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Profa. Dra. Beatriz Carlini Marlatt

Beatriz Carlini Marlatt é Cientista Social, doutorada em Psicologia Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Beatriz fez seu pós-Doutoramento na Boston University School of Public Health. Foi pesquisadora do CEBRID (Universidade Federal de São Paulo) e Professora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Atualmente é docente do IPAD (Instituto de Prevenção e Atenção às Drogas) da PUC-Paraná e pesquisadora visitante da University of Washington, Seattle, EUA. Foi duas vezes vice-presidente da (ABEAD) Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas (1993/95 e 1998/2000) e é consultora técnica da Fundação Mentor.

Entrevista publicada em 17/12/2004
 
1. Como a Sra. vê a questão das drogas e do álcool no Brasil e no resto do mundo?
BCM: A questão das drogas, álcool e tabaco no Brasil e no mundo é um problema de saúde pública, que infelizmente tem sido tratada como uma questão moral ou criminal.
Precisamos entender que esses comportamentos não são muito diferentes de outros comportamentos nocivos, como comer demais, não se exercitar regularmente, ingerir muita gordura e sal ou se expor excessivamente ao sol, sem proteção solar. Ou seja, são hábitos difíceis de mudar, que acarretam sofrimento para muita gente e que merecem políticas públicas que objetivem promover uma vida mais saudável.

2. Em linhas gerais, o que seria uma política de prevenção ao uso de drogas eficiente e abrangente?
BCM: Essa pergunta mereceria páginas e páginas para ser respondida. Como a idéia aqui é ser concisa, ressalto 3 características importantes de uma política de drogas eficiente e abrangente:
a) tenha como foco todas as substâncias psicoativas, e não somente as drogas ilegais;
b) tenha em mente que o consumo de drogas acontece num continuum, e que mesmo o uso ocasional pode trazer problemas pessoais ou sociais, como por exemplo, o uso ocasional de álcool ao se dirigir veículos ou o uso de tabaco durante a gestação. Assim, programas de prevenção não devem se centrar em prevenir a dependência de drogas, mas o continuum de problemas associado ao seu uso;
c) envolva a comunidade no planejamento e execução das ações programadas, para garantir adequação cultural e social das políticas, assim como o apoio da população e sustentabilidade.

3. Na sua opinião de que forma as novas tecnnologias, principalmente a Internet, podem contribuir para a prevenção ao uso de drogas?
BCM: Sim, podem. Na verdade, as empresas produtoras de drogas legais já perceberam há muito tempo a importância de usar essas novas tecnologias, e oferecem opções criativas e participativas de marketing de seus produtos via internet.
Nós, profissionais da área de prevenção, estamos correndo atrás do prejuízo, na medida em que oferecermos ainda tão pouco material de prevenção adequado para ser veiculado em meios de tecnologia avançada. Mas nunca é tarde para começar, principalmente tendo em vista que computador e Internet atraem a população jovem mais do que qualquer outro meio de comunicação.

4. Qual seria o melhor ambiente (escola, empresa, ou comunidade, por exemplo) para se realizar a prevenção ao uso de drogas?
BCM: Escolas, empresas e comunidade são ambientes adequados para se realizar prevenção. A escolha deve ser feita em função da população-alvo das ações de prevenção.
Ainda, caso se possa combinar ações nos três ambientes, as chances de resultados positivos serão bem maiores.

5. Quais os recursos necessários para um bom programa de prevenção ao uso de drogas? Um programa é necessário? Como a Sra. avalia a realização de ações isoladas?
BCM: Um bom programa de prevenção é aquele que conta com objetivos claros e abrangentes, definidos a partir de um diagnóstico dos problemas e recursos da comunidade onde se desenvolverá.
Ações isoladas são na maioria das vezes inócuas do ponto de vista de alcançar mudanças de comportamento em relação ao uso de substâncias. No entanto, podem se constituir em importantes ferramentas para que a comunidade exercite seu poder de mobilização, organização e motivação em relação ao tema.

6. De que maneira as políticas públicas que visam conter o consumo ou prevenir o uso de drogas, como, por exemplo, proibição ou restrição da propaganda de cigarros e álcool ou o aumento dos preços,afetariam o consumo dessas substâncias?
BCM: As experiências de outros países são bastante positivas em relação a restrição de propaganda ou aumento de preços das drogas legais. Álcool e tabaco obedecem a lógica do preço-elasticidade, e quando o preço sobe e a disponibilidade diminue, o consume cae.
Um argumento muito comum contra esse tipo de regulamentação é de que os dependentes desses produtos irão pagar qualquer preço para usar suas substâncias. Pode ser que isso seja verdade, mas nem por isso esse tipo de política deixa de ser eficiente.
No caso do tabaco, preço alto, controle de propaganda e baixa disponibilidade vão contribuir muito para prevenir novos fumantes, principalmente jovens, classicamente mais sensíveis a política de preços do que os adultos. Ainda, vão ajudar ex-fumantes a não recaírem e estimular pessoas que querem parar de fumar a terem mais motivos para tal.
No caso de bebidas alcoólicas, além dos motivos acima, é preciso levar em conta que a maioria dos problemas sociais e de saúde associados ao consumo do álcool não são causados pelos dependentes de álcool, uma pequena minoria da totalidade dos bebedores no Brasil. Os maiores problemas são causados por aqueles que não são dependentes, mas bebem exageradamente em algumas (ou várias ocasiões), expondo a sociedade e a si mesmo ao risco de acidentes de carro, episódios de violência, acidentes de trabalho, afogamentos, atropelamentos e outros.
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