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Drogas e Comportamentos Sexuais de Risco
As palavras "sexo" e "drogas" sempre pareceram possuir um "e" entre elas. Tim Rhodes

 
FIGURA 1: O consumo de drogas relacionados ao prazer sexual aparece nas ilustrações acima. Três egípcias [à esquerda] seguram mandrágoras, utilizadas com propósitos afrodisíacos. Numa celebração sensual [ao centro], Dionísio encontra-se recostado, coroado com papoulas e segurando um tridente cujo formato lembra os frutos da mesma planta. Por fim, uma indiana em posição deleitosa [à direita] é observada por outra, enquanto consome haxixe em seu narquilê.
A associação entre o consumo de drogas e a atividade sexual é freqüentemente considerada um só comportamento. Para muitos indivíduos, o consumo de drogas naturalmente leva à prática sexual. Há ainda, a idéia de que o prazer do ato sexual é potencializado pela ação de substâncias químicas. Tais crenças parecem ser confirmadas por relatos históricos1: os egípcios utilizavam a mandrágora com finalidades afrodisíacas. Os hindus utilizavam a maconha e a datura com os mesmos propósitos. O vinho e o ópio estiveram presentes nos cultos dionisíacos da Grécia Antiga (figura 1).

O consumo de drogas, inicialmente restrito a determinadas culturas, se popularizou e se generalizou por diversos países nos últimos trinta anos, principalmente entre as faixas etárias mais jovens2. Atingindo proporções dignas de um problema de saúde pública (principalmente o álcool e o tabaco), são responsáveis por boa parte da morbidade e da mortalidade passível de prevenção nos dias de hoje3.

 
FIGURA 2: "Faça amor, não faça guerra". A liberação sexual dos anos 60 e 70 influenciaram definitivamente a sexualidade ocidental. O amor livre como um direito individual, imune a normas e a convenções sociais, apareceu a partir dessa época. A idéia de que ele também deveria ser protegido (e nem tão livre assim...) aparecerá nos anos 80, com a chegada da AIDS.
Concomitante à popularização do consumo de drogas, o mundo Ocidental viveu um período de grande liberação sexual, precedida pelo desenvolvimento da pílula anticoncepcional, que liberou os indivíduos para a prática do sexo recreacional. Novas modalidades, tais como o cybersex (sexo pela internet) e o sexo virtual, apontam para novas fronteiras na exploração e entendimento da sexualidade humana4. Tratada com timidez e reservas pela saúde pública durante um longo tempo, a sexualidade passou a receber grande atenção desta após o surgimento da AIDS nos anos 80. A chegada da AIDS repercutiu definitivamente sobre as forças sociais, econômicas e culturais que influenciam diretamente as práticas sexuais e a sexualidade dos indivíduos5. Desde então, a combinação de sexo e consumo de drogas, resultando na prática sexual de risco, vem sendo objeto de preocupação e interesse entre os pesquisadores e agentes de saúde pública de nosso tempo.

Acredita-se que a ação das drogas, capaz de causar desinibição e aumento do desejo sexual, deixe os indivíduos (em especial os adolescentes) mais propensos a práticas sexuais de risco. Alguns estudos mostram que apesar dos adolescentes iniciarem sua vida sexual antes do consumo de drogas6 e saberem claramente as formas de transmissão do HIV7, pouco alteraram seu comportamento sexual para fazer frente à infecção8-9. Além disso, adolescentes que iniciam o consumo de drogas em fases mais precoces10 ou concomitante à prática sexual6 mostram-se ainda mais propensos a práticas sexuais de risco. Esse panorama é mais acentuado em alguns países em desenvolvimento, onde o sexo de risco (sem proteção e com múltiplos parceiros) representa a maior causa de doenças infecto-contagiosas entre adolescentes11.

FIGURA 3: O HIV. Após do seu aparecimento as atitudes perante o sexo, as drogas (e até o rock ‘n’ roll!) nunca mais foram as mesmas.

FIGURA 4: AIDS não tem rosto. Apesar de cientes dos modos de transmissão da doença, muitos indivíduos ainda se acham capazes de identificar aqueles em situação de risco. FONTE: Auto-retrato com máscaras [detalhe] James Ensor (1899).
 
Há alguns motivos para a ausência de mudança7: Muitos adolescentes não se consideram em situação de risco. Muitos heterossexuais acreditam poder distinguir quem está suscetível ou não à infecção. Muitas mulheres acabam pressionadas a aceitar (e cedem) o não-uso da camisinha por seus parceiros. Por fim, muitos heterossexuais tomam atitudes apenas à frente daquilo que aprenderam ser uma situação de risco. As drogas e o álcool, utilizados por adolescentes com tais concepções, adicionam um risco a mais, dentro de um contexto potencialmente causador de complicações.

Alguns estudos com usuários de álcool12-13, cocaína14, maconha15-16, anfetaminas17 e ecstasy18-20 deixam claro a existência de uma relação entre a presença do consumo de drogas e o aumento da incidência das práticas sexuais de risco e da infecção pelo HIV. Tais estudos, por outro lado, investigaram populações (delinqüentes, estudantes...) ou situações (homossexuais que freqüentam raves) específicas capazes de possuírem outros fatores para o sexo de risco. Não deixam claro, assim, se há uma relação de causalidade, isto é, se o consumo de drogas por si só leva ao aumento do risco, ou se este é mais uma faceta da vida social destes indivíduos, marcada por diversos comportamentos de risco21-22.

É possível que traços particulares da personalidade, tais como o grau de preocupação individual acerca das normas e opiniões gerais da sociedade, possa também influenciar a quantidade de parceiros e o consumo de substâncias psicoativas22. O consumo de drogas de fato leva à desinibição, mas é importante considerar que anteriormente ao ato do consumo, já havia o desejo (e a intenção) do intercurso sexual. Reduzir a questão à primeira frase responsabiliza uma substância pela ocorrência de ato genuinamente humano.

Alguns estudos22-24 apontam para conecções prováveis entre o consumo de drogas e a ocorrência de encontros sexuais: [1] o álcool e as outras drogas promovem comportamentos de riscos por alterarem temporariamente as percepções de risco e beneficiarem imediatamente as ações de recompensa; [2] o consumo incidental de álcool e drogas, facilita interações que levam ao sexo, onde a intenção do encontro já existia previamente; [3] os encontros que potencialmente levam ao sexo acontecem em bares e casas noturnas. O álcool e as drogas, coincidentemente, estão disponíveis nesses locais. O álcool é parte estabelecida das interações sociais no Ocidente. Desse modo tais substâncias, por si só, não alteram um comportamento sexual latente; [4] muitos utilizam drogas deliberadamente para relaxar, tendo em vista a aproximação com alguém que pretendem estabelecer um relacionamento. [5] indivíduos propensos a comportamentos de risco podem, coincidentemente, utilizar álcool e outras drogas. Todas essas colocações parecem ser relevantes e devem ser consideradas em conjunto.

 

Desse modo, abordar o consumo de drogas visando à prevenção o sexo de risco, deve necessariamente passar pelo entendimento do contexto social e cultural nos quais tais drogas são prescritas, administradas e utilizadas25. Só assim será possível produzir um discurso ressonante com a mentalidade dos diversos grupos expostos ao risco de contágio por doenças sexualmente transmissíveis. Um discurso livre de reducionismos científicos e ‘achismos’ de fundo moral.









FIGURA 5: A rave. A influência de fatores sociais, psicológicos e ambientais também expõe as pessoas a comportamentos de risco, inclusive ao sexo sem proteção.

FIGURA 6: Cada um possui seu estilo de relacionamento, fantasias e desejos sexuais. Para estabelece-los e realiza-los buscam determinados locais. As substâncias químicas podem estar inclusas em tais desejos e presentes nos locais escolhidos. Mas além delas, pode haver outros comportamentos igualmente ou ainda mais causadores de risco, tais como a crença de que não pegarão AIDS, que a camisinha atrapalha a relação sexual ou que sugeri-la afastará o parceiro ou parceira desejado. FONTE: Ilustração criada a partir da pintura "A Esfinge" (Fernand Khnopff ~ c. 1892).


Referências bibliográficas:

1. Escohotado A. História de las drogas. 3ª edición, volumen I. Madrid: Alianza Editorial; 1996.

2. Galduróz JC, Noto AR, Carlini EA. IV Levantamento sobre o uso de drogas entre estudantes de 1o e 2o graus em 10 capitais brasileiras.      São Paulo: Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (CEBRID); 1997.

3. McGinnis JM, Foege WH. Actual causes of death in the United States. JAMA 1993; 270(18): 2207-12.

4. Wood CE. Future change in sexual behaviour? MJA 1999; 171:662-4.

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6. Li X, Bonita S, Cottrell L, Burns J, Pack R, Linda K. Patterns of iniciation of sex and drug-related activities among urban low-income      African-Americans adolescents. J Adolesc Health 2000; 28:46-54.

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