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Síndrome Alcoólica Fetal
Conceito
O termo síndrome alcoólica fetal (SAF) foi alcunhado no início dos anos setenta para descrever um padrão observado em filhos de mães dependentes de álcool1. A SAF pertence a um conjunto de síndromes caracterizadas pela presença de defeitos congênitos ocasionados pelo consumo materno de álcool em grandes quantidades durante a gravidez2 (quadro 1).

Quadro 1: Síndromes relacionadas ao consumo materno de álcool na gravidez
Síndrome alcoólica fetal (SAF)
Caracterizada por retardo do crescimento e alterações dos traços faciais, que se tornam menos evidentes com o passar do tempo. Somam-se a estes, alterações globais do funcionamento intelectual, em especial déficits de aprendizado, memória, atenção, além de dificuldades para a resolução de problemas e socialização.
Distúrbios neurodesenvolvimentais relacionados ao álcool Apresenta os mesmos distúrbios mentais observados na SAF. Não há, no entanto, retardo no processo de crescimento, tampouco alterações faciais.
Defeitos congênitos relacionados ao álcool
Abrange as alterações da constituição esquelética e de outros órgãos decorrentes da exposição do feto ao álcool durante a gravidez.


 

Epidemiologia
A síndrome alcoólica fetal é considerada a causa mais comum de retardo mental infantil de natureza não-hereditária3 . Ela acomete cerca de 0,02 a 0,2% das crianças norte-americanas e entre 4–10% dos nascidos de mães dependentes de álcool2. Sua incidência parece ter aumentado nos Estados Unidos ao longo das últimas duas décadas (figura 1).

Figura 1: Incidência da SAF nos Estados Unidos nas últimas duas décadas. FONTE: Alcohol Health & Research World 1994 18(1). National Institute on Alcohol Abuse and Alcoholism - NIAAA.


Etiologia
A síndrome alcoólica fetal advém da combinação do beber materno excessivo com diversas modalidades de fatores de risco 2 (quadro 2). A compreensão etiológica da SAF permanece com algumas imprecisões e carece de estudos mais abrangentes e aprofundados. Além disso, os critérios diagnósticos atuais ainda produzem desacordo entre os médicos. Não há, tampouco, marcadores capazes de determinar a ação exata do álcool sobre o feto, assim como a influência da dose sobre o processo de desenvolvimento da síndrome.


Quadro 2: Fatores de risco relacionados à ocorrência da síndrome alcoólica fetal
Modalidade
Fatores de risco identificados
Saúde materna
Idade acima de 25 anos ao nascimento da criança
Presença de 3 ou mais gravidezes anteriores
Ocorrência de parto prematuro ou natimorto anterior
Uso concomitante de tabaco e/ou outras drogas
Desnutrição ou subnutrição
Gestação Consumo durante o primeiro trimestre da gravidez
Sócio-econômicos
Baixo nível sócio-econômico
Desemprego ou subemprego
Padrão de consumo materno Início precoce do consumo de álcool
Padrão compulsivo de uso (5 drinks ou mais por ocasião)
Padrão freqüente de uso (ao menos 2 ocasiões semanais)
Ausência de redução do consumo na gravidez
Fatores psicológicos
Baixa auto-estima
Depressão
Distúrbios sexuais
Fatores familiares
História de dependência de álcool na família
Dependência de álcool compartilhada pelo marido
Relações maritais tênues
Fatores sócio-culturais
Ambientes tolerantes ao beber pesado da gestante
FONTE: May & Gossage. National Institute on Alcohol Abuse and Alcoholism - NIAAA(online)2.

 
Quadro 3:
Principais mecanismos fisiopatológicos do álcool sobre o sistema nervoso fetal
- Interferência do processo de maturação neuronal
- Interferência na migração das células e na mielinização
- Interferência na adesão celular
- Alteração das membranas celulares
- Alteração da produção ou da resposta aos fatores que regulam o crescimento e
  divisão celular
- Interferência na regulação do cálcio intracelular
- Produção de radicais livres


Problemas relacionados à saúde materna são os fatores de risco mais associados à ocorrência da SAF. A idade materna avançada, a presença de outras gestações, a ocorrência de partos prematuros ou natimortos relacionados ao consumo de álcool e o uso concomitante de tabaco e/ou outras drogas estão fortemente relacionados ao aparecimento da SAF em mulheres usuárias de álcool durante a gestação2.
A ação direta e indireta do álcool sobre o sistema nervoso embrionário, apesar de não ser o único fator patogênico responsável pelo aparecimento da SAF, parece estar relacionada aos defeitos encontrados com mais freqüência entre os portadores desta síndrome4 (quadro 3). Tal ação acomete algumas regiões centrais com mais intensidade (figura 2), enquanto outras parecem possuir alguma resistência aos mesmos efeitos4.

Figura 2: Regiões do sistema nervoso central mais atingidas pela ação direta ou indireta do álcool sobre o processo de maturação embrionária do feto. FONTE: Alcohol Health & Research World 1994 18(1). National nstitute on Alcohol Abuse and Alcoholism - NIAAA.

A agenesia do corpo caloso (quadro 4 e figura 3) é uma das anomalias mais freqüentemente associada à SAF. Ela atinge 6% dos recém-nascidos com SAF, comparada com 0,1% da população geral e 2-3% da população com outros distúrbios do desenvolvimento4.

Figura 3: Agenesia do corpo caloso. A primeira imagem (à esquerda) mostra um indivíduo sem alterações anatômicas centrais. Seu corpo caloso encontra-se intacto em toda a sua extensão. Ele é a estrutura responsável pela conexão entre os dois hemisférios cerebrais. Nas outras duas imagens (ao centro e à direita) o corpo caloso não pode ser detectado. FONTE: Riley E. Fetal Alcohol Syndrome and Fetal Alcohol Effects4 (online).
 
Quadro 4: Agenesia do corpo caloso5
Trata-se da ausência do corpo caloso, uma estrutura do cérebro responsável pela ligação entre os seus dois hemisférios cerebrais. A síndrome possui graus variados de severidade. Desse modo, podem variar da ausência de sintomatologia até quadros de deficiência mental de moderada a grave, convulsões generalizadas e déficits motores. A agenesia de corpo caloso não representa um perigo de vida, mas é capaz de causar grandes debilidades ao indivíduo.

Normalmente, os primeiros sintomas são caracterizados por convulsões, dificuldades de alimentação e atrasos no desenvolvimento neuropsicomotor. O diagnóstico por imagem é feito por meio de ressonância nuclear magnética (figura 3) ou tomografia computadorizada.

Estudos recentes têm mostrado que a presença do álcool (mesmo em baixas concentrações) no sistema nervoso fetal inibe o gene responsável pela síntese molécula L14,6. Tal molécula, presente nas membranas neuronais, é responsável pela adesão dos neurônios aos fibroblastos (células do tecido conectivo) e a outros neurônios. Elas auxiliam também, o processo de migração celular.

 
Desse modo são fundamentais para a formação da arquitetura dos tecidos nervosos. Nos neurônios diferenciados (maduros) parecem exercer um importante papel nas alterações sinápticas que influenciam a memória e o aprendizado. Assim, alterações sobre a síntese destas moléculas são capazes de levar a malformações cerebrais e retardos mentais, tais como os observados na SAF (figura 4).

Figura 4: A molécula L1 e a arquitetura cerebral. Na linha de figuras do topo6, o primeiro grupo de neurônios (primeiro da esquerda para a direita] é desprovido de moléculas L1 em suas membranas. Não foram capazes, desse modo, de se aderirem para a formação dos núcleos e estruturas fundamentais para a arquitetura e o funcionamento cerebral. Os três outros grupos de neurônios possuem moléculas L1. O primeiro (segundo da esquerda para a direita] não recebeu álcool e realizou normalmente o processo de adesão celular. Já os outros dois (terceiro e quarto da esquerda para a direita] apresentaram prejuízos progressivos no processo de adesão celular, conforme as concentrações de álcool aumentavam. Esse efeito desorganizador do álcool sobre o desenvolvimento embrionário do sistema nervoso central parece estar relacionado às malformações observadas na SAF. Tal efeito pode ser observado na figura inferior7: a arquitetura de um cérebro malformado (criança portadora de SAF) é comparada com um cérebro de arquitetura preservada.


 
Quadro 5: Critérios diagnósticos da Research Society on Alcoholism SAF8
Retardo do crescimento pré ou pós-natal
- Abaixo do décimo percentil
Prejuízos no sistema nervoso central
- Anormalidades neurológicas
- Atrasos no desenvolvimento neuropsicomotor
- Distúrbios do comportamento
- Prejuízos intelectuais
- Malformações cerebrais
Fácies característica
- Fissuras palpebrais curtas (olhos abertos)
- Lábio superior fino
- Philtrum indefinido
- Fácies plana

Quadro clínico
Os critérios diagnósticos da SAF foram estabelecidos e padronizados pela Research Society on Alcoholism Fetal Alcohol Study Group, em 1980 e sofreram algumas modificações no final da mesma década8(quadro 5).

Três critérios essenciais devem ser encontrados: retardo do crescimento pré ou pós-natal, acometimento do sistema nervoso central e a presença de fácies característica.

É importante salientar que a presença das alterações faciais (figura 5) praticamente fecha o diagnóstico de SAF4. Apesar de tais alterações serem encontradas isoladamente em outras síndromes, a combinação destas é característica da SAF.

Figura 5: Alterações faciais características da SAF. FONTE: Alcohol Health & Research World 1994 18(1). National nstitute on Alcohol Abuse and Alcoholism - NIAAA.

Apesar da necessidade da presença de critérios essenciais para o estabelecimento do diagnóstico da SAF, muitas outras alterações podem fazer parte do quadro clínico9 (quadro 6). Isso demanda uma atenção clínica global e meticulosa para esses neonatos.


Quadro 6: Sinais e sintomas observados na SAF
Crescimento
- Déficit de crescimento pré ou pós-natal
- Redução do tecido adiposo

Desenvolvimento
- Retardo mental
- Atraso no desenvolvimento neuropsicomotor
- Disfunção motora fina
- Déficit de atenção e/ou hiperatividade
- Problemas de fala
- Hipotonia
- Distúrbios cognitivos e comportamentais

Região craniofacial

- Microcefalia
- Fissuras palpebrais curtas
- Ptose palpebral
- Pregas epicânticas
- Micro ou retrognatia
- Hipoplasia maxilar
- Philtrum indefinido
- Nariz curto com nasio rebaixado
Tecido esquelético
- Alterações articulares (p.e. luxações)
- Defeitos de postura dos pés
- Anormalidades da espinha cervical
- Pectus excavatum

Aparelho cardíaco

- Defeitos do septo ventricular
- Defeitos do septo atrial
- Tetralogia de Fallot

Miscelânea
- Estrabismo
- Má oclusão dentária
- Perdas auditivas
- Escavação torácica anormal
- Dentes pequenos
- Hipospádia
- Hidronefrose
- Hirsutismo infantil
- Hérnias umbilicais ou diafragmáticas
FONTE: Ellenhorn et al. Alcohols and Glycols. 1997 9.

 

No tocante aos transtornos mentais associados à SAF o retardo mental é o mais freqüente4. Ele pode aparecer em níveis de gravidade distintos. Acomete não só as crianças com diagnóstico de SAF estabelecido, mas também aquelas que tiveram alguma exposição ao álcool durante a gestação10 (figura 6). Não há, no entanto, mensurações acerca da intensidade de exposição necessária para ocasionar tais complicações2,8.

Figura 6: SAF e retardo mental. O estudo realizado por Mattson et al (1997) demonstra que o desempenho intelectual entre crianças portadoras de SAF ou com alguma exposição ao álcool durante a gestação apresentam níveis inferiores de QI, quando comparadas a controles desprovidos desses acometimentos. FONTE: Riley E. Fetal alcohol syndrome and fetal alcohol efects (online)4.

Outras evidências apontam para déficits de linguagem, aprendizado, memória, esquemas visuais, coordenação e aprendizado não-verbal11. Com relação ao comportamento é alta e progressiva a prevalência de problemas entre esses indivíduos nos mais variados campos. Além dos problemas mentais, que acometem quase a totalidade destes, pelo a menos a metade ultrapassa os vintes anos já tendo apresentado problemas no convívio escolar, com a justiça ou com seu comportamento sexual. Quase a metade tem problemas com álcool ou drogas12 (figura 7).