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Motivação para a Mudança
Todo mundo na vida passa por fases
É quase uma unanimidade entre as pessoas que apenas os que possuem opinião e força de vontade conseguem deixar as drogas. Igualmente corriqueira, é a idéia de que qualquer indivíduo tem algo em seu estilo de vida que pode ser melhorado, aprimorado, enfim, mudado. Há situações muito fáceis de mudar. Um novo corte de cabelo, por exemplo. Basta procurar um profissional e pronto: novo visual. Passar a acordar mais cedo por causa de um novo emprego já é um pouco mais difícil: quem não perdeu a hora ao menos uma vez enquanto se acostumava a esse novo estilo de vida. Há, ainda, coisas na vida que por mais que incomodem, são vistas como imutáveis. Para essas há sempre aquelas respostas: "Sou assim e pronto". "Estou velho demais para mudar".

Portanto a mudança de atitude passa pela superação de automatismos ("não estou habituado a acordar cedo") e de crenças ("estou velho demais para mudar"). Sem dúvida, implementar uma mudança requer disposição e força de vontade. Ninguém muda a contragosto. Porém, a força de vontade nunca é a mesma o tempo todo. Há momentos de desânimo, desesperança, falta de sentido no desejo da mudança. É preciso ter um objetivo muito claro, saber as vantagens que essa conquista trará (elas serão maiores que as perdas?) e, sobretudo, é preciso apoio, pessoas que sabiam manter o moral elevado, que colaborem para o processo de mudança. Tudo isso tem estreita relação com a dependência química.

FIGURA 1: Assumir uma mudança em meio a comportamentos cristalizados é uma tarefa complexa. A motivação para a mudança não é estável. Ela é desencadeada, mantida e estimulada pelos relacionamentos do indivíduo com os objetivos por ele traçados e com as pessoas que formam sua base de apoio.
 


Existem estágios de mudança
Não basta saber se a dependência existe e quão grave se manifesta no indivíduo. É preciso compreender também sua motivação para a mudança. Esse modelo teórico, desenvolvido por Prochaska e DiClemente (1986), auxilia o planejamento terapêutico para cada paciente. Qualquer abordagem com dependentes de drogas deve respeitar o estágio de motivação de cada um destes. São seis estágios. Para cada um deles, há uma conversa mais efetiva e adequada (quadro 1).

Tabela 1 - Estágios de Prontidão para Mudança
Estágio motivacional Apresentação do paciente Melhor postura adotada
Pré-contemplação Sem idéia sobre o problema e sem planos de mudar. Acha que seu consumo de drogas não lhe faz mal e está sob controle. Evitar o confronto, mas sem perder a sinceridade. Flexibilizar sobre a evidência de dependência e buscar outros motivos para o paciente buscar ajuda.
Contemplação Percebe um problema, mas está ambivalente para promover mudança. O indivíduo deve ser sensibilizado objetivamente, dentro de um ambiente reflexivo. Pode-se levantar os prós e contras da abstinência e do consumo e as discrepâncias entre o consumo e os planos do indivíduo para o futuro.
Determinação Percebe que tem um problema e que precisa promover mudanças. O indivíduo pede ajuda. Ofereça soluções e retire barreiras. Negocie um plano de abordagem. Tudo deve ser muito rápido, porque é comum o indivíduo mudar de idéia sobre a mudança.
Ação Pronto para começar a mudança. Prover o suporte; definir a assistência; a família deve mostrar-se disposta a participar do tratamento sempre que solicitada.
Manutenção Incorporação da mudança ao estilo de vida. Reforçar o sucesso; reavaliar a farmacoterapia; aplicar a prevenção de recaída e avaliação de situações de risco; avaliação bioquímica.
Recaída Volta para a contemplação ou pré-contemplação Menos de 5% dos pacientes nunca recaem após iniciarem o processo de mudança e mais de 70% recaem antes do terceiro mês de abstinência. Retornam a algum dos estágios anteriores, para novamente evoluírem rumo à mudança. Não é o retorno à estaca zero, tampouco motivo para repreensões ou culpa. É um momento de aprendizado, visando a evitar ou dificultar recaídas futuras.


FIGURA 2: Os estágios motivacionais de Prochaska & DiClemente.

O tratamento da dependência química é acima de tudo a busca de um novo estilo de vida. É uma mudança árdua, complexa, marcada por erros e escorregões. Qualquer processo de modificação comportamentos, em maior ou menor grau, é assim. Cabe à família, ao meio social e a equipe de profissionais do indivíduo motiva-lo para tal.

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