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07/09/2008
Compulsão confunde prazer e obrigação

Sem auxílio correto, pessoas que sofrem de transtorno da impulsividade podem prejudicar carreira e relacionamentos.

Tisa Moraes

Praticar atividades que dão prazer é saudável. Mas a situação muda quando a busca por essa sensação de bem-estar se torna tão imperativa que a pessoa perde o controle. É nesse momento que ela começa a passar dias em frente ao computador, horas dentro de uma academia, a fazer sexo com estranhos, jogar até não poder mais, comer ou comprar tudo o que vê pela frente, tirar o pó dos móveis várias vezes ao dia...

Tachadas pela sociedade como excêntricas ou irresponsáveis, pessoas que agem dessa forma são, na verdade, portadoras do que os psiquiatras denominam de transtornos da impulsividade. No início, esses indivíduos são regidos pelo prazer. Com o tempo, porém, o que era apenas prazeroso torna-se uma obrigação.

“Mesmo que o indivíduo perceba que essa ação tem um caráter nocivo, ele continuará a executá-la repetidamente, contra sua própria vontade”, explica a psicóloga Elisabete Kurozawa, que presta atendimento em um programa de tratamento para compulsivos na Comunidade Bom Pastor.

Ela destaca que o problema não está em fazer exercícios, ir ao shopping ou ter relações sexuais, mas em viver quase que exclusivamente para isso. “É a busca do prazer imediato para escapar de uma angústia. No entanto, nesses casos extremos, o próprio comportamento compulsivo se torna uma fonte de sofrimento, porque a pessoa deixa de fazer outras coisas importantes para a vida dela e começa a sofrer perdas”, afirma.

De modo geral, pessoas com inclinação a esse tipo de transtorno costumam ser perfeccionistas, severas, rígidas, controladoras e instáveis emocionalmente. Por isso, costumam apresentar dificuldades em lidar com suas angústias e frustrações e buscam um modo de superar seus problemas rapidamente, por meio de alguma atividade que lhe dê prazer.

Pode ser o fumo, a bebida, as drogas ilícitas, um passeio ao shopping, o ataque à geladeira, um remédio ou diversões proporcionadas pela Internet ou algum jogo eletrônico. “Quando essa pessoa executa um determinado ato que provoca alívio, cada vez mais ela vai repetir aquele ato, até se transformar um comportamento hiper-apreendido”, analisa a psicóloga.

Mecanismos cerebrais

Os mecanismos cerebrais que determinam a dependência química e as compulsões comportamentais são bastante parecidos. Em ambos os casos, a pessoa não consegue mais viver sem o cigarro, o álcool ou qualquer outra droga, nem ficar sem repetir uma ação ou um comportamento que lhe dá prazer.

Embora atuem na mesma região do cérebro, a dependência química e a comportamental se expressam de maneira diferente, segundo o psiquiatra Evandro Luís Borgo. Enquanto uma categoria procura satisfazer a necessidade do organismo por uma determinada substância química, a outra é manifestada por meio de impulsos.

No entanto, ambas têm a mesma função: satisfazer a sede de prazer. “O indivíduo que é incapaz de lidar com essa ansiedade se frustra mais facilmente e, como medida compensatória, acaba adquirindo comportamentos compulsivos”, diz.

De acordo com estudos, o número de viciados, seja em drogas ou em comportamentos, vem aumentando desde o fim da década de 1970. Para a psicóloga Elisabete, esse crescimento é um reflexo de valores como competitividade e alta performance, tão cultuados pela pós-modernidade. “As pessoas são muito exigidas e também se cobram muito. Quando não correspondem às expectativas das outras pessoas e delas próprias, o sentimento de incapacidade faz com que comecem a desenvolver mecanismos de defesa”, comenta.

Segundo Borgo, a partir do momento em que esses vícios começam a interferir na vida cotidiana do indivíduo, é hora de rever os costumes. Mas ele revela que, geralmente, a maioria dos pacientes só procura ajuda profissional quando já sofreu muitas perdas. “Nessa fase, a pessoa já apresenta problemas financeiros, nos relacionamentos interpessoais, no trabalho e na saúde”, observa o psiquiatra.

Quando diagnosticado o transtorno, o tratamento se dá através de psicoterapia, associada ou não ao uso de medicamentos. “Tudo vai depender da razão pela qual a pessoa está apresentando aquele comportamento disfuncional”, finaliza.

Fonte: www.jcnet.com.br

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