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Consumo
de tabaco durante a gestação
A associação
entre consumo de tabaco e complicações durante
a gravidez foi detectada no final dos anos
cinqüenta1. Desde então inúmeros
estudos foram conduzidos, abordando os efeitos
do consumo de tabaco sobre o andamento da
gestação, sobre o desenvolvimento fetal e
do recém-nascido. O consumo de tabaco durante
a gestação é hoje um problema de saúde pública
e uma das principais causas de complicações
na gravidez passíveis de prevenção (quadro
1).
A maior parte das tabagistas torna-se fumante
regular antes dos 18 anos. Além disso, as
adolescentes correspondem a mais de 90% das
recém-fumantes. Apesar da maioria das mulheres
desejar abandonar o cigarro, apenas 2,5% delas
alcança tal objetivo anualmente. Isso se reflete
no consumo de cigarros durante a gestação:
cerca de 15% das grávidas não consegue se
abster do cigarro durante esse período. Dessas,
quase 80% utilizam quantidades consideráveis
do produto2. |
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| FIGURA 1: A
figura feminina nos rótulos de cigarros
do início do século XX. Naquela época
o consumo de tabaco não era associado
a nenhum risco para seus usuários, tampouco
para a gestação. FONTE: Library of Congress:
http://www.loc.gov/
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| Quadro
1: Principais complicações à gestação
e ao feto relacionadas ao consumo
de tabaco. |
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Gestação
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Feto |
Parto prematuro
Restrição ao crescimento intrauterino
Ruptura prematura das membranas
Descolamento da placenta
Abortamento espontâneo
Placenta prévia
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Baixo peso ao nascer
Redução da circunferência craniana
Síndrome da morte súbita infantil
Asma
Infecções respiratórias
Redução do QI
Distúrbios do comportamento
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FONTE: Lambers & Clark
(1996)2
Fisiologia
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| FIGURA 2: A
ação da nicotina. A substância tem afinidade
pelos receptores da acetilcolina, que
estimulam a liberação de uma série de
neurotransmissores, que modulam o humor
e o prazer relacionados ao consumo do
cigarro. FONTE: Lambers & Clark
(1996)2 . |
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A nicotina exerce sua ação estimulante ligando-se
aos receptores de acetilcolina, localizados nos
gânglios autonômicos, na medula das glândulas supra-renais
e nas junções neuromusculares. A ação sobre esses
receptores libera, entre outros, noradrenalina e
dopamina, responsáveis pelos efeitos estimulantes
e prazerosos do cigarro2 (Figura 2).
A noradrenalina, dopamina e vasopressina atuam diretamente
sobre o sistema circulatório, provocando contração
dos vasos sanguíneos e aumento da freqüência e da
intensidade dos batimentos cardíacos, com conseqüente
elevação da pressão arterial. Além da nicotina,
o cigarro possui 4000 componentes químicos, cuja
repercussão na gravidez não é conhecida. Apenas
o monóxido de carbono e a cianida
foram estudadas3. O primeiro liga-se
de maneira estável às hemácias (células transportadoras
de oxigênio), reduzindo o aporte de oxigênio para
o feto. Já a cianida reduz a concentração de vitamina
B12, um cofator fundamental para o crescimento
e desenvolvimento do feto4.
Complicações
Infertilidade
O consumo diário de um maço de cigarros associado
ao início do consumo antes dos 18 anos aumenta o
risco de infertilidade. Essa última decorre de alterações
hormonais (redução da concentração de estradiol),
na maturação do óvulo ou na implantação do óvulo
fecundado. Tais alterações, no entanto, parecem
ser reversíveis5. Alguns estudos demonstram
que mulheres tabagistas atingem a menopausa de 1
a 1,5 ano mais cedo. A redução do estradiol é a
provável causa de tal fenômeno5.
Placenta
A nicotina atravessa a barreira placentária com
facilidade. Suas concentrações na circulação fetal,
no líquido amniótico e na placenta são superiores
às observadas na circulação materna2.
O consumo de cigarro atua tanto dificultando a implantação
da placenta, bem como interferindo no desenvolvimento
normal da vascularização que possibilitará as trocas
gasosas e de nutrientes entre a mãe e o feto3.
O uso de cigarro provoca também, um espessamento
da membrana placentária, dificultando ainda mais
as trocas materno-fetais6. Desse modo,
o risco de descolamento da placenta durante a gravidez
aumenta consideravelmente. Tabagistas também têm
maior incidência de placenta prévia, mas os mecanismos
de tal associação não estão completamente elucidados7.
O consumo de cigarro reduz o aporte sanguíneo para
o feto. Isso se dá por meio da contração dos vasos
umbilicais e do aumento da pressão arterial materna2.
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| FIGURA 3:
Charutos Twins (gêmeos): infância
e tabagismo positivamente associados
no início do século XX. FONTE: Library
of Congress: http://www.loc.gov/
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FIGURA 4: Propagandas
de cigarro (início do século XX).
O consumo não era visto como prejudicial
nem mesmo durante a infância. FONTE:
Library of Congress: http://www.loc.gov/
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Gestação
A redução do aporte de oxigênio e
nutrientes ao feto, causada pela ação dos componentes
do cigarro, é o principal fator relacionado às complicações
observadas. Tal redução é causada pelo aumento da
resistência à chegada do sangue à placenta, pela
redução da permeabilidade placentária e pela ligação
estável do monóxido de carbono às hemácias, em detrimento
do oxigênio.
O crescimento fetal é prejudicado pela
ação dos componentes do cigarro durante a gestação2.
A ocorrência de abortamento espontâneo
aumenta um terço entre as tabagistas3-4.
O consumo de tabaco duplica as chances de baixo
peso ao nascer3. Em média, os recém-nascidos
são de 100 a 300g mais leves2. Cada
cigarro consumido diariamente reduz em 0,2% o
peso ao nascer. Desse modo, o consumo de 10 cigarros
diários durante a gestação é capaz de reduzir
em 2% o peso ao nascimento8. O sistema
respiratório fetal também é comprometido pelo
consumo materno de cigarro2. Parece
haver um comprometimento dos alvéolos e na fabricação
de surfactante, substância facilitadora da expansão
pulmonar do recém-nascido, que impede o colabamento
destes. A mortalidade é um terço mais freqüente
entre os recém-nascidos expostos ao consumo de
cigarro durante a gestação2. Apesar
de relatos isolados, o consumo de tabaco durante
a gestação não está associado à presença de anomalias
ou malformações fetais (teratogenias)2.
Todos esses fatores são dose-dependentes, isto é,
sua ocorrência torna-se mais provável conforme a
intensidade do consumo de cigarro aumenta2-7.
É importante ressaltar também, que algumas complicações
(p.e. parto prematuro) possuem outros fatores de
risco (tais como nível sócio-econômico), que freqüentemente
se associam ao tabagismo, tornando-as mais prováveis9.
Desenvolvimento
Neuropsicomotor
O consumo de cigarro na gestação tem
sido associado a atrasos no desenvolvimento mental
e à ocorrência de transtorno de déficit de atenção
e hiperatividade (TDAH). Também há relação com
a redução da circunferência craniana e
do crescimento2.
Apesar das complicações comprovadas, a interrupção
do consumo de tabaco durante a gestação sempre
traz vantagens para o feto. Gestantes que se abstêm
do cigarro antes da 30ª semana invariavelmente
dão à luz a crianças com maior peso10.
Dessa forma, motivar a gestante para abstinência
ou pelo menos à redução considerável do número
de cigarros são atitudes positivas tanto para
o andamento da gestação, quanto para o desenvolvimento
fetal, independente do período em que se encontra
a gravidez.
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