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| Figura 1: A família (Egon
Schiele) |
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A família é fundamental para o sucesso do tratamento
da dependência química. Pensar que tudo se resolverá
a partir de uma internação ou após algumas
consultas médicas é uma armadilha que não
polpa a mais sincera tentativa de tratamento.
A dependência é um problema que se estruturou aos
poucos na vida da pessoa. Muitas vezes, levou anos para aparecer.
Muitas coisas foram afetadas: o desempenho escolar, a eficiência
no trabalho, a qualidade dos relacionamentos, o apoio da família,
a confiança do patrão, o respeito dos empregados.
Como esperar, então, que algo presente na vida de alguém
há tempo e que lhe trouxe tantos comprometimentos desapareça
de repente? Quem decide começar um tratamento se depara
com os sintomas de desconforto da falta da droga e, além
disso, com um futuro prejudicado pela falta de suporte, que
o indivíduo perdeu ou deixou de adquirir ao longo da
sua história de dependência.
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| Figura 2: Contadora
de histórias (Helena Coelho) |
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| Figura 3: Amor (Mário Eloy) |
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Porque a família é
importante para o tratamento
Todos podem ajudar: o patrão, os amigos, os vizinhos,
mas o suporte maior deve vir da família. As chances
de sucesso do tratamento pioram muito quando a família
não está por perto. Veja porque a família
é tão importante:
1. O dependente muitas vezes não tem a noção
completa da gravidade do seu estado. Por mais que deseje
o tratamento, acha que as coisas serão mais fáceis
do que imagina. Por conta disso, se expõe a situações
de risco que podem leva-lo de volta ao consumo.
2. O dependente sente a necessidade de 'se testar', expondo-se
a situações de risco para ver se seu esforço
está valendo a pena. A família deve ajuda-lo
estabelecendo com o dependente regras que ajudem a afasta-lo
da recaída. Todo o tratamento começa com um mapeamento
dos fatores e locais de risco de recaída. A família
deve ajudar o dependente a evitar esses locais. Isso não
deve ser feito de modo policial. Não se trata de fiscalizar.
Trata-se, sim, de chamá-lo à reflexão e
a responsabilidade sempre que esse, sem perceber ou se testar
se expuser ao risco da recaída.
3. O dependente sente dificuldades em organizar novas rotinas
para sua vida sem as drogas. O dependente de drogas precisa
de apoio para superar as dificuldades e estabelecer um novo
modo de vida sem drogas. Vários fatores interferem nessa
tarefa. A pessoa pode estar fora do mercado de trabalho há
muitos anos, desatualizada e sem contatos que lhe proporcionem
voltar em curto prazo. Pode ter saído da escola muito
jovem e agora está pouco qualificado para um bom emprego.
Há dificuldade em se relacionar com as pessoas, agüentar
as frustrações, saber esperar a hora certa para
tomar a melhor atitude. A autocrítica do dependente por
vezes é dura consigo mesmo. Deixa um clima depressivo
e de fracasso no ar. Isso pode fazer com que os planos para
o tratamento sejam deixados de lado.
4. A família no tratamento mostra que o diálogo
ainda existe. A rotina da dependência química
traz ressentimentos para todos. Muita roupa suja vai ser lavada.
No entanto, é preciso entender que se trata de uma doença.
Em um primeiro momento a motivação do dependente
para a mudança e do apoio da família para mantê-lo
motivado são importantíssimos. Isso demonstra
que a família ainda é capaz de se unir, conversar
e resolver seus problemas. Quando o momento de ir para o tanque
chegar, todos estarão fortalecidos e o assunto será
tratado com mais ponderação e menos emoção.
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| Figura 4: Retrato de Modesta e
de Inesita (Diego Rivera) |
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| Figura 5: Cena do dilúvio
(Girodet de Roussy-Trioson) |
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O que pode atrapalhar a participação
da família
Alguns problemas aparecem no momento em que a família
resolve participar do tratamento:
1. O dependente sabe mais sobre drogas do que a família.
A família é pouco informada sobre a questão
das drogas, em especial as drogas proibidas (ilícitas).
A pouca informação que a família possui
vem dos meios de comunicação e de outras pessoas.
Geralmente são distorcidas e sensacionalistas. O assunto
é tratado de modo assustador. As drogas são apresentadas
como algo demoníaco. Isso deixa os pais e filhos longe
de um entendimento. Cria-se um clima de guerra, tudo é
muito terrível e ameaçador. A família deve
se informar primeiro! Além disso, não deve ter
medo de dizer ao dependente que não entende do assunto.
Afirmar algo sem sabe o que se está dizendo, aumenta
ainda mais a distância e a chances de diálogo.
2. A família fica sem saber qual a sua função.
As drogas provocam mudanças importantes na vida familiar.
Pais estão acostumados a serem os mentores dos filhos.
De repente os filhos entram num campo desconhecido. Passam saber
que coisas que os pais não tem a mínima noção.
Quando o dependente é um dos pais, os filhos vêem-se
em uma situação igualmente confusa: como interferir
na vida daquele que os criou e ensinou como as coisas deveriam
ser? Sem saber o que fazer com sua autoridade (abalada), muitos
optam pelo autoritarismo. Isso só deixa o relacionamento
ainda mais deteriorado.
3. A família já tinha problemas muito antes
da droga aparecer. Famílias com problemas podem se
constituir num fator de risco para o aparecimento do consumo
abusivo de drogas entre seus membros. Não que a desestrutura
seja a única causa ou a causa mais importante, mas pode
contribuir. Desse modo, o tratamento da dependência passa
pela avaliação da família e pela necessidade
de seus membros também procurarem orientação
e tratamento. Estudos mostram que vítimas de maus tratos,
a presença de consumo problemático de drogas entre
os mais velhos, violência, ausência de rotina familiar
e a dificuldade dos pais em colocar limites nos filhos aumenta
o risco do surgimento de dependência entre os seus membros.
Desse modo, a cura passa a ser responsabilidade não só
de dependente, mas de todos que o cercam.
4 . A família culpa o dependente ou se culpa.
Apontar culpa é exercer um julgamento. O veredito de
um julgamento é uma conclusão. Não precisa
ser interpretado, entendido. Deve ser cumprido e pronto. Não
há mais o que fazer... Esse é um grande erro que
a família comete. Se os pais ou os filhos se culpam ou
culpam alguém pelo que fizeram ou deixaram de fazer no
passado acabou-se a possibilidade de seguir adiante. Ninguém
tem culpa da situação, mas todos podem assumir
responsabilidades para solucionar o problema! A presença
desse espírito por parte de todos durante do tratamento
melhora as chances de recuperação do dependente.
Além disso é uma grande oportunidade para sanar
as dores e os ressentimentos que se acumularam debaixo do tapete
e que agora, apesar de volumosas, ninguém quer ver.
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| Figura 6: Christmas Divination
(Ivan Kramskoy) |
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5. Falta uma figura neutra. Por tudo o que já
foi dito anteriormente, a análise do problema pela família
e pelo dependente encontra-se distorcida. Muitas vezes pais
e filhos (não importando quem seja o dependente) confundem
a inabilidade de ambos em lidar com o problema, com as dores
e ressentimentos que rolaram no passado. Qualquer família
erra, deixa de fazer ou mesmo traumatiza seus membros. Por outro
lado também lhe dá habilidades e compensações
para minimizar ou superar essas perdas. Esse não é
um caminho frutífero. Se a conversa não é
mais possível, ou se só é possível
dessa maneira, é sinal que chegou a hora de buscar uma
figura neutra. Ela pode ser o profissional capacitado, que se
incumbirá de dar o tom do tratamento e ouvirá
os dois lados. Antes de chegar ao tratamento, outras figuras
neutras importantes podem ser evocadas para facilitar o processo:
um tio respeitado por todos, um amigo, o líder da comunidade,
o padre, o pastor, enfim pessoas que gozem da confiança
de todos os membros da família.
"Errar, errar de novo, errar
melhor"
A família no tratamento significa buscar um novo elo
entre os seus membros. Um novo casamento, uma nova criação
dos filhos, uma nova imagem do pai e da mãe. O caminho
novo a seguir é incerto e por isso sujeito a erros. Muitos
erros surgirão. Impossível não errar dentro
de uma situação tão complexa como essa.
Aliás só não cometem erros aqueles que
nada tentam... A todo instante tais erros precisam ser conversados,
discutidos a fundo entre os membros a equipe profissional que
os assiste. Tratar o dependente não se resume à
busca pela abstinência. É também a construção
de um novo estilo de vida. Para o dependente e para a família. |
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