16/08/2008
'Drunkorexia': anorexia alcoólica atinge mulheres jovens
Maria Vianna
“O álcool se torna uma forma de anestesiar as emoções negativas e, no caso das que valorizam um corpo magro, a bebida ajuda a diminuir a compulsão pela comida e ainda reduz o apetite.”
RIO - A produtora de cinema S., de 37, procurou ajuda no Alcoólicos Anônimos (AA) quando percebeu que estava trocando o café da manhã por um copo de cachaça e que sua magreza chamava a atenção da família. Ela se encaixa no perfil da drunkorexia, termo cunhado nos EUA para identificar mulheres na faixa dos 20 aos 40 anos que ingerem quantidades cada vez maiores de álcool e restringem as calorias com o objetivo de não descuidar do visual.
Rotuladas como drunkoréxicas, as atrizes Lindsay Lohan, Kirsten Dunst e Eva Mendez tiveram que declarar publicamente que passaram por clínicas de desintoxicação para tratar das bebedeiras causadas por cobranças, angústias e compulsões típicas da profissão.
- Era uma forma de lidar com um vazio, uma angústia que me deixava paralisada diante da vida. Na faculdade, percebia que minha bebedeira incomodava os amigos, então preferia beber sozinha - conta S.
De acordo com a National Eating Disorders Association, dos EUA, o alcoolismo associado a distúrbios alimentares é cada vez mais comum entre $jovens por causa de dois valores distorcidos incentivados pela sociedade: a magreza excessiva e o "binge drinking", a ingestão de grandes quantidades de álcool em um curto período.
Dados da instituição apontam que, somente nos EUA, cerca de 30% das mulheres com dependência de álcool têm algum tipo de distúrbio alimentar. O alcoolismo, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), atinge de 10% a 12% da população mundial.
A estudante L., de 31 anos, tinha 11 quando manifestou os primeiros sinais da doença. Aos poucos, começou a regular as calorias da alimentação para se permitir mais doses sem sentir o efeito na balança. Não adiantou: sem a bebida, sofreu com o efeito sanfona e chegou a pesar 107 quilos:
- Via mulheres fumando e bebendo nos filmes e na TV e achava que aquele ritual todo tinha um glamour especial.
Ainda não existem dados sobre a drunkorexia no Brasil, mas para a psiquiatra Analice Gigliotti, chefe do setor de Dependência Química da Enfermaria de Psiquiatria da Santa Casa de Misericórdia, o alcoolismo feminino quase sempre está associado a transtornos psicológicos como a anorexia, a bulimia, a depressão, a ansiedade.
- O álcool se torna uma forma de anestesiar as emoções negativas e, no caso das que valorizam um corpo magro, a bebida ajuda a diminuir a compulsão pela comida e ainda reduz o apetite. Elas também passam a controlar as calorias dos alimentos. Recebemos muitas mulheres alcoólatras que estão no peso ideal, mas completamente desnutridas. O álcool, além de não alimentar, rouba uma série de nutrientes do organismo - alerta Analice.
Trocar a comida pela bebida é mais comum do que se pensa, frisa a psiquiatra Magda Vaisman, diretora do Programa de Assistência a Pessoas com Problemas Relacionados ao Uso de Álcool e Drogas (Uniprad) da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Ela explica que, quando a dependência se instala, o indivíduo vai sempre priorizar o álcool:
- A bebida se torna o foco da vida do alcoólatra. Quem bebe para se entorpecer quer sentir os efeitos do álcool o quanto antes e beber de estômago vazio ajuda a acelerar esses efeitos.
Fonte: O Globo Online