Profª Drª Ana Cecília
Marques 1
Hamer Nastasy Palhares 2
A Ayahuasca é conhecida em diferentes culturas pelos seguintes
nomes: yajé, caapi, natema, pindé, kahi, mihi, dápa,
bejuco de oro, vine of gold, vine of the spirits, vine of the soul
e a transliteração para a língua portuguesa resultou
em hoasca. Também é conhecida amplamente no Brasil como
"chá do Santo Daime" ou "vegetal". Na linguagem
Quechua, aya significa espírito ou ancestral, e huasca significa
vinho ou chá (Luna & Amaringo, 1991; Grob et al., 1996).
Este nome, tanto se aplica à bebida preparada por meio da mistura
da Banisteriopsis caapi e da Psichotria viridis, quanto à primeira
das plantas. Apesar das variações acerca das plantas
usadas, farmacologicamente, boa parte delas são similares.
Nesta revisão, o termo ayahuasca será usado para designar
a bebida resultante da decocção destas duas plantas
combinação.
As diversas preparações geralmente contêm talos
socados da Banisteriopsis caapi ou espécies correlatas mais
as folhas da Psichotria viridis. As plantas adicionadas à Ayahuasca
ajudam a maximizar as experiências de estimulação
visual e as sensações de contato com forças e
locais sobrenaturais e divinos. Os métodos de preparo variam
conforme o grupo, como um chá quente ou amassando-se junto
à água fria, deixando-se em descanso por aproximadamente
24 horas. É um processo longo que leva quase um dia para o
preparo, o que torna a "tecnologia" de produção
insuficiente para a produção de grandes quantidades
(Karniol & Seibel, Parecer do Grupo de Trabalho, 1986).
História
As origens do uso da Ayahuasca na bacia Amazônica remontam à
Pré-história. Não é possível afirmar
quando tal prática teve origem, no entanto, há evidências
arqueológicas através de potes, desenhos que levam a
crer que o uso de plantas alucinógenas ocorra desde 2.000 a.C.
No século XVI, há relatos de que os espanhóis
e portugueses, detentores das florestas do Novo Mundo, observaram
a utilização de bebidas na cultura indígena e
recriminaram-na: "quando bêbados, perdem o sentido, porque
a bebida é muito poderosa, por meio dela comunicam-se com o
demônio, porque eles ficam sem julgamento, e apresentam várias
alucinações que eles atribuem a um deus que vive dentro
destas plantas" (Guerra, 1971).
O uso destas plantas foi condenado pela Santa Inquisição
em 1616, o cerimonial persistiu de forma escondida dos dominadores
Europeus. Os padres jesuítas descreveram o uso de "poções
diabólicas" pelos nativos do Peru no século XVII.
A história moderna da Ayahuasca começa em 1851 quando
o botânico inglês R. Spruce noticia o uso de bebidas que
intoxicam entre os índios Tukanoan, no Brasil. Estes convidaram-no
a participar de uma cerimônia que incluía a infusão
que eles chamavam "caapi". Spruce apenas tomou uma pequena
quantidade daquela "nauseous beverage", mas não se
deu conta dos profundos efeitos que ela teve sobre seus amigos. Os
Tukanoans mostraram a Spruce a planta da qual caapi derivava, e ele
coletou espécies da planta e das flores. Spruce chamou-a de
Banisteria caapi, e estudo posteriores levaram-no a concluir que caapi,
yage e ayahuasca eram nomes indígenas para a mesma poção
feita daquela videira.A Banisteria caapi de Spruce foi reclassificada
como Banisteriopsis caapi pelo taxonomista Morton em 1931.
Em 1858, Spruce encontrou a mesma planta sendo usada na tribo Guahibo,
na margem superior do rio Orinoco, na Colômbia e Venezuela,
e, no mesmo ano, entre os Záparos dos Andes Peruanos, que denominavam-na
Ayahuasca.
Simson's, em 1886 foi quem primeiro observou a mistura das plantas
na confecção da Ayahuasca.
Apesar da coleta e identificação da Ayahuasca datar
de 1851, os alcalóides já eram conhecidos desde a primeira
metade do século XIX, o que se deve à facilidade de
extração dos mesmos, bem como aos possíveis usos
clínicos: logo, a Harmalina foi isolada da Peganum harmala
em 1840. Sete anos depois, a Harmina foi identificada. A "telepatina"
- harmina- foi identificada na "yajé" em 1905 (Zerda
e Bayon).
O começo do século vinte foi marcado por mais confusão
do que esclarecimentos acerca da Ayahuasca, muitos identificaram-na,
equivocadamente, do ponto de vista da botânica. Até que,
em 1939, Chen & Chen descobriu que tanto a caapi, yagé
e ayahuasca eram a mesma bebida. Foram estes mesmos pesquisadores
que confirmaram que a harmina, telepatina e banisterina eram a mesma
substância.
Em 1957, Hochstein and Paradies encontraram, além de Harmina,
também Harmalina e Tetrahidroharmina.
Em 68, identificou-se a N,N dimetiltriptamina (DMT) como outro alcalóide
deste chá. Este já havia sido sintetizado em 1931 porém
só foi identificado como substância natural em 1955,
na planta Piptadenia peregrina (Anadenanthera peregrina).
Os princípios da ação farmacológica da
Ayahuasca foram traçados na década de 60 e sugeriam
a interação das beta-carbolinas presentes na Banisteriopsis
e do DMT proveniente da P. viridis.
O estudo de Rivier & Lindgren identificou os alcalóides
presentes na decocção em 1972, isto é: Harmina,
Harmalina, Tetrahidroharmina e Dimetiltriptamina.
Antropologia e uso da Ayahuasca
Plantas com propriedades alucinógenas vem sendo utilizadas
com finalidades místicas e religiosas em diferentes culturas
primitivas (Andritzky, 1989; Callaway, 1996; Desmerchelier, 1996;
Luna, 1984). Há relatos do uso das poções em
toda a Amazônia, chegando à costa do Pacífico
no Peru, Colômbia e Equador, bem como na costa do Panamá,
sendo que foi reconhecida em pelo menos 72 tribos indígenas,
com pelo menos 40 diferentes nomes.
Entre as diversas tribos da bacia Amazônica, a Ayahuasca é
percebida como uma poção mágica inebriante, de
origem divina, que "facilita o desprendimento da alma de seu
confinamento corpóreo", voltando ao mesmo conforme a vontade
e carregada de conhecimentos sagrados. Entre os nativos é usada
para propósitos de cura, religião e para fornecer visões
que são importantes no planejamento de caçadas, prevenção
contra espíritos malévolos, bem como contra ataques
de feras da floresta.
Antes da colonização européia, postula-se que
as plantas inebriantes eram amplamente usadas com fins de bruxaria,
rituais religiosos, cura e contato com forças sobrenaturais
(Dobkin de Rios, 1972; Harner, 1973)
Entre os Tukanoans, o yajé é responsável pela
arquitetura da tribo, pois as imagens geométricas induzidas
pelo efeito do chá desempenham um importante papel na estrutura
da vida cultural desta tribo, sendo que as experiências relacionadas
à Ayahuasca pertencem a uma realidade mais nobre que a ordinária
(Spruce, 1908).
Para os Cashinahua o uso da ayahuasca só deve ser feito em
condições extremas pois é considerada uma experiência
desagradável e amedrontadora. Os índios Jivaro do Equador,
relatam que a experiência com Ayahuasca é a vida real,
ao passo que a realidade cotidiana é apenas uma ilusão.
As visões são guiadas e manipuladas pelos xamãs,
o que resulta em visões grupais sintônicas, que são
incluídas dentro dos rituais religiosos próprios destas
culturas.
O uso da Ayahuasca sobreviveu aos ataques das culturas dominadoras
e pouco a pouco espalhou-se para os mestiços chegando enfim
às pequenas cidades da região Amazônica. Nestas
cidades o uso da bebida foi redimensionado, sendo que os xamãs
da Amazônia Peruana referem-se a si mesmos como vegetalistas.
Estes "plant-doctors" ajudam as pessoas das áreas
rurais e as populações pobres da áreas suburbanas
que geralmente não têm outras opções em
situações críticas na esfera da saúde
física, mental e em "problemas sobrenaturais" (Luna,
L. E., 1984).
Tais vegetalistas apresentam a tendência a especializarem-se
em algumas poucas plantas e usam estes "ensinamentos" em
sua prática. Assim, há tabaqueiros que usam tabaco,
"toeros" que usam várias espécies de Brugmansia
species; "catahueros" que usam resinas da catahua (Hura
crepitans), "perfumeros" que usam diversas espécies
de plantas com aromas fortes e por fim os "ayahuasqueros"
que se utilizam da ayahuasca em seus rituais.
Os Xamãs usam a bebida em um contexto de cura. Eles tomam a
Ayahuasca para melhor diagnosticar a natureza da doença do
paciente. Vegetalistas podem receber o dom da cura por meio de espíritos
da floresta e seu papel é o de, muitas vezes, intermediar a
transmissão do conhecimento médico para o mundo dos
humanos, possibilitando assim a cura.
Os espíritos "plant teachers" são responsáveis
por ensinarem aos xamãs algumas músicas sobrenaturais
chamadas "icaros", tanto dentro das sessões de ayahuasca
quanto durante os sonhos que se seguem. Os "plant teachers"
dão estas canções mágicas aos xamãs
ou vegetalistas então estes podem cantá-las ou sussurrá-las
durante a sessão de cura. Segundo a explicação
dos xamãs, quando uma pessoa se torna doente, seu "padrão
energético torna-se distorcido". Sob a influência
da Ayahusca, o xamã pode ver a distorção e corrigí-la
através de massagens, sucção, plantas medicinais,
hidroterapia e restauração da alma do doente.
A similaridade entre estes métodos xamãs e as técnicas
orientais podem ser notadas. De forma interessante, os xamãs
escolhem plantas medicinais baseados em características visuais,
como formas e cores. Por exemplo, uma planta que produz flores de
formas semelhantes a uma orelha podem e devem ser usadas para tratamento
de doenças relacionadas à orelha e audição.
Parte do treinamento dos xamãs, logo, envolve a prática
de reconhecer e aprender a respeito dos poderes das plantas e dos
animais e suas "virtudes escondidas".
É digno de nota o fato de que muitos xamãs não
usam os ensinamentos da Ayahuasca com pessoas que estejam doentes
mentalmente.
Outra tentativa de uso curativo da Ayahuasca foi empreendido na província
de San Martin, no Peru, na década de 80, por um grupo misto
de médicos franceses e peruanos, na tentativa de facilitar
o tratamento da dependência química à pasta de
cocaína, sendo que não se conhece nenhum estudo científico
controlado, que possa corroborar este resultado (Mabit, 1996).
Ayahuasca e religião
No século passado, além do consumo da mistura entre
as populações indígenas, várias igrejas
adotaram o uso da ayashuasca em rituais sincréticos, especialmente
no Brasil, onde os efeitos psicoativos são acoplados a conceitos
das doutrinas Judaica, Cristã, Africana entre outras. As principais
religiões deste módulo incluem a UDV (União do
Vegetal), CEFLURIS (Santo Daime), Barquinha e o Alto Santo (Labilgalini
Junior, 1998).
O uso da hoasca dentro de tais contextos religiosos foi oficialmente
reconhecido e protegido pela lei no Brasil em 1987. Tais seitas incluíram
a Ayahuasca em seus rituais de comunhão como um simbolismo
comparável ao "pão e vinho". Estas igrejas
argumentam que a poção ajuda a promover concentração
pronunciada e contato direto com o plano espiritual. Segundo a União
do Vegetal, a beberagem é o "veículo, meio"
da ação religiosa e não o fim.
Calcula-se que o número de pessoas que fazem uso regular da
Hoasca (i.e., aproximadamente 1x/mês), na América do
Sul, excluindo-se as populações indígenas, poderia
chegar a 15.000, isto em 1997 (Luna, L. E., 1997).
A primeira destas igrejas começou a ser formada na década
de 1920 no Brasil, e hoje dois grupos, a União do Vegetal (UDV
or 'Herbal Union') e o Santo Daime, continuam em amplo processo de
crescimento. Estas igrejas neo-cristãs espalham-se pelas áreas
urbanas das grandes cidades, em rituais que se repetem em geral uma
vez por semana ou quinzena. Os membros da igreja cultivam as plantas
necessárias ao feitio do chá, supervisionam seu preparo
e estocagem. Em algumas religiões não é incomum
que membros da seita, dado a longa duração dos cultos,
tomem várias doses durante o curso de uma noite.
A UDV é a maior e mais organizada destas religiões e
não permite o uso de Ayahuasca por pessoas que não sejam
membros já efetivos da seita. É também contrária
a uso de drogas bem como ao uso da Ayahuasca fora do contexto religioso,
pois a considera "inadequada ao uso indiscriminado por parte
de pessoas não-iniciadas e sem a orientação de
um dirigente religioso".
Enquanto o uso regular da Ayahuasca ocorre raramente entre os indígenas-
mesmo que a considerável porcentagem destes tenham-na experimentado
em alguma fase de suas vidas- entre os membros das igrejas o consumo
é estável numa base semanal ou quinzenal, dentro dos
contextos cerimoniais.
Dentro da perspectiva religiosa, o potencial de expansão das
seitas que usam ayahuasca é largo. Através da incorporação
de uma substância psicoativa de tal peso em cerimônias
religiosas podem ser alcançados efeitos nas práticas
religiosas antes inexeqüíveis.
Ayauhuasca e a expansão do consumo
É crescente o uso da Ayahuasca, inclusive nas Américas
e Europa (Callaway & Grob, 1998) o que se deve a vários
fatores: o volume de publicações literárias de
impacto bem como a mídia do depoimento de pessoas famosas (Cazenave,
2000); os "Works" da seita Santo Daime em diferentes países;
a facilidade de aquisição de pacotes de turismo, o que
por muitos é conhecido por "drug tourism" onde os
usuários, em busca de experiências novas, aventuram-se
por expedições floresta adentro onde são realizados
rituais em que é convidado a beber a Ayahuasca, geralmente
não inclusa no preço inicial. Tais pacotes podem girar
por volta de U$1100 a 1300, o que não é tão caro
se comparado a uma sessão de Ayahuasca que pode sair por U$800
no "underground" norte americano, conforme aferidos na internet.
Alguns destes sites dizem que o pacote não inclui o uso da
beberagem e que não se trata de "Ayahuasca tourism",
no entanto, recomendam, paradoxalmente, que as pessoas se abstenham
de alimentos que possam levar a interações medicamentosas
com os IMAO.
O crescente número de indivíduos que vem experimentando
a Ayahuasca de maneira descontextualizada, visitas a seitas com o
único intuito de conhecer a bebida, e a atual possibilidade
de se usar a Pharmahuasca: combinação sintética
dos ingredientes psicoativos da Ayahuasca (Ott, J. 1994; Ott, J. 1999).
Outra forma crescente de se usar a combinação de ingredientes
ativos da Ayahuasca é por meio da "Anahuasca", (Ayahuasca
borealis), ou seja, combinação de plantas que produzem
resultados semelhantes: esta possibilidade leva a incontáveis
combinações de plantas que poderiam produzir, em diferentes
graus, o "Efeito Ayahuasca" (Ott, J; 1999).
1 Departamento de Psicobiologia da Universidade Federal de São
Paulo
2 Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas (UNIAD) da Universidade
Federal de São Paulo |