www.einstein.br
06 de Janeiro de 2009 Envie suas dúvidas e comentários. Mapa do Site Página Inicial
Últimas Notícias
Entrevistas Relacionadas
Atualizações Científicas
Artigos Interessantes
Perguntas & Respostas
Artigos Anteriores
 

Fatores de risco para a piora dos sintomas [prognóstico] entre usuários de substâncias psicoativas tratados.
Risk factors for symptom exacerbation among treated patients with substance use disorders.

Rudolf H. Moos
Aran C. Nichol
Bernice S. Moos
Department of Veterans Affairs and Stanford University School - Palo Alto (California)

Addiction 2002; 97: 75-85.

Cerca de 10 - 15% dos pacientes que começam qualquer tipo de tratamento, dentro de qualquer ambiente terapêutico, pioram durante ou após a conclusão do mesmo. Apesar desse dado ser conhecido por estudos realizados nos últimos vinte anos [de acordo com as referências do presente artigo], há poucas tentativas para caracterizar esse grupo, bem como métodos de tratamento mais adequados e efetivos para este. O artigo de Rudolf Moos e seus colaboradores tem como objetivo principal a elaboração de um índice prognóstico, capaz de identificar prontamente essa população, desde a chegada dos mesmos à unidade de atendimento.

Para isso, os autores identificaram na literatura os principais fatores de mau prognóstico conhecidos (quadro 1) e aplicaram em todos os pacientes recém-admitidos para tratamento uma escala de gravidade do consumo de substâncias psicoativas (Addiction Severity Index - ASI). A pesquisa foi realizada dentro do Department of Veterans Affairs (VA). Trata-se de um serviço com cerca de 150 unidades de tratamentos espalhadas por todos os estados norte-americanos. A instituição conta com todos tipos de ambientes terapêuticos (ambulatório, hospital-dia, enfermarias,...), equipes multidisciplinares e diversas linhas de abordagem (psicodinâmica, cognitivo-comportamental, doze passos,...). O VA atende mais de 350.000 pacientes anualmente. Todos os pacientes admitidos durante um ano (34.251 pacientes) foram entrevistados e reentrevistados nove e doze meses depois (21.036 pacientes - 63%).

Quadro 1: Fatores de mau prognósticos identificados pelos autores na literatura médica.
Fatores demográficos Diagnósticos atuais e prévios & gravidade dos problemas relacionados ao uso de drogas Problemas psiquiátricos e interpessoais

Indivíduos mais jovens (<39 anos)

Solteiros / separados

Instabilidade no lar

Padrões prolongados de consumo pesado de álcool ou drogas

Problemas persistentes relacionados ao consumo

Diagnóstico de dependência de álcool e alguma outra droga ilícita.

Dependência de cocaína

Comorbidade psiquiátrica, principalmente psicoses e transtornos de personalidade

Caracterização dos problemas relacionados ao uso de drogas pelos pacientes como "graves"

Transtornos psiquiátricos com sintomas graves, em especial alucinações, persecutoriedade e piora do relacionamento interpessoal.

Convívio social conflituoso, hostil ou isolado.

Fonte: Moos R, Nichol A, Moos B. Risk factors for symptom exacerbation among treated patients with substance use disorders. Addiction 2002; 97: 75-85.

A aplicação da escala de gravidade (ASI) foi capaz de identificar e relacionar os pacientes que pioram com a gravidade dos sintomas. Assim, entre os pacientes que pioram, 76% foram considerados de graves ou moderados na entrevista admissional e nos dois seguimentos. Já entre os considerados estáveis ou melhores após o tratamento, apenas 38% pioraram durante o seguimento.

A partir de comparações estatísticas dos achados entre os pacientes estáveis ou melhores e os pacientes piores após o tratamento, os autores chegaram a um índice de doze pontos (quadro 2). Tal escala preditiva foi capaz de detectar com algum sucesso os pacientes em risco: assim, apenas 19% que pontuaram apenas dois dos doze itens apresentaram piora dos sintomas. Já 49% os pontuaram acima de nove pontos apresentaram piora após o tratamento.

Quadro 2: Fatores basais de risco para a piora dos sintomas [mau prognóstico] após a alta.

FATORES DEMOGRÁFICOS

Idade entre 18 e 39 anos
Não-casado
Instabilidade no lar

PROBLEMAS RELACIONADOS AO USO DE DROGAS

Consumo de drogas por 10 anos ou mais
Tratamento anterior para dependência de álcool
Encarceramento anterior
Diagnóstico duplo para álcool e drogas
Dependência de cocaína
Quadro de dependência considerado grave

PROBLEMAS PSIQUIÁTRICOS

Três ou mais sintomas psiquiátricos no último mês
Alucinações no último mês
Internação psiquiátrica anterior

PORCENTAGEM DE PIORA

0 - 2 sintomas 19%
3 - 4 sintomas 26%
5 - 6 sintomas 33%
7 - 8 sintomas 42%
9 ou mais sintomas 49%

Fonte: Moos R, Nichol A, Moos B. Risk factors for symptom exacerbation among treated patients with substance use disorders. Addiction 2002; 97: 75-85.

Os pacientes que pioraram após o tratamento receberam mais internações (e reinternações) e menos tratamento ambulatorial, se comparados com os que melhoraram. Além disso, foram tratados por menos tempo. A tendência destes indivíduos à baixa adesão e a inexistência de modelos de tratamento dirigidos a estes podem ter contribuído para o predomínio de ambas situações. Os autores não encontraram diferença entre aqueles que procuraram tratamento espontaneamente ou por determinação judicial.

Prováveis modelos terapêuticos para esses pacientes também foram investigados pelo presente estudo. Tratamentos de longa duração mostraram-se eficazes na redução da piora dos sintomas após a alta. Por outro lado, o tratamento intensivo esteve associado à exacerbação dos sintomas. Isso acontece, em parte, porque a tendência de muitos profissionais frente à falta de progressos do paciente, é o aumento a intensidade dos cuidados, elevando assim, a relação entre intensidade e o fracasso do tratamento.

Os fatores de risco identificados pelos autores são bastante objetivos. Tais fatores são comumente detectados pelos profissionais da saúde em sua prática cotidiana. No entanto, a sistematização dos mesmos poderá chamar a atenção dos profissionais para a existência de uma classe específica de indivíduos. Tendo em vista que um abandono substancial a qualquer tipo de tratamento se dá nos primeiros três meses (e parte destes pacientes piora após o abandono), é importante detectar as causas da desistência e pensar modelos terapêuticos mais adequados e efetivos para esses pacientes

Veja também...
Artigos Anteriores

O conteúdo deste site é de domínio público, os textos aqui contidos podem ser reproduzidos desde que as informações não sejam alteradas e a fonte seja citada adequadamente. Para citar a fonte, copie a linha abaixo:

Site Álcool e Drogas sem Distorção (www.einstein.br/alcooledrogas) / NEAD - Núcleo Einstein de Álcool e Drogas do Hospital Israelita Albert Einstein

Atenciosamente
Equipe Álcool e Drogas sem Distorção

Últimas Notícias
Entrevistas Relacionadas
Atualizações Científicas
Artigos Interessantes
Perguntas & Respostas
Política de Privacidade | © 2000/2009. Todos os direitos reservados.