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Entrevista com
Ana Cecilia Roselli Marques Presidente da Associação Brasileira de Estudos de Álcool e Drogas (ABEAD)
Entrevista publicada em 03/02/2004 |
A
Sra. poderia fazer um breve resumo sobre sua carreira na área
de álcool e drogas?
Minha primeira "especialização" dentro
da Medicina, foi a Clínica Médica. Filosoficamente,
acredito que o médico deve ser primeiro um bom generalista,
para a seguir escolher uma especialidade. Como Clínica Geral
de uma Unidade Básica de Saúde da periferia em uma
cidade do interior de São Paulo, costumava receber às
segundas-feiras, o mesmo grupo de pacientes que abusava e se intoxicava
com álcool durante o final de semana. Meus recursos técnicos
eram aplicados para a desintoxicação, mas o tratamento
da dependência de álcool, dos 10% dentre estes pacientes,
deixava muito a desejar. Inconformada com a minha qualificação,
busquei me especializar em Psiquiatria e a seguir, pós-graduei
em Psicobiologia, direcionando minhas pesquisas para os pacientes
dependentes de álcool e outras drogas, para entender mais
sobre seu sofrimento e para lhes oferecer uma ajuda mais capacitada..
Minha carreira na área começou em 1990 e parece que
nunca vai acabar....Sinto que ainda há muito que estudar!
O que é a Associação Brasileira
de Estudos de Álcool e Drogas (ABEAD) da qual a Sra. é
presidente?
A Associação Brasileira de Estudos
do Álcool e Outras Drogas, ABEAD, fundada em 1989, congrega
profissionais que trabalham no campo da dependência química
no Brasil e no exterior. Com psicólogos, psiquiatras, assistentes
sociais, enfermeiros, advogados e líderes comunitários,
consultores e professores, entre outros associados, a ABEAD oferece
uma variedade de perspectivas e uma troca de experiências
dinâmica e atualizada. Entidade civil sem fins lucrativos
tem sede permanente em Porto Alegre. Tem como missão divulgar
e incentivar o debate informado sobre todas as questões que
envolvem o uso de drogas legais e ilegais no país; colocando-se
com uma instituição "guarda-chuva", incentivando e
promovendo pesquisas, otimizando o acesso ao tratamento do usuário
de drogas, renovando idéias, consolidando práticas
e ajudando a desenvolver estratégias de prevenção
e tratamento que venham a reduzir custos e danos associados ao uso
do tabaco, álcool e outras drogas. Como meta tem a estruturação
de um serviço de assistência aos profissionais ligados
ao campo da dependência química.
Quais são os planos e metas da ABEAD
durante seu mandato?
Tenho duas metas que caminharão juntas durante a minha gestão:
conhecer e integrar os associados da ABEAD e fazer com que a associação
se torne mais conhecida e pró-ativa no Brasil. Para cumprir
esta missão estamos implementando algumas estratégias
como recadastramento do sócios; eventos regionais; profissionalização
do site e do boletim eletrônico, criação de
um Departamento de Comunicação, além de projetos
de aprimoramento, extensão e atualização que
serão desenvolvidos por meio de parcerias em todo território
nacional.
Como a Sra. vê a questão
das drogas e do álcool no Brasil e no resto do mundo?
Minha opinião é que ainda estamos
muito atrasados quanto à prevenção dos problemas
relacionados às drogas. Em todos os níveis, observa-se
a falta de investimento e credibilidade em pesquisas e recursos
humanos; a dissonância entre as políticas públicas
e a real necessidade; a falta de treinamento dos profissionais e
a falta de articulação entre as ações.
Qual o papel da pesquisa para
se abordar as questões relacionadas às drogas?
Não temos tradição em pesquisa
na área de álcool e drogas no Brasil. Porém,
de outro lado, sabemos que pesquisar é a única forma
de conhecer a realidade e a necessidade, para fundamentar as propostas
de prevenção e,ou tratamento. Com os resultados das
pesquisas, isto é, as evidências, é possível
ter clareza dos objetivos; utilizar modelos mais efetivos, e reduzir
gastos, mantendo sempre acesa a ética no cuidado com todos
os indivíduos.
Como a ABEAD pode auxiliar
e colaborar na prevenção e tratamento do uso de drogas?
Cumprindo sua missão:
- Divulgar e incentivar o debate informado sobre as políticas
e novas tendências sobre todas as questões que envolvem
o uso de drogas legais e ilegais no país.
- Facilitar a informação e oferecer direções
sobre os serviços de assistência aos profissionais
ligados ao campo da dependência química.
- Incentivar e promover novas pesquisas científicas e o
intercâmbio de experiências entre seus associados.
- Otimizar o acesso ao tratamento do usuário de drogas,
bem como o apoio aos seus familiares, parceiros e amigos.
- Identificar novos desafios no campo da dependência química
e ser uma plataforma independente, que integre as questões
científicas, políticas e sociais.
- Renovar idéias, consolidar práticas e ajudar a
desenvolver estratégias de prevenção e tratamento,
que venham a reduzir o custo e os danos associados ao uso de tabaco,
álcool e outras drogas na sociedade.
- Educar e conscientizar sobre a discriminação,
os mitos e os preconceitos relacionados ao uso de drogas.
Em linhas gerais, quais as estratégias
fundamentais que compõem uma política de drogas eficiente
e abrangente?
Já abordamos todos os itens fundamentais
para uma política adequada sobre drogas. Portanto, vou traçar
um resumo das etapas a serem cumpridas:
- Organizar uma equipe multidisciplinar;
- Investigar as evidências sobre cada questão com
metodologia adequada: a pesquisa;
- De acordo com a necessidade e a política de cada local,
elaborar o plano de ação: integrar a equipe, a comunidade,
a ciência e as evidências;
- Avaliar o processo e a efetividade das medidas implementadas;
- Formular uma política contextualizada.
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