Comparação entre terapia cognitivo-comportamental individual ou em grupo para pacientes dependentes de álcool e/ou outras drogas - Parte I
Comparison of individual and group cognitive-behavioral therapy for alcohol and/or drug-dependent patients
Ana Cecília P. R. Marques
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Maria Lúcia O. S. Formigoni
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1Departamento de Psicobiologia da Universidade Federal de São Paulo
O artigo desta semana aborda um importante tema na área de Saúde Mental que são as formas de tratamento psicoterápico para pacientes dependentes de álcool e/ou outras drogas.
Este estudo foi conduzido por reconhecidos profissionais brasileiros e publicado em uma importante revista científica americana.
Introdução
Há poucas informações sobre o tratamento clínico ou relação custo - eficácia das dependências em países como o Brasil.
Tradicionalmente os indivíduos que são dependentes de álcool ou de outras drogas são tratados por psiquiatras e psicólogos em consultórios, clínicas ou hospitais públicos especializados em saúde mental. A maioria dos tratamentos disponíveis são baseados no Modelo Minessota (modelo de 12 passos) e na participação dos pacientes em reuniões dos Alcoólicos Anônimos.
Em serviços públicos, os casos menos graves são tratados ambulatorialmente onde estes pacientes são abordados em grupos.
O custo é um importante fator a ser considerado quando fazemos a escolha pelo tratamento. Geralmente as abordagens de grupo são mais baratas do que as individuais, no entanto, é importante determinar se o tratamento em grupo reduz a eficácia do tratamento antes de indicá-lo ao paciente.
Embora a maioria dos estudos em dependência de álcool e drogas demonstre resultados positivos para ambas as abordagens, não há evidência de uma vantagem significativa de um tratamento sobre outro. Devemos apenas observar que a abordagem em grupo é geralmente a principal modalidade escolhida nas clínicas para dependentes de substâncias. Esta abordagem é pouco indicada para alcoolistas idosos devido constatações de que este grupo tem mais dificuldades em expor conteúdos íntimos.
Poucos estudos compararam a terapia cognitivo comportamental em grupo e individual, e nos estudos disponíveis, não foram encontradas diferenças significativas entre os dois formatos propostos. Estudos realizados com dependentes de cocaína encontraram índices de abstinência por um período de 6 meses maiores para indivíduos tratados na psicoterapia de grupo do que para os indivíduos tratados individualmente.
O principal objetivo deste estudo foi avaliar a influência do formato da terapia, ou seja, se individual ou de grupo, na eficácia da terapia cognitivo comportamental para o tratamento de dependentes de álcool e drogas em uma amostra escolhida ao acaso.
Métodos
Amostra
O estudo avaliou 155 indivíduos admitidos nos anos de 1993 e 1994.
Estados mentais graves como Esquizofrenia, Síndrome demencial, e retardo mental não foram incluídos no estudo.
Os critérios diagnósticos do DSM-III-R foram utilizados para verificar dependência de álcool e/ou outras drogas em todos os participantes do estudo.
Para ingressar no estudo, os indivíduos tinham de apresentar pelo menos 4 anos de educação formal, endereço fixo, e concordância em ser avaliado ao longo do tempo.
Avaliação psiquiátrica inicial
Avaliação clínica para doenças físicas e psiquiátricas.
Entrevista clínica estruturada incluindo história para uso de álcool e outras drogas, aspectos sócio-demográficos e uma lista de sintomas do DSM-III-R para abuso de substâncias.
Avaliação psicológica
Testes neuropsicológicos foram aplicados a fim de avaliar a adequação cognitiva dos participantes.
Avaliação do consumo de álcool e drogas
Um questionário padronizado proposto por Wilkinson e colaboradores foi utilizado para avaliar o uso de álcool nos três meses anteriores ao estudo e uso de álcool e outras drogas ao longo da vida.
Com base no critério proposto por Sanchez-Craig e Wilkinson os pacientes dependentes de álcool foram classificados em diferentes níveis de acordo com: o número de dias em que fizeram uso do álcool, dias em que fizeram uso abusivo do álcool, dias vividos com problemas relacionados ao uso do álcool e média de consumo alcoólico semanal.
As conseqüências indesejadas do uso do álcool foram avaliadas pelo questionário breve para dependência do álcool (Short Alcohol Dependence Questionaire).
Também foram realizados alguns testes laboratoriais para evidenciar o funcionamento hepático e hematológico dos participantes.
Grupos de tratamento
Após serem admitidos no estudo, 77 pessoas foram encaminhadas para o tratamento individual e 78 para o tratamento em grupo. Foram formados 10 grupos com uma média de 7 integrantes cada. Destes, 5 grupos foram compostos de pacientes dependentes do álcool e 5 grupos de pacientes dependentes de álcool e outras drogas.
O tratamento foi realizado em 17 sessões por um período de 8 meses dividido em duas fases: fase de aquisição e fase de manutenção.
O "período de aquisição" compreendeu às primeiras 8 semanas de tratamento, ou seja, onde os pacientes foram estimulados a reconhecer seus problemas e desenvolver estratégias para enfrentá-los da seguinte maneira:
1. Identificar situações de risco e comportamentos ligados ao uso do álcool.
2. Se auto-monitorarem para o uso do álcool e/ou drogas.
3. Identificar medidas de suporte ou estratégias para atingir estes objetivos.
4. Avaliar a eficácias das estratégias utilizadas.
Após terem sido treinados para enfrentar as situações de risco, os pacientes entravam na fase de manutenção. A proposta desta fase era fazer com que os indivíduos firmassem as conquistas obtidas encorajando-os a continuar utilizando as estratégias desenvolvidas na fase anterior.
Características da amostra
Na fase anterior ao tratamento os dois grupos mostraram-se semelhantes: a maioria era composta por homens (92%), residiam com a família (86%) e tinham uma história familiar para uso de substâncias (90%), 66% estavam empregados, 42% tinham menos de 9 anos de educação formal.
Os indivíduos usuários de drogas diferiram dos usuários de álcool respectivamente para os seguintes critérios: idade (25 + 8 anos e 41+ 8 anos) estado civil (66% solteiros e 19 % solteiros) e história de tratamento prévio (41% e 66%).
Seguimento da amostra
Os participantes do estudo foram reavaliados aproximadamente 15 meses após o início do estudo.
Os pacientes foram convidados para uma entrevista individual exatamente como à realizada no início do estudo, inclusive com a investigação laboratorial.
Os indivíduos que se recusaram a comparecer pessoalmente foram entrevistados pelo telefone.
Os participantes foram perguntados quanto ao resultado do tratamento em comparação ao momento de ingresso no estudo. Foram possíveis 3 tipos de resposta: Sucesso, Melhora ou Igual ou pior.
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18/06/2004