ginecologistas, foi observado que embora a avaliação
a respeito do uso de substâncias entre as pacientes tivesse
melhorado significativamente entre os médicos mais jovens
(treinados mais recentemente, portanto), pouca ou nenhuma melhora
tinha sido notada em relação à avaliação
de problemas como abuso sexual ou violência doméstica.
Somente 3% dos ginecologistas entrevistados relataram já
ter questionado suas pacientes a respeito de violência doméstica
(18).
Mulheres que fazem uso de substâncias psicoativas parecem
enfrentar risco aumentado de violência, como resultado do
seu próprio uso, bem como do uso por parte dos companheiros.
A relação entre uso de substâncias entre mulheres
e o aumento da violência já foi relatado em diversos
estudos (19,20). Um estudo qualitativo observou que as mulheres
em tratamento para transtornos pelo uso de substâncias sentiam
que a violência dirigida a elas estava associada à
pobreza, à percepção de que estariam mais disponíveis
sexualmente, ao uso de substâncias pelo companheiro, à
sua própria agressividade verbal quando sob a influência
do "crack" e do álcool e a conflitos relativos
à obtenção de drogas (2).
Os profissionais de saúde podem relutar em investigar uma
mulher em tratamento para álcool ou drogas sobre episódios
de violência por temerem uma recaída ao uso, desencadeada
pela lembrança de eventos dolorosos, particularmente nas
etapas iniciais do tratamento. Entretanto, a falha em identificar
uma situação recorrente de violência pode prejudicar
ainda mais a evolução do tratamento. Conseqüentemente,
recomenda-se que perguntas sobre violência atual e passada
sejam parte rotineira da história clínica de mulheres
com transtornos pelo uso de substâncias (3).
A inclusão de perguntas sobre violência e uso de substâncias
na avaliação inicial é crítica para
um cuidado mais abrangente à saúde. Para que a informação
obtida seja confiável é importante que um ambiente
de privacidade e segurança seja estabelecido. A paciente
deve ser assegurada de que seu companheiro não terá
acesso às informações relatadas. Diversos sinais,
quando presentes, demandam investigam adicional (ver tabela 1).
Inicialmente, perguntas indiretas podem ser feitas. Subseqüentemente,
questionamento claro e direto será necessário. A tabela
2 sugere exemplos de como abordar as pacientes de uma forma sensível
e sem julgamentos.
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| Tabela
2: Exemplos de como investigar sobre violência
doméstica.
Adaptado de: Meyer B, Smith-Dejulio K.
Diagnosis and management of domestic violence. Group
Health Cooperative Medical Forum. 1994;8:8-11 e
Schraiber LB, d'Oliveira AF. Violence against women
and Brazilian health care policies: a proposal for integrated
care in primary care services. Int J Gynaecol Obstet.
2002;78 Suppl 1:S21-25.
"O estresse pode causar uma série
de problemas físicos e emocionais. Você
tem se sentido estressada ultimamente? Como você
e seu companheiro lidam com conflitos? Alguém
chega a se machucar? Quem?".
"Sabemos que muitas mulheres com
sintomas parecidos com os seus passam por problemas
em casa. Você tem passado por algum tipo de problema
em casa?".
"Brigas físicas são
um problema em algumas famílias que temos visto.
Seu companheiro já machucou você alguma
vez? Alguma vez você foi forçada a ter
relações sexuais contra a sua vontade?".
"Seu companheiro bebe ou usa algum
outro tipo de droga? Ele fica violento quando bebe ou
usa drogas? Sua própria maneira de beber preocupa
você? Você toma algum tipo de medicação,
mesmo que tenha sido prescrita por um médico,
em quantidade que te preocupe ou acima do recomendado
pelo médico? Você usa algum tipo de droga
ilegal?". |
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Violência doméstica e gestação:
A violência doméstica entre grávidas (particularmente
as que têm baixa renda) apresenta outros desafios para o cuidado
à saúde, incluindo o aumento do uso de substâncias
no período peri-natal, risco aumentado de parto prematuro,
seguimento pré-natal incompleto, baixo peso ao nascer e a
sobrecarga dos serviços de saúde. Por isso, o aprimoramento
das técnicas de identificação torna-se ainda
mais necessário para essa população (21).
Abuso infantil e uso de substâncias:
Uma forte associação entre abuso sexual e físico
na infância e o posterior desenvolvimento de problemas pelo
uso de substâncias tem sido relatada entre mulheres. Uma revisão
recente documentou que as taxas de abuso infantil entre mulheres
com problemas pelo uso de substâncias e as taxas de problemas
pelo uso de substâncias entre mulheres com história
de abuso infantil são significativamente mais elevadas do
que aquelas relatadas na população geral. Além
disso, sugere-se que a relação entre abuso infantil
e o desenvolvimento de problemas pelo uso de substâncias entre
mulheres seja intermediada pela ocorrência de outros transtornos
psiquiátricos, tais como ansiedade (particularmente o transtorno
de estresse pós-traumático) e depressão (22).
O uso de substâncias pelos pais pode facilitar a ocorrência
de abuso e negligência infantil. Diversos estudos sugerem
que homens que são abusivos em relação às
esposas também o são em relação aos
filhos (11). Crianças negligenciadas pelos pais também
apresentam risco aumentado de posteriormente desenvolver problemas
pelo uso de substâncias, perpetuando o ciclo de violência
e negligência (23).
Intervenção e tratamento:
Toda informação relativa à ocorrência
de violência doméstica deve ser cuidadosamente registrada
no prontuário médico, uma vez que pode ter efeito
legal, inclusive na determinação futura da custódia
dos filhos.
O profissional deve lembrar que ainda que não exista obrigação
legal de reportar os casos de abuso em adultos, a lei determina
que todos os casos de abuso infantil sejam reportados à autoridade
competente, visando à proteção da infância.
Nos casos de violência doméstica envolvendo o uso
de substâncias, ambas condições devem ser abordadas
concomitantemente. O profissional deve primeiro garantir a segurança
da paciente, fornecendo informações sobre o acesso
às delegacias dos direitos da mulher. A participação
em reuniões de grupos de mútua ajuda (Alcoólicos
Anônimos-AA e Narcóticos Anônimos-NA para indivíduos
com problemas pelo uso de substâncias, ou Al-Anon e Nar-Anon
para familiares, ou Mulheres que Amam Demais Anônimas-MADA
para mulheres envolvidas em relações abusivas) deve
ser encorajada. É conveniente que o profissional esteja familiarizado
com os grupos disponíveis na comunidade (24). O encaminhamento
para tratamento especializado com psiquiatras e/ou psicólogos,
conforme a necessidade, também pode ser realizado nesse momento.
Consultas de seguimento são recomendadas, uma vez que é
pouco provável que uma consulta inicial conte com o tempo
e a confiança necessários para que toda a informação
relevante seja discutida. É importante ter em mente que ambas
condições (violência doméstica e uso
de substâncias) têm caráter crônico, com
recaídas. Conseqüentemente, o processo de mudança
é demorado por natureza.
Deve-se evitar a confrontação direta com o companheiro
violento, já que essa abordagem pode acarretar o aumento
da raiva e dos ataques contra a vítima. O período
que se segue a um ataque é uma oportunidade para romper o
ciclo através do encaminhamento para tratamento do dependente
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