O Prof. Dr. Hermano Tavares é
psiquiatra, doutor em psiquiatria pela Faculdade de Medicina da USP,
pós-doutorado na Universidade de Calgary no Canadá e coordenador do
AMJO - Ambulatório de Jogo Patológico e Outros Transtornos do Impulso
do Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP. O AMJO
foi fundado em 1997 e desde então tem como principais objetivos o
desenvolvimento de pesquisa, assistência e ensino no campo do Jogo
Patológico e as chamadas dependências comportamentais, tais como compras,
sexo e comer compulsivo. 1.
Como diferenciar alguém que joga por diversão de alguém que tem problemas
com o jogo? Quando o jogo vira doença?
Howard Shaffer da Universidade de Harvard propôs a divisão dos jogadores
em três níveis: nível 1) joga com freqüência variável, mas nunca enfrentou
problemas ocasionados pelo seu hábito; nível 2) joga com freqüência,
tem sofrido problemas oriundos do seu hábito (débitos pendentes, discussões
com familiares, etc.), mas as funções sociais não foram significativamente
comprometidas; nível 3) joga repetidamente e cursa com prejuízo funcional
(dívidas vultosas, sofrimento dos laços familiares, perda de emprego,
furto, estelionato, desmoralização, etc.). O nível 0 seria para aqueles
que não fazem apostas, ou somente o fizeram muito esporadicamente
ao longo da vida. O nível 3 corresponde em Psiquiatria ao que chamamos
de Jogador Patológico. 2. Como seria o tratamento?
Tem cura?
Apesar de constituir-se um quadro grave, Jogo Patológico pode ter
um prognóstico se garantida a adesão do paciente. A adesão na verdade,
assim como no caso do tratamento das dependências químicas, é o grande
desafio. O tratamento requer suporte psicoterápico específico para
os problemas de jogo e tratamento concomitante das comorbidades que
ocorrem em cerca de 70% dos pacientes que procuram tratamento ambulatorial.
As comorbidades mais comuns são os transtornos de humor e transtornos
ansiosos. Suporte e orientação aos familiares são fundamentais e pode
ser o diferencial que assegura a adesão do jogador ao tratamento.
3. Existe um perfil de pessoa ou um tipo de personalidade
com maior tendência a ter este transtorno? Seriam elas pessoas pobres
em busca de dinheiro, por exemplo?
Estudos epidemiológicos mostram que Jogo Patológico ocorre em todas
as classes sociais, porém é mais freqüente nas classes intermediárias
e na porção superior das classes menos favorecidas. Uma interpretação
possível é que são pessoas com algum poder de compra que, no entanto,
estão insatisfeitas com seu status social e por isso são mais vulneráveis
ao apelo da "magia" do jogo. Do ponto de vista da personalidade, as
pesquisas indicam uma associação entre tendência ao jogo e traços
impulsivos. Vulnerabilidade à ansiedade e depressão também podem ter
um papel importante. 4. Existe uma causa para este
comportamento? Quais seriam os principais fatores de risco para o
desenvolvimento do jogo patológico?
A principal causa para este tipo de comportamento é a crescente oferta
de jogos de azar em nossa sociedade. Esta expansão do jogo se dá principalmente
através dos jogos eletrônicos, o vídeo-poker, vídeo-bingo e caça-níqueis
em geral. O vídeo-jogo é fácil de administrar e requer pouco investimento.
Infelizmente também é a forma mais nociva de jogo de azar, porque
tem maior potencial para causar dependência. Temos dados mostrando
que jogadores de vídeo-jogo evoluem até quatro vezes mais rápido para
compulsão do que jogadores de outros jogos. 5. Quais
seriam os principais sinais de que alguém está tendo problemas com
o jogo? O que a família pode fazer?
A maior dificuldade do Jogo Patológico é que ele pode ser mantido
oculto pelo paciente por muito tempo eventualmente só ser descoberto
quando o patrimônio familiar já foi seriamente comprometido. Os familiares
devem desconfiar de que algo não vai bem quando observam visitas freqüentes
à casa de jogos, importância excessiva dada à atividade (escolher
o local das férias pelo acesso ao jogo), flutuações de humor associadas
ao resultado do jogo, ausências inexplicadas por longos períodos,
perda de rendimento no trabalho ou no estudo e acima de tudo dívidas
e dificuldade financeira constante sem justificativa aparente. Se
os temores forem confirmados a família antes de mais nada deve se
proteger do problema passando aos cuidados de outros membros os pagamentos
e o gerenciamento financeiro da casa. A família não deve pagar dívidas
de jogo, por mais duro que seja, porque isto apenas alimentará a compulsão
e o jogador deve ser encorajado a procurar tratamento. 6.
Existe alguma relação entre jogo patológico e dependência de álcool
e outras drogas? Seria uma dependência não química?
Jogo Patológico tem sido visto como uma dependência comportamental.
Reforçam esta percepção, estudos recentes que mostram que as áreas
cerebrais envolvidas na atividade de jogar têm uma impressionante
superposição com as estruturas ativadas pela administração de cocaína.
Existe também compartilhamento de fatores genéticos predisponentes
às dependências e transtornos do impulso. A comorbidade com dependência
química é freqüente e varia em torno de 25% em amostras clínicas.
7. Existem estudos sobre a freqüência deste transtorno
na população brasileira ou em outro país do mundo? Quais os resultados?
Não há estudos epidemiológicos sobre Jogo Patológico na América Latina,
porém já existe planejamento para iniciarmos um estudo neste sentido
na população geral e outro enfocando adolescentes está em fase de
negociação com a OPAS numa parceria internacional entre várias universidades
americanas. Contudo, os estudos epidemiológicos disponíveis mostram
que em grandes aglomerados urbanos onde jogos de azar estão legalizados
e acessíveis a prevalência oscila ao redor de 2% de jogadores patológicos
(nível 3) , mais 3% de jogadores problemas (nível 2). Por exemplo,
de posse destes números podemos estimar que na Grande São Paulo dentre
seus 18 milhões de habitantes, 360 mil são jogadores patológicos,
540 mil são jogadores problema, perfazendo um total de 900 mil habitantes
sofrendo conseqüências negativas do hábito de a jogar, isto sem contar
os familiares que não jogam, mas também sofrem as conseqüências. Temos
dados mostrando que o jogador mora em média com mais duas pessoas.
Multipliquem, então os números anteriores por 3 e veremos porque Jogo
Patológico já deixou de ser uma curiosidade para passar a ser um problema
de saúde pública na América do Norte e alguns países de Europa.
8. É possível prevenir este comportamento? O que poderia
ser feito?
Sim, primeiro a informação deve ser levada a toda população sobre
o risco de dependência associado aos jogos de azar e em especial aos
jovens porque as primeiras experiências com jogo se dão classicamente
ao fim da adolescência. Programas canadenses de prevenção enfocam
principalmente em ensinar aos adolescentes como avaliar de maneira
realista as possibilidades de ganhar no jogo e o desenvolvimento de
outras formas de lidar com as emoções. Dentre os adultos que já jogam,
cuidado especial deve ser dado àqueles que começaram a jogar depois
dos 40 anos, que dão preferência aos jogos eletrônicos e jogadores
do sexo feminino porque temos dados que sugerem que nestes indivíduos
a progressão do nível 1 para o nível 3 é muito mais rápida.
9. Há atualmente no Brasil uma discussão em torno da legislação
sobre os bingos e máquinas de caça níqueis. Você considera a proibição
destes como uma medida preventiva para o jogo patológico?
Quem fizer uma revisão honesta e imparcial da literatura científica
disponível vai concluir o seguinte: a oferta de jogo de azar aumenta
a incidência de casos de Jogo Patológico. O contrário, a proibição
reduz. Então, a proibição de bingos e caça-níqueis vai beneficiar
jogadores patológicos e proteger pessoas vulneráveis, quanto a isto
não há dúvida. Não procede o argumento de que Bingos incrementam a
economia, porque jogo só produz crescimento econômico quando associado
ao turismo e quando a população local tem acesso restrito (caso das
Bahamas). É difícil de imaginar turistas estrangeiros vindo ao Brasil
para passar uma temporada em nossos bingos. Também é duvidoso o argumento
de que jogo gera empregos. Alguns estudos econômicos mostram que o
mais comum é uma realocação de postos de trabalho. Por exemplo, o
restaurante que funcionava num determinado bairro fechou porque agora
os seus clientes vão ao bingo, então o garçom que trabalhava lá conseguiu
um emprego no bingo. A questão da legalização do jogo é fundamentalmente
ética e social. É preciso lembrar que a maioria das pessoas que jogam
não se torna dependente, mas que as casas de jogo dependem em grande
parte do dinheiro dos "compulsivos" porque eles gastam em média dez
vezes mais do que um jogador normal. A pergunta pode ser fraseada
de duas formas - "Devemos sacrificar o lazer de uma maioria por que
uma minoria é vulnerável a ele?", ou "Será justo que o prazer da maioria
se dê às custa da ruína de uma minoria"? A resposta não é fácil, basta
lembrar o problema do álcool, poucas pessoas seriam favoráveis a uma
proibição pura e simples. Pessoalmente sou contra casas de jogo e
formas comerciais estruturadas para incentivar as pessoas a jogar
mais e mais sem jamais alertar para o risco de dependência, nem propor
moderação. Não tenho nada contra jogos informais praticados com amigos
em ambiente familiar, exceto se você for um jogador patológico, neste
caso é melhor fazer como mandam os Jogadores Anônimos: evite a primeira
aposta! 10. Onde conseguir ajuda e/ ou informação?
Os interessados podem procurar mais informações no site www.jogadoresanonimos.org
, ou ligar para o AMJO fone (0XX11) 3083-7816 deixando um recado com
nome completo, telefones para contato e melhor horário para telefonar,
um membro da equipe entrará em contato em 48 horas. |