Comparação entre terapia cognitivo-comportamental individual ou em grupo para pacientes dependentes de álcool e/ou outras drogas - Parte II
Comparison of individual and group cognitive-behavioral therapy for alcohol and/or drug-dependent patients
Ana Cecília P. R. Marques 1
Maria Lúcia O. S. Formigoni 1
1Departamento de Psicobiologia da Universidade Federal de São Paulo
Como já foi dito na semana anterior, a maioria dos tratamentos disponíveis para os indivíduos dependentes de álcool e/ou outras drogas é baseada no Modelo Minessota (modelo de 12 passos) e na participação dos pacientes em reuniões dos Alcoólicos Anônimos.
O custo é um importante fator a ser considerado quando fazemos a escolha pelo tratamento. Geralmente, as abordagens de grupo são mais baratas do que as individuais, no entanto, é importante determinar se o tratamento em grupo é tão eficaz quanto a abordagem individual na obtenção de melhorias para os pacientes.
O principal objetivo deste estudo foi avaliar a influência do formato da terapia, ou seja, se individual ou de grupo, na eficácia da terapia cognitivo comportamental (TCC) para o tratamento de dependentes de álcool e/ou outras drogas. A amostra estudada foi de 155 indivíduos dependentes de álcool e/ou outras drogas (77 pessoas foram encaminhadas para o tratamento individual e 78 para o tratamento em grupo).
Esta semana, daremos continuidade a este interessante estudo comparativo entre a terapia cognitivo comportamental individual e em grupo para pacientes dependentes de álcool e/ou outras drogas.
Abordaremos os resultados encontrados e as principais considerações das autoras.
Resultados e Discussão
Os pacientes alcoolistas aderiram mais ao tratamento em grupo (66.7%) do que individual (45.2%). No entanto, para os indivíduos dependentes de outras drogas, não foram encontradas diferenças.
Os pacientes alcoolistas participaram de mais consultas do que os pacientes dependentes de outras drogas.
Os pacientes tratados em grupo referiram um consumo alcoólico levemente maior, tanto na fase que antecedeu o tratamento quanto no final do estudo. Em comparação, os indivíduos tratados individualmente apresentaram um padrão de consumo diferente: o uso abusivo do álcool foi maior na época em que foi feita a avaliação inicial com relação à média de consumo semanal.
Houve uma redução significativa no consumo de álcool em ambas modalidades de tratamento.
Aproximadamente 52% de todos os pacientes completaram pelo menos o período de "aquisição" (veja descrição deste na Parte I).
7% dos pacientes desistiram após a 1ª sessão.
Na opinião das autoras, este deve ser o primeiro estudo comparando a terapia cognitivo comportamental individual e de grupo em pacientes dependentes de substâncias na população brasileira.
Apesar dos tradicionais níveis de absenteísmo em estudos como este, o estudo acompanhou a evolução de 68 % da amostra que é muito próxima do índice de 70% considerado ideal para que a amostra seja representativa da população geral.
Apesar da randomização da amostra, ou seja, da amostra ter sido selecionada ao acaso, os grupos diferiram quanto aos níveis de consumo prévio de álcool. Os pacientes alocados para o tratamento em grupo, apresentaram níveis levemente maiores de consumo de bebida alcoólica no período que antecedeu o tratamento. Provavelmente devido a isso, os pacientes tratados em grupo apresentaram uma maior redução no número de "dias de consumo de álcool vividos com problemas", ou seja, dias que tiveram problemas, como envolvimento em brigas ou acidentes, sob o efeito do álcool. No entanto, quando foram feitas correções estatísticas, em que foram considerados o uso abusivo do álcool para diferentes momentos da vida do entrevistado, a diferença entre as duas formas de tratamento desapareceu.
Tanto a TCC individual quanto a TCC em grupo demonstraram efetividade semelhante para a maioria das variáveis estudadas.
Muito embora o tempo de seguimento (tempo para reavaliação dos pacientes) do estudo tenha sido razoável, outros estudos, com maior intervalo de tempo de reavaliação, poderiam verificar de maneira mais eficaz a manutenção dos resultados obtidos.
O objetivo secundário deste estudo foi identificar os fatores preditores de sucesso (variáveis relacionadas a resultados positivos) no tratamento de pacientes dependentes de substâncias.
Estudos anteriores já haviam apontado alguns fatores que influenciam no tratamento:
Características pessoais e psicológicas dos pacientes.
Atribuições do terapeuta.
Características referentes à forma do tratamento, ou seja, de que maneira ele é planejado (número de pacientes por grupo, intervalo de tempo entre as consultas, tempo de seguimento dos pacientes, entre outros).
Variáveis demográficas.
Neste estudo:
O fato do paciente querer o tratamento mostrou ser um forte preditor de efetividade tanto para os pacientes dependentes de álcool quanto para os de outras drogas.
Evidenciou-se que quanto maior for o prejuízo físico conseqüente ao uso do álcool pior é o prognóstico (por exemplo, indivíduos que no início do estudo apresentaram mais alterações nos exames clínicos aderiram menos ao tratamento).
A boa interação entre a equipe além da empatia com o terapeuta são aspectos importantes na obtenção de bons resultados.
Para que os preditores de sucesso no tratamento sejam melhor avaliados e mensurados em estudos futuros, as autoras sugerem a inclusão de outras variáveis, como por exemplo: concordância do paciente em relação ao tratamento o que poderia ser evidenciado por meio de uma entrevista motivacional, e contexto de vida do entrevistado.
Durante as duas últimas décadas, a TCC tem sido considerada uma das formas de terapia mais eficaz no tratamento de indivíduos dependentes de álcool e outras drogas.
Baseado nos resultados deste estudo e na experiência de outros, as autoras concluíram que o formato de grupo pode ser o formato de escolha a ser oferecido em muitos serviços. Esta observação é particularmente importante em países como o Brasil em que há um grande número de pacientes necessitando de tratamento e poucos recursos para suprir estas necessidades.
Não devemos esquecer, portanto, que a abordagem individual deve ser mantida para atender as necessidades específicas e preferências de alguns pacientes.
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25/06/2004 |