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Entrevista com José Carlos F. Galduróz
Médico Psiquiatra. Mestre em Psicobiologia pelo Departamento de Psicobiologia da Escola Paulista de Medicina, atual Universidade Federal de São Paulo. Doutor em Ciências pelo Departamento de Psicobiologia da Universidade Federal de São Paulo - EPM. Pesquisador do CEBRID.
Entrevista publicada em 15/07/2005
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1. O Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas - CEBRID - é a instituição que realiza importantes levantamentos populacionais sobre o uso de drogas. Qual é a missão e quais as ações desenvolvidas pelo CEBRID?
A missão do CEBRID é angariar o maior número possível de informações sobre o consumo de drogas no Brasil e disponibilizá-las para os profissionais da área e para o público em geral. Possui um Banco de publicações com mais de três mil trabalhos científicos brasileiros sobre drogas, entre artigos, teses, resumos de congressos, etc. também publica trimestralmente o BOLETIM CEBRID que traz notícias atuais sobre as drogas. No campo das pesquisas o CEBRID realiza levantamentos sobre o consumo de drogas entre estudantes e meninos de rua desde 1987. Já são cinco os levantamentos para essas duas populações (1987, 1989, 1993, 1997 e 2004). Em 1999 realizou o primeiro levantamento domiciliar sobre o uso de drogas, estudo que envolveu as 27 maiores cidades do estado de São Paulo. Dois anos depois ampliou o levantamento para as 107 maiores cidades do país (aquelas com mais de 200 mil habitantes). Além disso, o CEBRID capta as internações hospitalares provocadas por dependência de drogas de todo o Brasil e realiza pesquisas qualitativas sobre o uso de determinadas drogas como o crack, os anorexígenos e o êxtase.
2. De que modo estes levantamentos contribuem para elaboração e condução das políticas públicas em álcool e drogas do país?
Esses estudos traçam o panorama do consumo de drogas em nossa sociedade, em outras palavras, faz o diagnóstico da situação para que se possam fazer programas preventivos adequados à nossa realidade. Por exemplo, os estudos do cebrid mostram que as drogas lícitas como o álcool e o tabaco são as mais consumidas e trazem os maiores problemas, ao país, em termos de saúde pública. Entretanto, elas são relegadas a um segundo plano nos poucos programas de prevenção que existem.
3. Acabam de ser divulgados os dados do V Levantamento Nacional Sobre o Uso de Drogas entre Estudantes do 1º e 2º grau. Qual é o cenário atual do consumo de drogas pelos jovens brasileiros?
As drogas mais consumidas pelos estudantes continuam sendo as lícitas (álcool e tabaco) como já detectadas em levantamentos anteriores nessa população ou em outros estudos. Por exemplo, o álcool é o responsável por 90% das internações hospitalares por dependência de drogas.
Mas voltando aos estudantes, foi detectado que o Brasil passa a ser o campeão mundial do uso na vida de solventes (cola de sapateiro, éter, acetona, esmaltes, tintas, entre outros). Aqui há dois pontos importantes: primeiro, os solventes não são drogas apenas de meninos de rua como se supunha os estudantes a usam e muito; esta constatação coloca em xeque as formas de prevenção, pois são tantos os produtos comerciais à base de solventes que a repressão não seria possível. No Brasil, a ênfase na prevenção ainda é calcada principalmente no braço da repressão que embora importante não é o fundamental.
O uso pesado de álcool (20 vezes ou mais no mês) atingiu 6,7% dos entrevistados, dado muito preocupante, pois o uso constante de qualquer substância psicotrópica é o caminho para a dependência.
O tabaco aparece a seguir com 24,9% sendo que 2,7% dos estudantes o fazem de forma pesada.
Os energizantes misturados ao álcool, tão em moda hoje em dia, foi usado por 12% dos estudantes. Os estudos mostram que essa associação prolonga o efeito estimulante do álcool, retardando assim o efeito depressor, possibilitando beber-se mais.
O uso na vida de maconha foi de 5,9%, seguido por ansiolíticos (calmantes com 4,1%), anfetamínicos (remédios para tirar o apetite - 3,7%). Pode-se notar que apenas a maconha é uma droga ilegal. Isto deve levar à reflexão sobre ao modo irreal do pensar da nossa sociedade, pois, ao se falar em drogas pensa-se logo em maconha e cocaína.
Outro ponto do V Levantamento mostra que aqueles estudantes que desfrutam de um lar harmonioso ou que freqüentem alguma religião tem menos propensão a fazer uso pesado de álcool e outras drogas. Aí reside a responsabilidade em se constituir uma família e de ter filhos. Obviamente que uso de drogas é mais complexo que esses achados, porém eles podem ser considerados "Fatores Protetores".
As principais conclusões do estudo foram:
1. A pesquisa teve boa receptividade por parte dos diretores, professores e estudantes. Houve um pedido quase unânime: que a iniciativa não terminasse apenas na coleta dos dados. Solicitações para que fossem dadas palestras e a elaboração de um programa de como lidar com a questão das drogas entre os estudantes foi uma constante de norte a sul, leste a oeste do Brasil.
2. A relação de escolas pública e privada mostrou discrepância importante. Na Região Norte a relação Público-Privada foi de 8:1. No Sul essa relação foi de 1:1, ou seja, numa das regiões mais privilegiadas do país é pequena a confiança no ensino público.
3. A defasagem escolar, a despeito de mudanças em relação às repetências, continua com porcentagens elevadas, independentemente do uso ou não de drogas. A média de defasagem foi de 45,9%, sendo a região Norte a que apresentou a maior porcentagem com 54,4% e a capital com maior índice de defasagem série/idade foi Maceió com 72,4% dos alunos que não estão cursando a série escolar correspondente a idade. A escola pública continua sem atrativos e pouco estimulante.
4. Os alunos que já fizeram uso na vida de drogas faltaram mais às aulas quando comparados aos que nunca experimentaram drogas, confirmando essa relação já está bem estabelecida em vários estudos.
5. O uso de drogas não é exclusividade de alguma classe socioeconômica, distribuindo-se regularmente por todas elas. Portanto as campanhas preventivas não precisam se preocupara determinados segmentos populacionais.
6. Assim como em vários estudos anteriores, o uso na vida de certas drogas foi maior para o sexo masculino tais como, a maconha, cocaína, energéticos e esteróides anabolizantes. Para o sexo feminino, tradicionalmente o maior uso na vida é para os medicamentos: anfetamínicos e ansiolíticos.
7. A comparação de cinco levantamentos mostrou que o uso na vida de drogas diminuiu tanto para o sexo masculino quanto para o feminino em cinco capitais.
8. O uso na vida de álcool diminuiu para ambos os sexos, em nove das dez capitais onde já haviam sido realizados levantamentos anteriores com a mesma metodologia.
9. A diminuição do uso na vida de tabaco não foi tão significativa quanto para o álcool, a despeito da proibição das propagandas para os cigarros, mantendo-se inalterado na comparação dos cinco levantamentos para quase todas 10 capitais. Em Porto Alegre houve inclusive aumento do uso na vida de tabaco para o sexo feminino.
10. O uso freqüente (definido como uso de 6 vezes ou mais no mês que precedeu a pesquisa) aumentou para o sexo masculino no Rio de Janeiro e São Paulo. Aumentou para o feminino em Belo Horizonte, Brasília, Recife e São Paulo.
11. As drogas legais, álcool e tabaco foram às drogas com a menor média de idade para o primeiro uso (12,5 anos e 12,8 anos, respectivamente). A maconha aparece com média de 13,9 anos e a cocaína com média de 14,4 anos para o primeiro uso. Estas constatações são importantes para as estratégias de prevenção que devem começar ao redor dos 10 anos de idade e privilegiar o álcool e o tabaco.
12. A comparação do Brasil com 22,6% dos estudantes já tendo feito uso na vida de drogas foi maior que em vários países da América do Sul: Chile (19,8%); Uruguai (13,5%); Equador (12,3%); Venezuela (6,0%); Paraguai (5,6%); na América Central foi maior que em países como a Nicarágua (11,2%); Guatemala (9,8%) e Panamá com 9,6% de estudantes que fizeram uso na vida de drogas.
13. O uso pesado de drogas (definido como sendo de 20 vezes ou mais no mês que precedeu à pesquisa) atingiu 2,3% dos estudantes das 27 capitais, sendo constatado 3,6% para a faixa etária acima de 18 anos de idade.
14. Na faixa etária de 10 a 12 anos de idade já se observou uso na vida de drogas para 12,7% dos estudantes, sendo a região Sudeste a que apresentou a maior porcentagem: 15,1. Mais um aspecto fundamental para os programas de prevenção.
15. O uso freqüente de álcool, para o conjunto das 27 capitais, foi feito por 11,7% dos estudantes, sendo Porto Alegre onde apareceu a maior porcentagem: 14,8%. O uso pesado de álcool foi feito por 6,7% dos estudantes, sendo Salvador a capital com maior porcentagem : 8,8% dos estudantes bebendo vinte vezes ou mais no mês que precedeu à pesquisa.
16. O uso freqüente de tabaco foi maior na região Sul com 4,6% dos estudantes fazendo o uso de cigarros em seis vezes ou mais no mês, sendo Porto Alegre capital com a maior porcentagem: 7,2%. O uso pesado de tabaco também foi o maior do país em Porto Alegre com 4,8% dos estudantes fumando vinte vezes ou mais no mês.
17. Os solventes continuam sendo as drogas com maior uso na vida. Teresina apresentou a maior porcentagem com 19,2% e a menor foi em Aracajú com 6,4% dos estudantes fazendo uso na vida de solventes. O Brasil foi o campeão do uso na vida de solventes com 15,4% não sendo ultrapassado por nenhum outro país, tanto das Américas quanto da Europa.
18. O uso na vida de maconha foi de 5,9% dos estudantes no conjunto das 27 capitais. A região Sul apareceu com porcentagem de uso de 8,5% e as capitais com maiores porcentagens foram Boa Vista com 8,5% e Porto Alegra com 8,3%, curiosamente uma do Norte e outra do Sul do país.
19. A comparação do uso na vida de maconha com outros países que o uso no Brasil (5,9%) foi menor que no Chile (21,6%); Uruguai (12,5%); Equador (18,6%), Guiana (7,2%) e Panamá e Nicarágua com 6,9%. Por outro lado, o uso pesado não ultrapassou 1%, o que pode simplesmente refletir a incompatibilidade do uso sistemático e manter as atividades corriqueiras.
20. A cocaína teve uso na vida de 2,0% dos estudantes. Curiosamente a capital com a maior porcentagem desse uso foi Boa Vista com 4,9%. O Brasil ficou abaixo do uso na vida de cocaína de países como EUA (5,4%); Espanha (4,1%) e Chile (3,7%), porém com uso na vida de cocaína superior ao Paraguai (1,6%); Portugal (1,3%); Venezuela e Grécia com 1,0% dos estudantes já tendo feito uso dessa droga.
21. O crack foi usado por 0,7% dos estudantes do Brasil, porcentagem esta bem inferior aos EUA com 2,6% e Chile com 1,4%. Curiosamente, João Pessoa teve uma porcentagem de 2,5% de uso na vida dessa droga, a maior do país. Isto reforça a idéia da necessidade deste tipo de estudo para desvendar a realidade.
22. O uso na vida de anfetamínicos foi de 3,7%. A região com maior porcentagem de uso foi a Centro Oeste com 4,6%. A capital com maior uso foi João Pessoa com 6,6% e a menor apareceu em Maceió com 1,6%. Vários países apresentaram porcentagens de uso na vida maiores que o Brasil: Nicarágua (10,4%); Reino Unido (8,0%); Venezuela (6,4%); Uruguai (6,2%); Paraguai (5,9%) e Chile com 5,8%.
23. Os ansiolíticos tiveram uso na vida de 4,1% no conjunto das 27 capitais. Recife foi a capital com a maior porcentagem de uso: 6,8%; o menor foi em Belém com 1,9%. O Brasil teve menor uso de ansiolíticos que vários países: Uruguai e Venezuela com 15,8%; Paraguai (15,0%); França (12,0%); Chile (9,1%); Holanda (8,0%).
24. O uso na vida de anticolinérgicos foi de 1,2% no Brasil, sendo a região Nordeste com a maior porcentagem: 1,5%. Recife foi a capital com o maior uso na vida desse tipo de droga com 2,3%, seguida de São Luiz com 2,1% dos estudantes já tendo feito esse tipo de uso.
25. Não houve nenhum relato de uso de heroína entre os estudantes pesquisados.
26. Ao contrário dos Estados Unidos, onde o uso na vida de alucinógenos foi de 6,4% e no Chile com 1,9%, no Brasil este uso foi de 0,6%. O Rio de Janeiro foi a capital com a maior porcentagem de uso na vida com 1,1%.
27. O uso na vida de esteróides anabolizantes foi de 1,0% no Brasil, tendo o Rio de Janeiro a maior porcentagem: 1,6% dos estudantes já tendo feito esse tipo de uso.
28. O uso na vida de energéticos apresentou porcentagens expressivas em todas as capitais, sendo de 12,0% no total , sendo a região Sul a campeã com 16,6% e a cidade do Rio de Janeiro com a maior porcentagem de uso com 17,8%. Estas substâncias merecem atenção especial, pois segundo estudos elas poderiam prolongar o efeito excitatório do álcool.
29. O bom relacionamento com os pais e também o bom relacionamento entre eles e a prática de uma religião parecem ser fatores protetores ao não uso pesado de álcool e outras drogas.
30. A prática de esportes e trabalhar estiveram associados ao maior uso pesado de álcool e outras drogas.
4. Em 1997 foram divulgados os resultados do IV Levantamento. Existem diferenças entre as duas pesquisas e quais são?
Vale lembrar inicialmente que a comparação com os outros quatro levantamentos só aconteceu em 10 capitais. Neste V levantamento é que foram, pela primeira vez, pesquisadas as 26 capitais brasileiras mais Brasília.
O que mais chamou à atenção na comparação dos 5 levantamentos foi a diminuição do uso na vida de tabaco, talvez reflexo da proibição das propagandas. Esta observação serve de reflexão sobre o que se tem visto sobre as propagandas intensas e descabidas das bebidas alcoólicas a qualquer hora em qualquer evento.
Se desejar, baixe o arquivo da apresentação em Powerpoint do V Levantamento Nacional Sobre o Consumo de Drogas Psicotrópicas Entre Estudantes do Ensino Fundamental e Médio da Rede Pública de Ensino nas 27 Capitais Brasileiras.
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