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  Entrevista com
Dr. Hermano Tavares
Coordenador do AMJO - Ambulatório de Jogo Patológico e Outros Transtornos


Publicada em 15/03/2004
O Prof. Dr. Hermano Tavares é psiquiatra, doutor em psiquiatria pela Faculdade de Medicina da USP, pós-doutorado na Universidade de Calgary no Canadá e coordenador do AMJO - Ambulatório de Jogo Patológico e Outros Transtornos do Impulso do Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP. O AMJO foi fundado em 1997 e desde então tem como principais objetivos o desenvolvimento de pesquisa, assistência e ensino no campo do Jogo Patológico e as chamadas dependências comportamentais, tais como compras, sexo e comer compulsivo.


1. Como diferenciar alguém que joga por diversão de alguém que tem problemas com o jogo? Quando o jogo vira doença?
Howard Shaffer da Universidade de Harvard propôs a divisão dos jogadores em três níveis: nível 1) joga com freqüência variável, mas nunca enfrentou problemas ocasionados pelo seu hábito; nível 2) joga com freqüência, tem sofrido problemas oriundos do seu hábito (débitos pendentes, discussões com familiares, etc.), mas as funções sociais não foram significativamente comprometidas; nível 3) joga repetidamente e cursa com prejuízo funcional (dívidas vultosas, sofrimento dos laços familiares, perda de emprego, furto, estelionato, desmoralização, etc.). O nível 0 seria para aqueles que não fazem apostas, ou somente o fizeram muito esporadicamente ao longo da vida. O nível 3 corresponde em Psiquiatria ao que chamamos de Jogador Patológico.

2. Como seria o tratamento? Tem cura?
Apesar de constituir-se um quadro grave, Jogo Patológico pode ter um prognóstico se garantida a adesão do paciente. A adesão na verdade, assim como no caso do tratamento das dependências químicas, é o grande desafio. O tratamento requer suporte psicoterápico específico para os problemas de jogo e tratamento concomitante das comorbidades que ocorrem em cerca de 70% dos pacientes que procuram tratamento ambulatorial. As comorbidades mais comuns são os transtornos de humor e transtornos ansiosos. Suporte e orientação aos familiares são fundamentais e pode ser o diferencial que assegura a adesão do jogador ao tratamento.

3. Existe um perfil de pessoa ou um tipo de personalidade com maior tendência a ter este transtorno? Seriam elas pessoas pobres em busca de dinheiro, por exemplo?
Estudos epidemiológicos mostram que Jogo Patológico ocorre em todas as classes sociais, porém é mais freqüente nas classes intermediárias e na porção superior das classes menos favorecidas. Uma interpretação possível é que são pessoas com algum poder de compra que, no entanto, estão insatisfeitas com seu status social e por isso são mais vulneráveis ao apelo da "magia" do jogo. Do ponto de vista da personalidade, as pesquisas indicam uma associação entre tendência ao jogo e traços impulsivos. Vulnerabilidade à ansiedade e depressão também podem ter um papel importante.

4. Existe uma causa para este comportamento? Quais seriam os principais fatores de risco para o desenvolvimento do jogo patológico?
A principal causa para este tipo de comportamento é a crescente oferta de jogos de azar em nossa sociedade. Esta expansão do jogo se dá principalmente através dos jogos eletrônicos, o vídeo-poker, vídeo-bingo e caça-níqueis em geral. O vídeo-jogo é fácil de administrar e requer pouco investimento. Infelizmente também é a forma mais nociva de jogo de azar, porque tem maior potencial para causar dependência. Temos dados mostrando que jogadores de vídeo-jogo evoluem até quatro vezes mais rápido para compulsão do que jogadores de outros jogos.

5. Quais seriam os principais sinais de que alguém está tendo problemas com o jogo? O que a família pode fazer?
A maior dificuldade do Jogo Patológico é que ele pode ser mantido oculto pelo paciente por muito tempo eventualmente só ser descoberto quando o patrimônio familiar já foi seriamente comprometido. Os familiares devem desconfiar de que algo não vai bem quando observam visitas freqüentes à casa de jogos, importância excessiva dada à atividade (escolher o local das férias pelo acesso ao jogo), flutuações de humor associadas ao resultado do jogo, ausências inexplicadas por longos períodos, perda de rendimento no trabalho ou no estudo e acima de tudo dívidas e dificuldade financeira constante sem justificativa aparente. Se os temores forem confirmados a família antes de mais nada deve se proteger do problema passando aos cuidados de outros membros os pagamentos e o gerenciamento financeiro da casa. A família não deve pagar dívidas de jogo, por mais duro que seja, porque isto apenas alimentará a compulsão e o jogador deve ser encorajado a procurar tratamento.

6. Existe alguma relação entre jogo patológico e dependência de álcool e outras drogas? Seria uma dependência não química?
Jogo Patológico tem sido visto como uma dependência comportamental. Reforçam esta percepção, estudos recentes que mostram que as áreas cerebrais envolvidas na atividade de jogar têm uma impressionante superposição com as estruturas ativadas pela administração de cocaína. Existe também compartilhamento de fatores genéticos predisponentes às dependências e transtornos do impulso. A comorbidade com dependência química é freqüente e varia em torno de 25% em amostras clínicas.

7. Existem estudos sobre a freqüência deste transtorno na população brasileira ou em outro país do mundo? Quais os resultados?
Não há estudos epidemiológicos sobre Jogo Patológico na América Latina, porém já existe planejamento para iniciarmos um estudo neste sentido na população geral e outro enfocando adolescentes está em fase de negociação com a OPAS numa parceria internacional entre várias universidades americanas. Contudo, os estudos epidemiológicos disponíveis mostram que em grandes aglomerados urbanos onde jogos de azar estão legalizados e acessíveis a prevalência oscila ao redor de 2% de jogadores patológicos (nível 3) , mais 3% de jogadores problemas (nível 2). Por exemplo, de posse destes números podemos estimar que na Grande São Paulo dentre seus 18 milhões de habitantes, 360 mil são jogadores patológicos, 540 mil são jogadores problema, perfazendo um total de 900 mil habitantes sofrendo conseqüências negativas do hábito de a jogar, isto sem contar os familiares que não jogam, mas também sofrem as conseqüências. Temos dados mostrando que o jogador mora em média com mais duas pessoas. Multipliquem, então os números anteriores por 3 e veremos porque Jogo Patológico já deixou de ser uma curiosidade para passar a ser um problema de saúde pública na América do Norte e alguns países de Europa.

8. É possível prevenir este comportamento? O que poderia ser feito?
Sim, primeiro a informação deve ser levada a toda população sobre o risco de dependência associado aos jogos de azar e em especial aos jovens porque as primeiras experiências com jogo se dão classicamente ao fim da adolescência. Programas canadenses de prevenção enfocam principalmente em ensinar aos adolescentes como avaliar de maneira realista as possibilidades de ganhar no jogo e o desenvolvimento de outras formas de lidar com as emoções. Dentre os adultos que já jogam, cuidado especial deve ser dado àqueles que começaram a jogar depois dos 40 anos, que dão preferência aos jogos eletrônicos e jogadores do sexo feminino porque temos dados que sugerem que nestes indivíduos a progressão do nível 1 para o nível 3 é muito mais rápida.

9. Há atualmente no Brasil uma discussão em torno da legislação sobre os bingos e máquinas de caça níqueis. Você considera a proibição destes como uma medida preventiva para o jogo patológico?
Quem fizer uma revisão honesta e imparcial da literatura científica disponível vai concluir o seguinte: a oferta de jogo de azar aumenta a incidência de casos de Jogo Patológico. O contrário, a proibição reduz. Então, a proibição de bingos e caça-níqueis vai beneficiar jogadores patológicos e proteger pessoas vulneráveis, quanto a isto não há dúvida. Não procede o argumento de que Bingos incrementam a economia, porque jogo só produz crescimento econômico quando associado ao turismo e quando a população local tem acesso restrito (caso das Bahamas). É difícil de imaginar turistas estrangeiros vindo ao Brasil para passar uma temporada em nossos bingos. Também é duvidoso o argumento de que jogo gera empregos. Alguns estudos econômicos mostram que o mais comum é uma realocação de postos de trabalho. Por exemplo, o restaurante que funcionava num determinado bairro fechou porque agora os seus clientes vão ao bingo, então o garçom que trabalhava lá conseguiu um emprego no bingo. A questão da legalização do jogo é fundamentalmente ética e social. É preciso lembrar que a maioria das pessoas que jogam não se torna dependente, mas que as casas de jogo dependem em grande parte do dinheiro dos "compulsivos" porque eles gastam em média dez vezes mais do que um jogador normal. A pergunta pode ser fraseada de duas formas - "Devemos sacrificar o lazer de uma maioria por que uma minoria é vulnerável a ele?", ou "Será justo que o prazer da maioria se dê às custa da ruína de uma minoria"? A resposta não é fácil, basta lembrar o problema do álcool, poucas pessoas seriam favoráveis a uma proibição pura e simples. Pessoalmente sou contra casas de jogo e formas comerciais estruturadas para incentivar as pessoas a jogar mais e mais sem jamais alertar para o risco de dependência, nem propor moderação. Não tenho nada contra jogos informais praticados com amigos em ambiente familiar, exceto se você for um jogador patológico, neste caso é melhor fazer como mandam os Jogadores Anônimos: evite a primeira aposta!

10. Onde conseguir ajuda e/ ou informação?
Os interessados podem procurar mais informações no site www.jogadoresanonimos.org , ou ligar para o AMJO fone (0XX11) 3083-7816 deixando um recado com nome completo, telefones para contato e melhor horário para telefonar, um membro da equipe entrará em contato em 48 horas.
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