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Prevenção ao uso indevido de drogas
Thais Helena Mourão Laranjo1
& Profa. Dra. Cássia Baldini Soares2
1Psicóloga do Setor de Prevenção do GREA/PRODUSP e Mestre pelo Departamento de Enfermagem em Saúde Coletiva da Escola de Enfermagem da USP - thaisml@usp.br
2Departamento de Enfermagem em Saúde Coletiva da Escola de Enfermagem da USP - cassiaso@usp.br
Texto extraído da dissertação de mestrado: "O CRUSP: Processos de socialização e uso de drogas" defendida na Escola de Enfermagem da USP 2003.
Ao abordar o uso de drogas e as alternativas sociais propostas para responder ao problema, encontramos o tratamento, a prevenção, a repressão ao tráfico e as leis. O tratamento é a proposta médica clássica aos problemas instalados. A prevenção se apresenta como uma alternativa para atuar antes que os problemas se instalem ou se agravem e que com o passar dos anos conquistou certa unanimidade sobre sua importância nesta área. Mas, mesmo entre os profissionais que atuam na área de prevenção, existem muitas divergências sobre o objetivo da prevenção, a forma de realizá-la, as idéias que devem ser transmitidas e a quem compete a coordenação e a avaliação.
O resgate da história da prevenção ao uso de drogas nos ajuda a compreender algumas das dificuldades vividas hoje nessa área.
Inicialmente atividades preventivas consistiam em repressão e fiscalização, com o objetivo de reduzir o consumo das drogas ilícitas e controlar todo o processo de produção, incluídas a fonte, a comercialização e o consumo. Mas essas medidas se mostraram ineficientes, pois não foram capazes de cumprir seus objetivos, ao invés disso o mundo assistia a um aumento do consumo e da produção.
Diante dessa situação, em 1970, a UNESCO convidou profissionais de diversos países para discutir o tema prevenção ao uso de drogas. Com a discussão concluiu-se que a prevenção deveria ter centro na educação. Esta conclusão foi um marco no que se refere às perspectivas de trabalho na área (Bucher 1989).
No entanto, num primeiro momento, a educação preventiva foi transformada em ação através da realização de campanhas veiculadas na imprensa e pela inserção do tema no currículo escolar, com o único objetivo de promover a abstinência. As informações disseminadas eram alarmistas e procuravam gerar medo sobre as conseqüências maléficas do uso de qualquer substância. Este tipo de abordagem logo caiu em descrédito, pois a disseminação do medo extinguiu a possibilidade de diálogo entre a escola e os alunos, a primeira passando a ser vista como repressiva e ameaçadora (Bucher 1989, Carlini-Cotrin 1992).
Avaliações fundamentadas em metodologias consagradas cientificamente, realizadas em vários países, constataram que a educação preventiva que dissemina informações alarmistas gera curiosidade e desejo de experimentar alguma droga. A constatação do fracasso desse modelo reforçou a necessidade de desenvolver novas concepções para se abordar o tema sendo estas divergentes e contraditórias (Bucher 1992).
A concepção de prevenção que se apresenta em franca oposição à repressiva também é chamada de educação preventiva, no entanto, parte de pressupostos completamente diferentes, tendo como preocupação principal o investimento na auto-realização, na auto-estima e no desenvolvimento do senso de responsabilidade em relação à própria vida. Na formação ao invés de exclusivamente na informação.
"A educação para ter um alcance preventivo deve situar-se num espaço mais amplo: o uso de drogas não deve ser visto como aspecto isolado da vida social, mas tem que ser inserido num contexto geral da saúde, da convivência social e dos valores"(Bucher 1989 p 20).
Para Bucher (1992) e Carlini-Cotrim (1992) não existe prevenção neutra, qualquer modelo adotado está permeado por uma forma de compreender o ser humano, sua vida em sociedade, as contradições presentes nas relações humanas e numa significação valorativa atribuída ao uso de drogas. Para ele, embora existam diversos modelos de prevenção, estes podem ser agrupados em duas concepções fundamentais: uma atrelada ao modelo repressivo, mais ou menos evidente e outra ao modelo educativo.
Na concepção repressiva dominante as drogas são percebidas como o mal que precisa ser eliminado para que a sociedade viva em paz, os usuários são vistos como frágeis seres que precisam ser "educados" para se adequarem às normas sociais (Velho 1999). O tráfico e os problemas advindos do uso e da dependência são percebidos como os maiores problemas atuais. Não se percebe como afirma Barata (1994), que a produção não está determinada pelas necessidades nem do produtor nem do consumidor e sim pela lógica do mercado cujo principal objetivo é a obtenção de lucro.
Na concepção educativa, o uso de drogas é compreendido como um fenômeno da sociedade, uma resposta ao "mal estar" causado pelo modos vivendi atual. Este não é o único e nem o maior problema, pois a subnutrição, a corrupção, a falta de emprego e de perspectiva de futuro aos jovens são tão importantes quanto aqueles relacionados às drogas. O que se pode concluir é que o uso de drogas e o tráfico são um problema sócio-político de grandes dimensões, tanto nacional como internacionalmente, mas que culpabilizar estas substâncias por todos os flagelos da sociedade atual colabora para que outras discussões mais amplas não se dêem (e portanto não se consiga delimitar as causas reais dos problemas sociais). A compreensão do significado atual do uso de drogas só é possível a partir da discussão do contexto social, político e econômico (Birmam 2000, Bucher 1992, Soares 1997).
Viver numa sociedade onde não existem mais utopias sociais e políticas e o ideal de felicidade, em que os homens viveriam em condições de igualdade, independentemente de suas crenças religiosas, cor de pele e origem social deixou de ser um ideal comum, substituído pela lógica do esforço individual e do acúmulo de dinheiro e bens, proporcionou para muitos, a busca de amparo na religião e, para os incrédulos, em substâncias que proporcionam estados nirvânicos. É nesse contexto histórico que se constrói o império das drogas (Birman 2000).
Mas, os problemas relacionados ao uso de drogas não ocorrem com todas as pessoas, nem mesmo com todos os jovens que as experimentam. Isto se deve ao fato de que existem especificidades individuais, psicológicas e talvez biológicas que transformam o uso de substâncias que alteram a consciência, as emoções e as sensações, em única alternativa de alívio ao sofrimento e de prazer (Birmam 2000).
Essa constatação da realidade tem concordância com a concepção teórica de que estes problemas ocorrem devido a complexa relação entre três fatores: o indivíduo, a droga e a sociedade. Estão implicados então: um indivíduo dotado de personalidade, crenças e valores, inserido de uma dada forma na sociedade, o produto droga, suas características e efeitos no organismo e o contexto sócio-cultural que cerca o momento em que se dá o encontro do indivíduo e da droga (Bucher 1989, Soares 1997).
Portanto, para que se possa fazer um programa de prevenção se faz necessário levar em conta todos os aspectos envolvidos, explicitando a que tipo de concepção o programa estará atrelado. Autores como Sá (1993), Carlini (1990) e Soares (1997) postulam que não existem programas preventivos universais e que não se deve adaptar programas provenientes de realidades distintas.
Recomenda-se conhecer a realidade da população com a qual se pretende trabalhar sob vários aspectos, entre eles a forma de inserção social, a cultura específica, os valores e as drogas mais usadas (Carlini e col 1990). Além disso, é importante que desde o início se esclareça qual o objetivo do trabalho, para que este possa ser avaliado e para que os participantes possam escolher se querem ou não participar.
Um dos problemas evidentes no modelo dominante de prevenção, segundo Soares (1997), é que este mascara as diferenças de inserção social, apresenta o dependente como único responsável por sua condição e não discute os determinantes sociais presentes na configuração desta problemática.
Para que se possa realizar um programa de prevenção comprometido com o respeito pelas pessoas individualmente e ao grupo a que pertencem deve-se ter, assim como assinala Soares (1997), como objetivo geral a vinculação destas duas dimensões: a individual relacionada à formação do cidadão crítico e a outra relacionada à organização social que deve proporcionar os meios para que esta existência se efetive.
25/06/2004
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Referências bibliográficas
Barata A. Introdução a uma sociologia da droga. In: Mesquita F, Bastos IB, organizadores. Drogas e Aids: estratégias de redução de danos. São Paulo: Hucitec; 1994. p.21-43
Birman J. Mal-estar na atualidade: a psicanálise e as novas formas de subjetivação. 2a ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; 2000.
Bucher R. A abordagem preventiva do uso indevido de drogas In: Bucher R organizador Prevenção ao uso indevido de drogas. Universidade de Brasília, 1989, Brasília: UNB/CETAD/CORDATO; 1989.
Bucher R. A ética da prevenção. Psicol. Teor Pesq 1992; 8(3): 385-98.
Carlini EA, Carlini-Cotrim B, Silva AR. Sugestões para Programas de Prevenção ao abuso de drogas no Brasil. São Paulo: CEBRID, 1990.
Carlini-Cotrin B. A escola e as drogas: realidade brasileira e contexto internacional. [tese] São Paulo (SP): Faculdade de Psicologia da PUC SP, 1992.
Sá, DB. Capacidade civil: um direito penal? In Bastos FI, Gonçalves OD. Drogas: É legal? Um debate autorizado. Rio de Janeiro: Imago; 1993.
Soares CB. Adolescentes, drogas e AIDS: avaliando a prevenção e levantando necessidades. [Tese]. São Paulo (SP): Faculdade de Educação da USP; 1997.
Velho G. Individualismo e cultura: notas para uma antropologia da sociedade contemporânea Rio de Janeiro: Jorge Zahar; 1999. Duas categorias de acusação na cultura brasileira contemporânea; p 55- 64.
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