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Entrevista com Selma Bordin
Graduada em psicologia há 17 anos. Especialização em terapia cognitiva e em dependência química pela Escola Paulista de Medicina - Unifesp. Atua em consultório particular e, desde 2002, atua no PAD - Programa Álcool e Drogas do Hospital Albert Einstein.
Entrevista publicada em 04/03/2005
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1. O Hospital Albert Einstein conta com o "Programa Álcool e Drogas - PAD" do qual você faz parte, qual o público alvo deste programa e como é o trabalho desenvolvido?
Nosso programa foi desenvolvido para prestar assistência a qualquer usuário de substâncias que esteja disposto a rever seus hábitos de consumo. Temos pacientes de todas as idades e usuários de todas as substâncias. Em geral, os adolescentes são usuários de maconha e vêm trazidos pelos pais. Usuários de álcool geralmente vêm por si próprios e têm mais de 45 anos. A grande maioria dos usuários de cocaína situa-se na faixa dos 30 a 40 anos. Os usuários de maconha que vêm por si mesmos ficam na faixa dos 40 anos de idade.
A dependência química é um fenômeno bio-psico-social e na organização de nosso serviço, procuramos "tratar" o paciente em todas essas vertentes. Por isso, nossa equipe é multiprofissional, composta por um médico psiquiatra, Sérgio Nicastri; enfermeira psiquiátrica, Kelly S. Pereira; e por duas psicólogas: eu e Marine Meyer. Todos somos especialistas em dependência química.
A grande maioria de nossos pacientes é tratada no ambulatório, ou seja, os pacientes e seus familiares vêm para consultas, uma ou duas vezes por semana, e continuam suas atividades do dia-a-dia, o que favorece sua recuperação. No entanto, dispomos da infra-estrutura de um grande e completo hospital para casos graves ou com comorbidades físicas.
2. Qual é o papel do psicólogo no tratamento do paciente com dependência química?
O papel do psicólogo é fundamental para o tratamento do dependente e seu principal objetivo é ajudar o paciente a compreender sua motivação para o uso da substância, bem como sua motivação para a abstinência da mesma substância. Ou seja, ajudá-lo a lidar com o conflito entre usar e não usar.
A maioria dos usuários de drogas tem nelas, além de prazer, a "solução" para algum problema com o qual não tem sabido lidar de outra maneira. Usar substâncias pode, por exemplo, ser uma boa forma de aliviar angústia e ansiedade. Nesse caso, o "alívio" é um importante fator motivacional para o uso, apesar do reconhecimento, pelo próprio paciente, de que esse mesmo uso traz problemas (saúde, familiares, financeiros, etc.). Interromper o comportamento de beber, nesse caso, resolve parte do problema, pois a ansiedade e angústia continuarão existindo.
Assim, num primeiro momento, o psicólogo deve ajudar o paciente a entender porque usa álcool ou drogas. Uma vez compreendida a função da droga na vida daquele paciente, é preciso ajudá-lo a desenvolver habilidades para enfrentamento dessas situações sem a droga.
3. Você é uma das autoras do livro "Aconselhamento em Dependência Química" destinado a orientar pessoas não especialistas no assunto a trabalhar com dependentes químicos. Quais os principais temas que o conselheiro deve ter em mente para abordar pessoas usuárias de álcool e outras drogas? Quando é a hora deste encaminhar o usuário para o especialista?
Acredito que uma das principais barreiras para tratarmos adequadamente o assunto (e o paciente) é o preconceito em relação ao dependente químico, presente em muitos segmentos da sociedade e mesmo entre profissionais de saúde.
Por isso, penso que é muito importante para qualquer profissional que trabalhe com essa população compreender adequadamente o fenômeno da dependência química: o que, como se desenvolve, como se mantém, como interfere na vida cotidiana e nos relacionamentos, etc., de forma a compreender melhor e mais realisticamente o paciente.
Devido às muitas alterações de comportamento, os dependentes químicos perdem a confiabilidade daqueles com quem se relacionam, por motivos compreensíveis, é claro. E essa falta de confiança traz consigo um sentimento de solidão. Por isso, confiar, estar sinceramente interessado, ouvir atentamente, "vestir o sapato do paciente para ver aonde o calo aperta" são habilidades essenciais para lidar com essa população. Não quero dizer que devamos acreditar cegamente, mas sim que possamos falar abertamente sobre a importância da confiança para o tratamento e sobre nossas desconfianças, livre de persecutoriedade.
Somente desenvolvendo confiança mútua é que seremos capazes de atingirmos o ponto de cumplicidade necessário para compartilharmos os problemas e a busca de soluções.
Com relação à segunda parte da pergunta, o momento de encaminhar o paciente para o especialista é aquele em que não se é capaz de dar conta do problema: casos de dependência severa e resistente, casos em que hajam doenças físicas ou mentais associadas, quando não se consegue os resultados esperados, quando houver necessidade de medicação, quando o paciente pedir, ou em situações em que simplesmente não ocorra empatia.
4. De acordo com a sua experiência quais estratégias tem dado bons resultados no tratamento de dependentes químicos?
Na minha opinião e experiência, e conforme havia dito anteriormente, consegue-se melhores resultados quando paciente e equipe são autênticos e confiam um no outro. Construir confiança, no meu entender é o maior e mais importante desafio nas relações de um dependente. Quando ela acontece o paciente se abre para refletir verdadeiramente sobre a discrepância entre seus anseios de vida e seu comportamento de uso de substâncias. Pode então olhar para si mesmo e aceitar que precisa mudar e que talvez não seja capaz de fazê-lo sozinho.
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