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Entrevista
  Entrevista com
Paulina do Carmo Arruda Vieira Duarte

Diretora de Prevenção e Tratamento da Secretaria Nacional Antidrogas (SENAD)

Entrevista publicada em 27/08/2004
 
1. Como a Sra. vê a questão das drogas e do álcool no Brasil?
Esta não é uma questão nova na história da humanidade, mas nos dias de hoje tem assumido algumas características preocupantes. Temos constatado que o consumo de álcool e outras drogas tem sido iniciado em idade cada vez mais precoce e os problemas decorrentes do uso indevido, principalmente de álcool, têm atingido um número significativo de pessoas.
Além dos problemas de saúde, individual e coletiva, precisamos considerar os acidentes, a violência e os prejuízos sociais que o abuso e a dependência de drogas têm ocasionado, tanto no que se refere à vida familiar e profissional, como às questões relacionadas ao tráfico ilícito de substâncias e os problemas sociais, políticos e econômicos a ele relacionados. Ao mesmo tempo, é importante considerar que as novas descobertas sobre prevenção, atendimento a usuários e dependentes e sobre as próprias drogas e seus efeitos têm nos apontado caminhos para lidar de forma mais eficaz com essas questões.

2. Em linhas gerais, o que seria uma política de prevenção ao uso de drogas eficiente e abrangente?
Uma política de prevenção consiste em diretrizes que orientam as ações destinadas a evitar os riscos e danos que o uso indevido de drogas favorece.
Para ser eficiente e abrangente, a política de prevenção deve ser multidisciplinar, intersetorial e contar com a participação de diferentes atores como a família, a escola, os serviços de saúde e assistência, as igrejas e toda a comunidade.
Além disso, deve ser fundamentada em dados epidemiológicos, que permitam a sua adequação à realidade na qual se pretende intervir e levar em conta as especificidades de cada população envolvida.

3. Quais as metas de curto, médio e longo prazo da Senad na área de prevenção para os próximos anos?
O papel da Senad é a articulação e a coordenação da política nacional sobre drogas. Neste momento estamos concluindo a capacitação de conselheiros municipais de diferentes áreas e iniciando o I curso sobre prevenção para educadores de escolas públicas de todo o Brasil. Até o final do ano vamos lançar novas publicações como um glossário de termos relacionados a drogas e várias cartilhas de orientação ao público, além de finalizar diagnósticos sobre o consumo de drogas no Brasil em diferentes segmentos.
Mas, talvez, a realização mais marcante da Senad neste ano seja a condução do realinhamento da política nacional sobre drogas.
Este processo, bastante oportuno e necessário, teve início com o I Seminário Internacional de Políticas sobre Drogas, realizado em Brasília no mês de junho e tem seu desenvolvimento nos fóruns regionais que acontecem de agosto a outubro em seis regiões brasileiras.
Nosso intuito é ouvir as diversas representações sociais no que diz respeito às questões relacionadas às drogas, como prevenção, tratamento, reinserção social, redução de danos, estudos e pesquisas, fazendo com que um diversificado e numeroso conjunto de pessoas participe da reflexão e ajude a redefinir os rumos da política nacional sobre drogas.
Especialistas, gestores públicos, profissionais da área, familiares, membros de conselhos comunitários, usuários e demais interessados no assunto são convidados a integrar os grupos de discussão em cada estado sede dos fóruns.
No final de novembro, um grande fórum nacional, em Brasília, procurará sintetizar e consolidar os resultados de todos estes debates, realinhando a nossa política sobre drogas.
(Maiores informações sobre os fóruns, as datas e a forma de participar podem ser obtidas no site da Senad: www.senad.gov.br)

4. A Sra. considera o professor ou os profissionais de saúde brasileiros preparados para abordar o tema drogas? Quais os riscos de uma abordagem inadequada deste tema?
Professores e profissionais de saúde têm demonstrado grande interesse e compromisso com o tema, o que constitui o primeiro passo para fazer um bom trabalho de prevenção ou de atendimento nessa área. Mas a complexidade do assunto e as múltiplas dimensões da questão exigem a constante atualização do conhecimento e a reflexão contínua para rever posições, vencer preconceitos e preparar-se para novos desafios que a realidade apresenta.
As capacitações promovidas pela Senad, em parceria com outros órgãos governamentais e instituições acadêmicas, têm procurado contribuir para a preparação dos vários agentes para atuarem de forma sempre mais adequada.
A questão das drogas está próxima de todos nós. Uma boa preparação daqueles que estão dispostos a abordar o tema evita ações alarmistas, emocionais, preconceituosas, irrealistas e, conseqüentemente, ineficazes.

5. Quais os recursos necessários para um bom programa de prevenção ao uso de drogas?
Os melhores recursos são os disponíveis na própria comunidade. Identificá-los e organizá-los para que sejam otimizados já favorece uma ação preventiva de qualidade. As ações de prevenção serão mais eficientes se forem integradas e integradoras de uma rede social interativa, conectada, na qual os agentes envolvidos sejam conscientes do seu papel preventivo e, também, da importância dos demais parceiros nesse processo.
Os recursos técnicos e materiais, assim como o enriquecimento da experiência local com fundamentação teórica e novas idéias, podem ser alcançados por meio de parcerias com instituições acadêmicas, governamentais e outras comunidades.

6. De que maneira as políticas públicas que visam conter o consumo ou prevenir o uso de drogas, como, por exemplo, proibição ou restrição da propaganda de cigarros e álcool ou o aumento dos preços afetariam o consumo dessas substâncias?
Experiências nacionais e internacionais de práticas restritivas do consumo de algumas drogas têm evidenciado uma redução do uso em determinadas circunstâncias.
Dentre essas práticas, as que têm se revelado eficazes são a proibição de fumar em repartições públicas, meios de transporte e locais de uso coletivo fechados, a limitação da publicidade, a proibição de venda de bebidas alcoólicas ou fechamento de bares depois de determinadas horas.
Países que aumentaram os impostos ou o preço dos cigarros ou das bebidas também acusaram redução do uso.
É evidente, no entanto, que estas medidas, isoladamente, não são suficientes para conter ou prevenir o consumo. Ações de promoção da saúde, de conscientização e informação sobre os riscos do uso indevido de drogas, disponibilização de oportunidades de realização pessoal e de serviços de atendimento são alguns exemplos de realizações que devem integrar programas eficientes de prevenção ou de redução de danos associados ao uso de drogas.
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