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Relação custo-eficácia dos tratamentos para dependentes de drogas ilícitas

Cost-effectiveness analysis of addiction treatment: paradoxes of multiple outcomes

Drug and Alcohol dependence 73 (2004) 41-50

Jody L. Sindelar
Mireia Jofre Bonet
Michael French
Thomas McLellan

Atualmente tem havido um interesse crescente por parte de políticos e contribuintes de se avaliar a relação custo eficácia dos tratamentos para dependentes de drogas ilícitas.

Geralmente os estudos que avaliam a relação custo-eficácia de um determinado programa utilizam um único parâmetro de sucesso para realizar tal avaliação, no entanto, os tratamentos para dependência de substâncias podem levar a múltiplos e importantes resultados, o que dificulta o estabelecimento de um único parâmetro. Dos poucos estudos realizados na área, os parâmetros utilizados na avaliação do custo e eficácia do programa foram bem variados, são exemplos: diminuição do uso da droga, redução da criminalidade e do desemprego, número de dias de envolvimento com a droga ou dias de abstinência. O parâmetro a ser utilizado deve ser adequado, e capaz de verificar com exatidão qual tratamento é mais indicado ou oferece uma melhor relação custo-benefício para um determinado grupo.

Este estudo foi realizado a partir de um programa de tratamento de dependentes de substâncias desenvolvido na Filadélfia chamado Philadelphia Target Cities Project (Mc Lellan et al., 1999). Foram incluídos no estudo 9 programas de tratamento para pacientes não internados pertencentes à comunidade carente.

Os programas tiveram como principal objetivo a manutenção da abstinência a partir de grupos de aconselhamento semanal e tratamento medicamentoso quando indicado (tratamento padrão).

Seis programas contaram com a participação de um assistente social responsável por gerenciar as atividades terapêuticas, além de propiciar outros serviços como: encaminhamento clínico, oportunidade de emprego, educação, nutrição e suporte domiciliar; os outros três programas continuaram oferecendo o tratamento usual ou "standard care".

No momento da admissão (anterior ao tratamento) e após sete meses do cumprimento do programa, os pacientes tiveram de responder a uma escala estruturada elaborada para avaliar presente e passado de indivíduos usuários de substâncias. Esta escala é conhecida como ASI (Addiction Severity Index) e é o instrumento mais utilizado para medir tratamento em indivíduos usuários de substâncias.

Os custos do tratamento foram determinados através da utilização do Drug Abuse Treatment Cost Analysis Program (DATACAP). O DATACAP é um instrumento estruturado que estima os custos dos tratamentos através da avaliação de algumas categorias:

  • Recursos humanos
  • Materiais
  • Serviços contratados
  • Estrutura física
  • Equipamentos
  • Outros

Para este estudo foram selecionados sete categorias principais do ASI que serviram como parâmetros de resposta ao tratamento:

  1. Uso de álcool e drogas
  2. Número de drogas utilizadas, somatória dos dias utilizando estas drogas, dinheiro gasto com drogas e dias vividos com problemas relacionados ao uso de drogas no último mês.

  3. Família
  4. Conflitos familiares no último mês.

  5. Relacionamento social
  6. Dias vividos em conflitos interpessoais no último mês.

  7. Problemas de saúde
  8. Dias vividos com problemas de saúde ou internação no último mês.

  9. Sintomas psiquiátricos
  10. Vínculo empregatício
  11. Dinheiro ganho com o trabalho no último mês e dias de falta ao trabalho.

  12. Envolvimento com atividades ilegais

Medidas de eficácia

Como medidas de eficácia, para cada um dos itens acima, utilizou-se a diferença entre as medidas encontradas na admissão e após 6 meses de acompanhamento, por exemplo, para os parâmetros que mediram dias de problemas, uma redução destes valores significou sucesso.

Resultados do estudo

Em ambas as formas de tratamento, padrão ou com a participação e interferência de um assistente social, houve uma diminuição significativa do uso de drogas. Vale ressaltar que os ganhos foram mais significativos para os tratamentos que contaram com assistência social (medidas de relacionamento interpessoal, problemas psicológicos e envolvimento com o crime), exceto para problemas familiares.

Limitações do estudo

Muito embora o objetivo principal deste estudo tenha sido ilustrar empiricamente os diversos tipos de problemas que podem surgir na condução de um estudo de custo-eficácia a partir dos resultados obtidos de um programa de tratamento para usuários de drogas, algumas limitações podem ser apontadas:

  • Utilização de uma amostra proveniente de um estudo experimental, ao invés de uma amostra clínica randomizada.
  • Fonte de informações unicamente baseada em relatos dos pacientes.
  • Amostra relativamente pequena (431 pacientes).
  • Dados provenientes de apenas dois períodos do estudo (admissão e após 6 meses).
  • Divulgação dos resultados encontrados na primeira fase do programa.

Conclusões

Apesar dos problemas que geralmente surgem ao se utilizar uma análise de custo-eficácia, esta é necessária para se guiar decisões políticas, além de nos oferecer uma importante visão metodológica do assunto. Vários países utilizam a análise de custo-eficácia como parte do processo de decisões e táticas políticas do país.

A relação custo-eficácia também é interessante por facilitar comparações entre diversos tipos de intervenções médicas, além de ser mais facilmente conduzida do que uma análise do tipo custo-benefício.

A partir deste estudo, os autores sugeriram que ao conduzir um estudo da relação custo-eficácia para programas de tratamento de drogas, os múltiplo resultados obtidos devem ser avaliados separadamente, a relação custo-eficácia não pode gravitar apenas sobre um único parâmetro, por exemplo uso ou abstinência de drogas, devemos checar se há um conflito entre os resultados obtidos e, na ausência de conflitos, optar por um único parâmetro para se desenvolver o projeto de política pública. A preferência por diferentes parâmetros podem variar de acordo com a região, país ou intencionalidade política local.

A análise de custo-benefício agrega todos os custos e benefícios em uma única unidade, por exemplo, quantidade de dólares, já a relação custo eficácia reúne múltiplo parâmetros, além de permitir que efeitos externos na sociedade sejam incluídos.

Este estudo é extremamente atual e interessante por nos trazer uma idéia metodológica de como proceder um estudo com uma visão duplamente científica e econômica e social de um assunto tão importante quanto o uso e dependência de drogas.

23/02/2004

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