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Figura 1: banhos gelados para
os dependentes de álcool no século XVIII. Abordagens
físicas eram privilegiadas nessa época. |
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O conceito de dependência
e os modelos de atendimento
Marcelo Ribeiro
Psiquiatra e consultor do site "Álcool e Drogas sem
Distorção"
O tratamento da dependência química é um assunto
relativamente novo. Não faz dois séculos, os bêbados
do Reino Unido eram expostos em praça pública e seu
nome colocado nos principais jornais da cidade. O objetivo era punir
com a execração todo aquele que excedesse os padrões
aceitos para o consumo de álcool1. Apenas os casos mais avançados,
marcados por inúmeras repercussões físicas
e psíquicas eram internados em grandes hospitais psiquiátricos2.
Predominava nesse período o modelo moral de tratamento: o
consumo excessivo de álcool e outras drogas era acima de
tudo uma escolha pessoal (intencional) e por isso, passível
de punição1.
Durante o século XX, o consumo de substâncias psicoativas
foi estudado exaustivamente e suas nuances compreendidas sob a óptica
científica. Deixou de ser visto como um desviou de caráter
para ganhar características de doença3. Essa mudança
paulatina de mentalidade também repercutiu sobre as estratégias
de tratamento: se há uma doença, deve de haver também
um tratamento específico para essa. O surgimento dos Alcoólicos
Anônimos, durante os anos trinta, representou a primeira proposta
de tratamento ambulatorial para os dependentes1. Outro esforço
implementado foram as comunidades terapêuticas, espaços
geralmente rurais, que visavam (além da abstinência)
à reeducação dos hábitos morais e sociais
do indivíduo dependente. As abordagens, no entanto, eram
duras, baseadas no confronto e na humilhação1.
A segunda metade do século XX viu nascer os modelos de tratamento
contemporâneos. Para isso, contribui a nova concepção
de dependência química: uma doença de natureza
biológica, psicológica e social3. Como qualquer entidade
nosológica, possuía sinais e sintomas clínicos
universais e específicos. Por outro lado, cada dependente
tem níveis de gravidade distintos dentro das idiossincrasias
de seu contexto sócio-cultural4. Isso trouxe, mais uma vez,
a necessidade de novos modelos de tratamento.
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Figura 2: início do século
XX. Anúncio comercial de uma clínica para o tratamento
de dependentes químicos. O uso indevido de drogas passou
a ser considerado doença. |
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Ao entender o consumo de álcool e drogas como um padrão
de comportamento cuja gravidade varia ao longo de um continuum,
surgiu a necessidade de organizar serviços que atendessem
aos usuários em seus diferentes estágios5. Um usuário
de álcool, empregado e dentro de uma união estável,
demanda um tratamento diferente de um segundo, com os mesmos critérios
diagnósticos, mas desempregado e sem apoio familiar. Um usuário
de cocaína que consegue restringir seu consumo ao final do
dia, difere daquele que a utiliza sem nenhum critério. Há
uma diferença marcante no controle que ambos exercem sobre
o seu consumo, por mais que os sinais de fissura sejam iguais nos
dois casos.
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| Figura 3: a partir da segunda
metade do século XX, o ambulatório passou a ser
considerado paulatinamente a melhor forma de tratamento para
a dependência química, por manter o indivíduo
na comunidade e mostrar-se flexível nas abordagens propostas. |
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O novo conceito de dependência também passou a atribuir
pesos semelhantes para os critérios biológicos, psicológicos
e sociais que compõem o quadro diagnóstico da dependência
química4. A internação era o recurso terapêutico
mais utilizado, porque o objetivo primordial era a busca abstinência
completa6. A partir dessa nova concepção, no entanto,
passou-se a pensar para além desta: o tratamento da dependência
química carecia de abordagens capazes de motivar os indivíduos
a ampliarem novamente seu repertório social, a buscarem novas
maneiras de relacionamento com seu ambiente, novas habilidades sociais
para lidar com o cotidiano, enfim, a construção de
um novo estilo de vida5. Desse modo, novas dimensões de tratamento
foram desenvolvidas e indicadas de acordo com a gravidade dos sintomas
e do contexto social dos indivíduos7.
A partir daí, serviços de atendimento foram sendo
criados ou adaptados para o tratamento da dependência química:
ambulatórios, centros de convivência, internações
breves e longas, hospitais-dia, moradias assistidas, acompanhamento
terapêutico, agentes multiplicadores, dentre outros. Para
ampliar ainda mais a malha de atendimento a esses usuários,
nasceu a necessidade de sensibilizar a rede primária de atendimento,
para fazer o diagnóstico precoce e motivar os usuários
para o tratamento8. Abordagens como a política de redução
de danos, surgiram com a finalidade de prevenir conseqüências
danosas à saúde do usuário, tais como as doenças
sexualmente transmissíveis e a AIDS, sem necessariamente
interferir na oferta ou na demanda9.
Desse modo, nota-se que a qualidade e a variedade de serviços
oferecidos estão diretamente relacionados aos conceitos de
dependência vigentes. Apesar dos progressos alcançados,
os serviços e técnicas oferecidas são eficazes
apenas para uma parte dos indivíduos. Um campo de conhecimento
vasto, que ainda trará muitos conceitos e modelos, capazes
de ampliar a compreensão e o sucesso no tratamento destes
indivíduos.
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In: Marlatt GA. Redução de danos – estratégias
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29/08/2003
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