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Entrevista com Paulo Roberto Yog de Miranda Uchoa Secretário Nacional Antidrogas
Entrevista publicada em 11/09/2003 |
- O que é a Secretaria Nacional
Antidrogas (SENAD)?
A SENAD, vinculada ao Gabinete de Segurança
Institucional da Presidência da República, é
o órgão responsável pela coordenação
e articulação da Política Nacional Antidrogas
- PNAD, no que se refere à redução da demanda
de drogas. Ainda, a SENAD desempenha o papel de secretaria executiva
do Conselho Nacional Antidrogas - CONAD.
Cabe também à SENAD estimular,
assessorar, orientar, acompanhar e avaliar a implantação
desta política, integrando ações nas esferas
do governo federal, estadual e municipal, bem como estimular a
atuação da sociedade civil e a cooperação
internacional no âmbito das políticas de drogas.
- O senhor completou um ano e meio
frente à SENAD. Fazendo um balanço, quais são
as principais realizações da Secretaria durante
esse período?
Poderíamos citar entre as ações
realizadas por nossa Secretaria neste período, a implementação
da Política Nacional Antidrogas - PNAD, a interação
com os estados e municípios, a estruturação
da Rede dos Conselhos Estaduais que, hoje, estão interligados,
favorecendo a capilaridade dentro do território nacional
e permitindo maior participação da sociedade nas
ações de prevenção do uso indevido
de drogas e no atendimento a usuários e dependentes, assim
como a implantação do Observatório Brasileiro
de Informações Sobre Drogas - OBID.
Desenvolvemos cursos a distância para profissionais
e voluntários nas áreas de prevenção
e tratamento, além de atualização de conhecimentos
para membros dos Conselhos Estaduais e Municipais que atuam na
redução da demanda de drogas e concluímos
o "I Levantamento Domiciliar sobre Drogas Psicotrópicas
no Brasil" abrangendo as 107 maiores cidades do país.
Desenvolvido pelo CEBRID, este levantamento é uma importante
referência sobre o consumo de drogas no país.
É importante enfatizar que a SENAD tem
prestado importante apoio à realização de
Encontros, Seminários, Fóruns e Congressos com vistas
à mobilização da sociedade nas áreas
de prevenção e tratamento do dependente químico.
Descentralizar as ações da PNAD
ao nível municipal, por meio do estímulo à
implantação de Conselhos Municipais Antidrogas (COMENs
ou COMADs) e outras ações relacionadas, é
uma das estratégias que norteiam o nosso trabalho.
Na área internacional, além da
coordenação da participação do Brasil
no processo anual de resposta aos indicadores do Mecanismo de
Avaliação Multilateral - MEM da Comissão
Interamericana para o Controle do Abuso de Drogas-CICAD da Organização
dos Estados Americanos - OEA, a SENAD desenvolveu importante Projeto-Piloto
em Municípios Fronteiriços (em parceria com Argentina,
Bolívia, Paraguai e Uruguai), para aplicar e validar metodologia
de condução de ações de redução
da demanda no nível municipal e promover uma maior integração
com os países vizinhos.
No que diz respeito ao Fundo nacional Antidrogas,
a SENAD tem aprimorado os procedimentos de alienação
de bens advindos do narcotráfico, através do estabelecimento
de convênios entre o Ministério Público, Poder
Judiciário e órgãos do Executivo de diversos
estados brasileiros, descentralizando as ações e
permitindo maior participação dos conveniados nos
recursos auferidos.
A elaboração e distribuição,
a nível nacional, de material educativo de primeira qualidade,
com informações sobre o uso indevido de drogas,
bem como o oferecimento de serviço gratuito de atendimento
ao cidadão (0800 614321), na área de drogas, acredito
que, também, devam ser mencionados.
A fim de dar cumprimento à estratégia
do Sr Presidente Lula, contida em sua mensagem ao Congresso de
17 Fev deste ano, onde determina a integração das
Políticas Públicas com a PNAD, é fundamental
destacar, também, realização, em março
deste ano, do "Seminário Nacional Novos Cenários
para a Política Nacional Antidrogas". Esse Seminário
permitiu identificar as áreas de convergência entre
a PNAD e as políticas públicas governamentais, gerando
como desdobramento a assinatura de protocolos com diversos órgãos
do governo federal para a implantação de projetos,
muitos dos quais já estão em andamento.
- Quais as metas de curto, médio
e longo prazo da SENAD para os próximos anos?
A curto prazo:
- Reestruturação do Conselho Nacional Antidrogas
- CONAD, ampliando a participação da sociedade civil;
- Implementação dos protocolos assinados com os
órgãos federais e organizações da
sociedade civil, para o desenvolvimento de ações
pelos Ministérios da Educação, do Trabalho
e Emprego, da Saúde, da Defesa, da Assistência Social,
da Secretaria Especial dos Direitos Humanos, entre outros;
- Reestruturação do Serviço de Atendimento
ao Público - 0800;
- Ampliação do processo de descentralização
das ações da PNAD nos municípios
A médio prazo:
- Realização de um mapeamento das instituições
que atuam no tratamento, na redução de danos e na
reinserção social de usuários e dependentes
de drogas, existentes no País;
- I Levantamento Nacional sobre o uso de drogas por crianças
e adolescentes em situação de rua, nas 27 capitais
brasileiras;
- Levantamento Nacional sobre o uso de drogas nas escolas de ensino
fundamental e médio no Brasil, nas 27 capitais brasileiras;
- Atualização das Cartilhas de Orientação
ao Público;
- Elaboração de um Glossário brasileiro de
termos sobre drogas.
A longo prazo:
Atualização da Política Nacional Antidrogas;
- Em linhas gerais, quais
as estratégias fundamentais que compõem uma política
de drogas eficiente e abrangente?
Uma política de drogas deve considerar
a realidade sócio-cultural da população,
responder às suas necessidades, fundamentar-se em dados
epidemiológicos e científicos atualizados e, acima
de tudo, envolver todos os setores da sociedade no seu desenvolvimento,
por meio de redes. Por fim, deve observar alinhamento com a
Constituição Federal no que diz respeito aos
direitos humanos e às liberdades fundamentais de um Estado
de Direito.
- Há uma grande discussão
no momento acerca a descriminalização do porte de
pequenas quantidades de drogas ilícitas. Qual a sua opinião
sobre o tema?
Nossa preocupação maior é
reduzir o uso indevido de drogas, evitando os prejuízos
pessoais e sociais a ele associados, numa perspectiva de saúde
coletiva.
Neste sentido, não defendemos a
legalização incondicional das substâncias,
mesmo que isso significasse maior controle ou a desestigmatização
de usuários.
A sociedade brasileira tem encontrado dificuldades
para gerar políticas efetivas de controle para minimizar
os danos causados pelas drogas legalizadas, como o álcool
e o tabaco e isto nos leva a ver com reserva a liberação
de outras substâncias, hoje proibidas.
Não considerar crime o uso ou o
porte, para uso próprio, de substâncias de pequeno
impacto na saúde coletiva, principalmente a maconha,
nos parece, no entanto, uma medida benéfica. Nesses casos,
seria mais útil para a sociedade se a penalização
estivesse centrada em medidas administrativas de caráter
social.
- O senhor considera que existe relação
entre o consumo de drogas e a violência?
Antes de mais nada é importante
rejeitar a idéia de que o uso ou o tráfico de drogas
é o maior responsável pela violência existente
em nossa sociedade. Fatores de ordem macroeconômica e social
são alguns dos principais determinantes deste problema.
Existem, no entanto, situações
nas quais as drogas estão diretamente associadas a episódios
de violência.
A principal delas refere-se aos problemas
relacionados ao tráfico, às guerras entre facções,
às questões de dinheiro envolvido, vinganças
pessoais, eliminação de testemunhas e mesmo conflitos
com a polícia.
Não são poucos também
os episódios de violência causados por comportamentos
motivados pela alteração de consciência devido
ao consumo de drogas, destacando-se, neste caso, o abuso de bebidas
alcoólicas.
Pesquisas revelam que o álcool
está presente em grande parte de crimes e acidentes, tendo
sido consumido tanto por aqueles que os provocaram como pelas
vítimas.
- Como a SENAD pode auxiliar organizações
da sociedade civil sem fins lucrativos que atuam na prevenção
e tratamento do uso de drogas, que necessitam de financiamento
e/ou capacitação?
A missão da Senad não é ser um
órgão financiador de ações de prevenção,
tratamento e reinserção social de usuários
e dependentes de drogas, e sim de articulador de políticas
e ações nesta área.
É sua competência, no entanto, transferir recursos
do Fundo Nacional Antidrogas para aplicação em Projetos
considerados relevantes na implantação da Política
Nacional Antidrogas.
Podem solicitar subvenção social instituições
públicas e privadas de caráter assistencial, sem
fins lucrativos, que atuem nas áreas de prevenção,
pesquisa, eventos, publicações, recuperação,
tratamento e reinserção social de dependentes químicos.
As solicitações são examinadas quanto ao
tipo de projeto, aplicação dos recursos, documentação
da instituição e verificação da disponibilidade
de recursos financeiros.
No que se refere à capacitação de profissionais,
a Senad articula o desenvolvimento de cursos nos diferentes aspectos
de sua atuação, alguns diretamente oferecidos aos
interessados, outros em convênio com instituições
públicas e privadas, em geral na modalidade à distância.
Além disso, a Senad participa em reuniões, congressos,
seminários e outros eventos nos quais tem a oportunidade
de interagir com a comunidade científica, com os gestores
das políticas públicas, com as instituições,
com as organizações não governamentais e
com o público em geral.
A orientação para o envio de pedidos de recursos
e a divulgação dos cursos e eventos promovidos pela
Senad encontram-se no nosso site: www.senad.gov.br
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